Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

amor, eu sei que vives


Cecília

07
Mar19

Dou-te um nome de água

para que cresças no silêncio.

 

Invento a alegria

da terra que habito

porque nela moro.

 

Invento do meu nada

esta pergunta.

(Nesta hora, aqui.)

 

(...)

 

Amor, eu sei que vives

num breve país.

 

Os olhos imagino

e o beijo na cintura,

ó tão delgada.

 

Se é milagre existires,

teus pés nas minhas palmas. 

Ó maravilha, existo 

no mundo dos teus olhos.

 

Ó vida perfumada

cantando devagar.

 

Enleio-me na clara

dança do teu andar.

 

Por uma água tão pura

vale a pena viver.

 

Um teu joelho diz-me

a indizível paz.

 

António Ramos Rosa in Teu Corpo Principia

 

António Ramos Rosa - Obra Poética I 

Assírio & Alvim (2018)

 

 

 

 

foi a cerveja


Cecília

08
Ago18

Na mesa junto à janela virada para Poente, ensaia-se uma Última Ceia: a companhia de teatro arranjou doze apóstolos e um Cristo (...) De repente, a meio de uma dança, Borja caminha para a mesa onde se desenrola a Última Ceia e manda retirar o vinho, pois é um erro histórico. O Cristo está impávido, mas São João acha que não faz sentido e afasta o seu copo do alcance do professor, que começa a discursar:

- Ninguém sabe, caros Jesus Cristo e seus apóstolos, por que razão o homem se sedentarizou, já que está provado que ser nómada dá muito menos trabalho. Então porque sucedeu essa mudança radical? Muito simples, vou explicar-vos, queridos apóstolos e Nosso Senhor: foi a cerveja. Para ter cerveja era preciso cultivar. E assim nasceu a sociedade como a conhecemos. Graças à cerveja, temos hospitais e bibliotecas. Não existiriam livros se não fosse a cerveja. Não existiriam escritores nem ciência. Os nómadas não têm prisões nem conhecem o castigo, mas por outros lado não têm bibliotecas. Os nómadas não têm nada disto, porque andam de um lado para o outro e as prisões não podem ser transportadas, tal como as tipografias e os hospitais e as livrarias. E tudo isso se deve ao facto de alguns povos terem querido beber cerveja e, para isso, precisarem de se sedentarizar. No tempo de Cristo, no vosso tempo, andavam todos a beber cerveja. Na verdade, as bebidas alcoólicas confundiam-se entre si, pois era normal juntar frutos a bebidas de cereais e cereais a bebidas de frutos. Mas o que é certo é que o Egipto tinha inúmeras cervejeiras e exportava grandes quantidades para a Palestina. O que se bebia no espaço geográfico em que Cristo habitava era cerveja. O vinho era uma bebida de romanos, dos invasores. Cristo não iria beber a bebida dos ricos, dos opressores (...) mas a dos pobres, das putas e dos pecadores. Isso é que era a cerveja, um símbolo do povo. Jesus Cristo bebia cerveja, que sempre foi chamada de pão líquido, pois é verdadeiramente pão com água. 

 

 

Afonso Cruz - Jesus Cristo Bebia Cerveja (2012)

Penguin Random House (2016)

 

 

 

 

fátima


Cecília

09
Mai17

(...)

Então, quando essas palavras são publicadas, o segredo é libertado no mundo: mistura-se com o olhar dos outros. Por consequência, muda a forma como os outros veem e, também, a forma como os outros nos veem.

Foi justamente nos olhares dos outros que encontrei as primeiras questões. Ainda sem terem lido uma página, quando se mencionava o tema "Fátima", todas as perguntas eram formas explícitas ou subliminares de me colocarem uma única pergunta: acredita?

(...)

Em nenhuma ocasião respondi sim ou não. Por um lado, não creio que a resposta a essa pergunta seja apenas sim ou apenas não, a não ser que se simplifiquem as questões até ao seu elemento mais básico, tão básico que já não é sequer representativo do que se está a falar. Por outro lado, porque a minha intenção primeira, uma das que me levou à escrita do livro, foi justamente encontrar uma maneira de falar de Fátima que não passasse por esse separar de águas, esse muro divisor: acredita/não acredita.

Nem todas as pessoas que afirmam acreditar em algo comum o fazem da mesma forma. Acreditar não é preto e branco. Também me parece que nem todas as pessoas são cépticas da mesma forma. Há inúmeras gradações e particularidades no que toca à crença e/ou à fé. Não existe um interruptor para a fé ou o cepticismo.

(...)

Fátima é um tema multidimensional. Ao longo destes cem anos, assumiu uma enorme importância política e social. Em grande medida, pode dizer-se que houve uma certa sensibilidade acerca deste tema que foi paralela às próprias alterações políticas e sociais do país. Por tudo o que dizem sobre nós, essas são questões de grande interesse, que merecem ser levantadas, observadas e reflectidas.

 

Já no que toca à sua dimensão religiosa, Fátima é um assunto que está na esfera da sensibilidade íntima de cada um. A liberdade religiosa é uma conquista civilizacional. Não devemos estar dispostos a abdicar dela em nenhuma circunstância.

Nesse sentido, é fundamental que crentes e cépticos se saibam respeitar entre si, só assim poderá existir um diálogo edificante. Não vejo razões para duvidar que uns possam aprender algo com os outros. Se não estivermos de ouvidos fechados, de olhos fechados, podemos sempre aprender algo com os outros, podemos sempre descobrir algo novo. E os outros, claro, não são uma abstração. Os outros são aqueles que têm opiniões realmente diferentes das nossas.

 

in http://www.joseluispeixoto.net/respeito-124560