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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

02.07.17

mar


Cecília

Um certo dia, chegou à aldeia o Tio Jaime Litorânio, que achou grave que os seus familiares nunca tivessem conhecido os azuis do mar. 

Que a ele o mar lhe havia aberto a porta para o infinito. Podia continuar pobre mas havia, do outro lado do horizonte, uma luz que fazia a espera valer a pena. Deste lado do mundo, faltava essa luz que nasce não do Sol mas das águas profundas. 

A fome, a solidão, a palermice do Zeca, tudo isso o Tio atribuía a uma única carência: a falta de maresia. Há coisas que se podem fazer pela metade, mas enfrentar o mar pede a nossa alma toda inteira. Era o que dizia Jaime. 

- Quem nunca viu o mar não sabe o que é chorar!

 

 

Mia Couto (texto) e Danuta Wojciechowska (ilustração) – O Beijo Da Palavrinha  (2008)
LEYA | CEM (março 2016)

 

 

 

 

 

 

 

02.01.17

(...)


Cecília

Diz o meu nome 

pronuncia-o 

como se as sílabas te queimassem 

                                                        [ os lábios 

sopra-o com suavidade 

de uma confidência 

para que o escuro apeteça 

para que se desatem os teus cabelos 

para que aconteça 

 

Porque eu cresço para ti 

sou eu dentro de ti 

que bebe a última gota 

e te conduzo a um lugar 

sem tempo nem contorno 

 

Porque apenas para os teus olhos 

sou gesto e cor 

e dentro de ti 

me recolho ferido 

exausto dos combates 

em que a mim próprio me venci 

 

Porque a minha mão infatigável 

procura o interior e o avesso 

da aparência 

porque o tempo em que vivo 

morre de ser ontem 

e é urgente inventar 

outra maneira de navegar 

outro rumo outro pulsar

para dar esperança aos portos 

que aguardam pensativos 

 

No húmido centro da noite 

diz o meu nome 

como se eu te fosse estranho 

como se fosse intruso 

para que eu mesmo me desconheça 

e me sobressalte 

quando suavemente 

pronunciares o meu nome 

 

Mia Couto in Confidência (agosto 1979)

 

"Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

Editorial Caminho - novembro de 1999

 

 

 

13.10.16

áfrica


Cecília

 

Margareth Menezes

(13 de outubro de 1962)

 

"Recentemente, o escritor Mia Couto esteve de volta ao Brasil para a Bienal do Livro do Rio de Janeiro e mais uma vez me surpreendeu com uma simples frase: “Deixem a África contar sua própria história”. Isso bateu em mim como uma bigorna! Se pararmos pra pensar, o que realmente conhecemos sobre o continente africano, se não as informações trazidas de lá pelos povos que se meteram a colonizar o não colonizável? O que realmente se revelou da gigante e misteriosa África que pode nos dar alguma base real da sua verdadeira história? Partindo da informação de que são 61 países eterritórios, todos independentes, cada um dividido por várias etnias com dialetos, idiomas, histórias de formação e reinados muito mais antigos do que o Brasil e alguns países da Europa, ainda há muito o que se saber.

Ainda hoje, muitos pensam a África como um grande deserto. Eles existem, mas além do Saara e da Namíbia, existem muitas belezas nas savanas africanas, montanhas e rios maravilhosos, existem cidades modernas, como asque já vi. A África Oriental é riquíssima e cheia de colaborações para a formação da cultura ocidental. Existem povos na África que não têm o menor interesse em interagir com o ocidente e se bastam. Tudo o que sabemos da África são dados trazidos para nosso conhecimento de forma convencional. A partir dessas ideias, vejo como perdemos tempo na insistência em alimentar a discriminação no solo do nosso país. Uma ação fora de propósito, já que seríamos muito mais ricos se fosse incentivada a inclusão de todos os cidadãos. Penso que na atual situação do mundo, o país que tiver seu povo unido e melhor preparado garantirá seu futuro mais soberano." 

