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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

definições concretas

07.09.21

A consciência igualitária dos Europeus só foi despertada após o genocídio de judeus, ciganos, negros e outras minorias consideradas desviantes, em nome da crença nazi na supremacia ariana e na necessidade de a preservar. Esta crença é o protótipo do racismo na história contemporânea. Consideramos racista, a ideologia de acordo com a qual a diversidade humana pode ser agrupada em raças inerentemente desiguais, em que umas têm superioridade e poder sobre outras. Consideramos antirracistas todas as ideias, comportamentos, ou políticas que visam demolir essa ideologia e as suas consequências sociais.

 

Jorge Vala  – Racismo, Hoje, Portugal em Contexto Europeu (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Jorge Vala (2021)

 

 

uma questão de bundas

01.09.21

... a propósito do subtema Gata Borralheira: neste ciclo, que devemos tomar como um todo, a heroína e o príncipe desencantam-se mutuamente; nisto consistindo, afinal, o proverbial casamento pelo qual serão felizes para sempre. 

 

Francisco Vaz da Silva – Gata Borralheira e Contos Similares (2011)
Círculo de Leitores e Temas e Debates (2011)

 

escândalos

15.08.21

há uma clara diferença temporal entre Portugal e os restantes países europeus que sofreram a II Guerra Mundial no que toca ao despertar do debate em torno da ideia de raça e das desigualdades com base nessa mesma ideia. O silêncio demasiado longo em torno destas questões, a falta de informação e de categorias mentais para as discutir, a reduzida investigação empírica e a ilusão de que nunca houve nem há racismo em Portugal, tornam esse debate, ainda hoje, demasiadas vezes, um escândalo, acompanhado de um espanto coletivo que confrange. Este espanto de hoje olha para a norma do antirracismo como se fosse uma comoção deslocada no tempo, um extremismo talvez mesmo perigoso, inimigo da liberdade de expressão.

 

Jorge Vala – Racismo, Hoje, Portugal em Contexto Europeu (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Jorge Vala (2021)

 

90221506_3065233903487849_6583643501320208384_n.pnin A Criada Malcriada - Página inicial | Facebook

alphas

03.08.21

A rainha morreu entre os seus braços e jamais um marido carpiu tanto.Ao ouvi-lo soluçar noite e dia, formou-se o sentimento de que o seu luto não duraria muito; que ele chorava os seus defuntos amores como um homem apressado, que quer despachar o assunto.

Não se enganaram. 

 

Francisco Vaz da Silva – Gata Borralheira e Contos Similares (2011)
Círculo de Leitores e Temas e Debates (2011)

 

 

fado (padrinho)

21.07.21

Era uma vez uma jovem chamada Borralheira [...] A mãe adotiva da Borralheira tratava-a muito cruelmente e as irmãs adotivas obrigavam-na a trabalhar duramente, como se ela fosse a sua trabalhadora não paga pessoal.

Um dia chegou-lhes um convite a casa. O príncipe celebrava a sua exploração do campesinato espoliado e marginalizado organizando um baile de gala. As irmãs adotivas da Borralheira ficaram todas excitadas [...] Começaram a pensar nas roupas caras que iriam usar para alterar e escravizar as suas imagens corpóreas naturais a fim de emularem um padrão irrealista de beleza feminina [...] Ao cair da noite a mãe e as irmãs adotivas deixaram a Borralheira em casa para terminar o seu trabalho [...]

De repente chispou um relâmpago e diante dela estava um homem com roupas largas em algodão e um chapéu de aba larga [...]

«Olá Borralheira, eu sou o teu fado padrinho, ou representante divino individual, se preferires. Queres então ir ao baile, não é verdade? E cingir-te ao conceito masculino de beleza? Espremer-te num vestido justo que te vai cortar a circulação sanguínea? Entalar os pés em sapatos de salto alto que te arruinarão a estrutura óssea? Pintar a cara com produtos químicos e cosméticos testados em animais não humanos?»

«Oh sim, absolutamente!», respondeu ela sem hesitação [...]

Muitas, muitas carruagens faziam fila às portas do palácio naquela noite; aparentemente, nunca ninguém pensara em partilhar o transporte. Não tardou que a Borralheira chegasse [...]

Os homens olharam para ela, e desejaram esta mulher que resumia perfeitamente os seus ideais de sedução feminina do tipo Barbie. As mulheres, treinadas desde tenra idade a desprezar o próprio corpo, olharam-na com inveja e despeito [...]

A Borralheira depressa atraiu sobre si o olhar predatório do príncipe, ocupado a discutir torneios e lutas de ursos com os seus companheiros [...] 

A Borralheira estava orgulhosa da comoção por si causada [...]

O príncipe tornara claro aos seus amigos que tencionava «tomar posse» da jovem senhora. Mas a determinação do príncipe irritou os compinchas, que também a desejavam e queriam tomá-la. Os homens desataram a gritar e a empurrar-se [...]

As mulheres estavam sideradas perante esta feroz exibição de testosterona, mas, por mais que tentassem, não conseguiam separar os combatentes. Pareceu às outras mulheres que a Borralheira era a causa de toda a tribulação, portanto cercaram-na e começaram a evidenciar uma hostilidade muito pouco fraterna. Ela tentou escapar, mas os seus pouco práticos sapatos de vidro tornaram a tentativa quase impossível. Felizmente, nenhuma das outras mulheres estava melhor calçada.

A algazarra atingiu tais níveis que ninguém ouviu o relógio da torre dar a meia-noite. Ao bater da décima segunda badalada, o belo vestido e sapatos da Borralheira desapareceram e ela voltou a ver-se nos seus andrajos de camponesa. Agora a sua mãe e irmãs adotivas reconheceram-na, mas calaram-se para evitar passar uma vergonha.

As mulheres ficaram mudas perante esta transformação mágica. Liberta dos constrangimentos dos vestidos e dos sapatos, a Borralheira suspirou, espreguiçou-se e coçou as costelas. Sorriu, cerrou os olhos e disse:

«Agora matai-me se quiserdes, irmãs, que pelo menos morro consolada.»

As mulheres em volta ficaram novamente invejosas, mas desta feita adotaram uma estratégia diferente: em vez de exercerem vingança sobre ela, livraram-se de coletes, espartilhos, sapatos e de tudo quando as apertava. Dançaram, pularam e guincharam de pura alegria, finalmente à vontade na sua roupa interior e pés descalços.

Se os homens tivessem levantado os olhos da sua dança machista de destruição, teriam visto muitas mulheres desejáveis vestidas como quem vai para a cama. Mas continuaram a martelar-se, esmurrar-se, pontapear-se e rasgar-se uns aos outros, até que morreram todos.

As mulheres deram estalidos com a língua, mas não sentiram remorsos. Agora o palácio e o reino eram delas. O seu primeiro ato oficial foi vestirem os homens com as roupas de que elas próprias se tinham despojado e declararem à comunicação social que a zaragata tinha começado quando alguém ameaçara denunciar as tendências que o príncipe e os seus companheiros tinham para o travestismo. O segundo consistiu na criação de uma cooperativa de confeção que só produzisse roupas femininas confortáveis e práticas. Depois afixaram no castelo um cartaz a anunciar Cinza a Vestir (assim se chamava a nova linha de vestuário) e, graças à autodeterminação e a marketing inteligente, todas - mesmo a mãe e as irmãs adotivas - viveram felizes para sempre.

 

COMENTÁRIO

James Finn Garner parodia a ideologia contemporânea do «politicamente correto» reescrevendo à luz da mesma os principais contos clássicos. E, pelo próprio excesso da expurgação realizada, é a ideologia do politicamente correto que aparece afinal subtilmente satirizada.

[...]

As mulheres, primeiro despeitadas pelo triunfo da Borralheira no quadro dos valores machistas, depressa percebem o valor da libertação involuntária da Borralheira quando soa a meia-noite. Assim, dá-se uma revolução feminista radical que não só derruba os valores masculinos como reorganiza a vida sem homens. Impera doravante uma visão do mundo - e uma economia - centrada no respeito pelo corpo feminino e pela natureza. A ironia é que tudo isto se dá graças à maquinação do fado padrinho - é afinal um homem quem urde as tramas da revolta feminina nesta paródia do politicamente correto.