 

Margareth Menezes - "A história da África por ela mesma" - coluna, Revista Raça Brasil nº 183

 

 

 

 

 

 

17.08.16

...


Cecília

" A família, a escola, os outros, todos elegem em nós uma centelha promissora, um território em que poderemos brilhar. Uns nasceram para cantar, outros para dançar, outros nasceram simplesmente para serem outros. Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez". 

 

 

 

" Quem viveu pregado a um só chão não sabe sonhar com outros lugares." 

 

 

 

" - Pai, a mãe morreu?

- Quatrocentas vezes. 

- Como?

- Já vos disse quatrocentas vezes: a você mãe morreu, morreu toda, faz de conta que nunca esteve viva.

- E está enterrada onde?

- Ora, está enterrada em toda a parte." 

 

 

" ... são as esperas que nos fazem envelhecer."

 

 

" Você deve ter medo é de não saber."

 

 

" Aqui é tão longe que Deus se perde no caminho." 

 

 

" Os meus filhos são a minha última vida. 

- Não é assim que você os ajuda. 

Não é segurando nas asas que se ajuda um pássaro a voar. O pássaro voa simplesmente porque o deixam ser pássaro. " 

 

" Derrotado, Ntunzi, ladainhava:

- Eu sei o que isto é... Isto é feitiço...

Era feitiço, sim. Mas não lançado por meu pai. Era o pior dos maus-olhados: aqueles que lançamos sobre nós próprios." 

 

 

 

" Não viver é o que mais cansa." 

 

 

 

" ... quem sai do seu lugar, nunca a si mesmo regressa." 

 

 

" E todo o bom pai enfrenta a mesma tentação: guardar para si os filhos, fora do mundo, longe do tempo." 

 

 

" De que vale ter crença em Deus se perdemos fé nos homens?"

 

 

 

" A política morreu, foram os políticos que a mataram."

 

 

" ... por que motivo Zacaria não se lembrava de nenhuma guerra? Porque ele lutara sempre do lado errado." 

 

 

" A felicidade é uma questão de pontaria." 

 

 

" - O seu avô paterno rezava junto aos rios quando queria pedir chuva. 

- E depois chegava a chover?

- Chove sempre depois. A reza é que pode ser feita com demasiada antecedência. " 

 

 

 

" - Você não sabe nada, meu irmão. Você tem idade para ser enganado, eu já tenho idade para ser aldrabado." 

 

 

" Você viu como o luxo escandaloso se encosta na miséria? " 

 

 

" Ntunzi responderia que Jesusalém se fundava num logro criado por um doente. Era mentira, sim. Porém, se temos de viver na mentira que seja na nossa própria mentira. Afinal, o velho Silvestre não mentia assim tanto na sua visão apocalíptica. Porque ele tinha razão: o mundo termina quando já não somos capazes de o amar. 

  E a loucura nem sempre é uma doença. Por vezes é um ato de coragem. O teu pai, caro Mwanito, teve essa coragem que nos falta a nós. Quando tudo estava perdido, ele começou tudo de novo. Mesmo que esse tudo aos outros parecesse nada. 

  Eis a lição que aprendi em Jesusalém: a vida não foi feita para ser pouca e breve. E o mundo não foi feito para ter medida." 

 

 

" Não sei se Marcelo foi o amor da minha vida. Mas foi uma vida inteira de amor. Quem ama, ama para sempre. Nunca faças nada para sempre. Exceto amar."

 

 

" Uma tarde levou a turma a visitar o local onde um jornalista que denunciara os corruptos tinha sido assassinado. No local, não havia monumento nem nenhum sinal de homenagem oficial. Apenas uma árvore, um cajueiro eternizava a coragem de quem arriscou a vida contra a mentira. 

- Deixemos flores neste passeio para limpar o sangue; flores para lavar a vergonha." 

 

 

 

Mia Couto  – Jesusalém (2009)

 

Coleção Essencial Livros RTP e LeYa (2016)

 

 

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