 

Francisco Vaz da Silva – Gata Borralheira e Contos Similares (2011)
Círculo de Leitores e Temas e Debates (2011)

 

 

detrações

15.07.21

Há quem garanta que esta "é uma história mal contada". O já falecido historiador José Hermano Saraiva, conhecido admirador do ditador, disse e escreveu: «Aristides de Sousa Mendes é uma invenção de uma certa esquerda para denegrir a memória de Salazar.» E mais: «Quem salvou os refugiados em 1940 foi o comboio [...] para lá, levavam volfrâmio, e para cá traziam refugiados.» É a versão do "volfrâmio humanitário", uma perigosa tentativa de revisionismo. José Hermano Saraiva nem pensou nas questões técnicas: comboios para minério (abertos) não são a mesma coisa que comboios para passageiros. É verdade que os nazis também usavam comboios de carga (fechados) para levar pessoas para os campos de concentração... E há outro detalhe: a bitola dos comboios ibéricos não é a mesma dos comboios para lá da fronteira de Hendaye.

Para outros, a desobediência à Circular 14 é um episódio que em vez de nos encher de orgulho nos enche de embaraço, e é melhor nem falar no assunto. Seria muito melhor se fosse mentira. E há, na realidade, tentativas de contar os factos de outra maneira, algumas que demonstram até uma abundante criatividade. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

e aos costumes nada se faz

06.07.21

A guerra terminou a 8 de maio de 1945 e o dia 9 de maio foi declarado Dia da Paz. Os chefes dos governos dos países aliados e de outros, para comemorarem a ocasião, fizeram discursos para a nação. Portugal (ou Salazar) não podia ficar atrás, e "naturalmente", pôs-se do lado das nações vitoriosas que se bateram pela democracia, pela liberdade e pela defesa dos direitos humanos. Salazar, que se lembrou dos elogios que lhe foram dirigidos em 1940, erradamente e por engano, pela imprensa estrangeira devido à política de abertura e acolhimento de refugiados", proferiu, na Assembleia Nacional, a 18 de maio, o discurso Portugal , a Guerra e a Paz (in Discursos, Salazar). A parte que mais marcou os gémeos, os meus avôs, começava assim: «Do mais não há que falar. Quaisquer outros na nossa situação acolheriam refugiados, salvariam e agasalhariam náufragos, ajudariam a suavizar a sorte dos prisioneiros, enviariam donativos a necessitados, por dever de solidariedade humana e também para manter no mundo convulsionado por ódios mortais o que poderia ser chama, embora ténue, de caridade, antevisão, embora pálida, da justiça e da paz. Pena foi não termos podido fazer mais.»

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes (2017)

 

 

compaixão €€€€€€€xpr€€€€€€€ssssss

06.07.21

O tempo passava, e Aristides não perdia a esperança de que melhores dias viessem, apesar do seu estado de saúde deteriorado, pelo derrame cerebral e pela situação absurda em que se encontrava. Houve quem lhe sugerisse que se dirigisse a um influente amigo de Salazar - António Cerejeira, o cardeal-patriarca. Sempre otimista, o meu avô assim fez. Finalmente, obteve uma resposta: «Que se dirigisse a Fátima e aí rezasse pela intercessão de Nossa Senhora.»

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

 

chega de diminuições

01.07.21

«Ninguém pode negar a humanidade do outro sem com isso diminuir a sua.»

James Baldwin, Nobody Knows My Name, 1961 

 

 

Jorge Vala  – Racismo, Hoje, Portugal em Contexto Europeu (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Jorge Vala (2021)

 

 

país(es)

29.06.21

Um país se delimita nas mudanças do vento.

Labirinto ou fábrica de espumas sempre aberta. 

Sinuosas continuidades, dunas de pensamento, 

por vezes um abrigo, ninho de primavera,

por vezes um polvo ardendo nas areias. 

 

António Ramos Rosa in UM PAÍS, UM POEMA - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)