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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

haja dó

Cecília, 16.07.20

A porta que se escancarava para os que se haviam portado de acordo com o que se sabia que estava correcto. Os antigos. De acordo com o que eles já diziam. 

Era o medo de não estar certo que se via nos olhos dele. 

Só que não era possível que se andasse há dois mil anos a ensinar uma doutrina errada. Esse era o argumento. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

 

 

se só, não

Cecília, 01.07.20

- Falávamos mais das clientes, do que dos cabelos. Do feitio, da maneira de ser delas. Nós somos cabeleireiros, somos médicos e somos padres. É uma terapia. Antes era, pelo menos. Mas... é muito esquisito. As mulheres sabem perfeitamente quem nós somos, às vezes até nos contam a vida toda, mas na rua são capazes de não nos falarem. Fingem que não nos veem. Chegámos a encontrar clientes nossas no Pap'Açorda que, ali, faziam de conta que não nos conheciam. Gente supostamente educada, com apelidos sonantes. E nós, é claro, gozávamos imenso com isso. É óbvio que quando ele se tornou um artista conhecido, já faziam gala em conhecê-lo. Se só fosse cabeleireiro, não. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

ponto de vista

Cecília, 26.06.20

O Samuel devia ter razão, talvez a felicidade seja só ponto de vista. 

 

Afonso Reis Cabral – Pão de Açúcar
Publicações Dom Quixote (2018)

 

 

impaciente, cega

Cecília, 09.03.20

 

Alguém a viu sair, essa mulher descalça

que marcha ao longo do muro impaciente e cega? 

 

 

António Ramos Rosa in CICLO DO CAVALO - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

gosto pelo medieval

Cecília, 18.12.19

As visões românticas da Europa medieval omitem os requintados instrumentos de tortura e ignoram candidamente a taxa de homicídio de então, trinta vezes superior à actual. Os séculos pelos quais sentimos nostalgia eram tempos em que a mulher de um adúltero podia ver o nariz amputado, uma criança de sete anos podia ser enforcada por roubar um saiote, a família de um prisioneiro teria de pagar pelos seus grilhões, uma bruxa podia ser serrada ao meio e um marinheiro açoitado até ficar em carne viva. 

 

Afonso Cruz_ O macaco bêbedo foi à ópera - Da embriaguez à civilização (2019)
Fundação Francisco Manuel dos Santos e Afonso Cruz (2019)

 

 

 

as cerimónias do medo e do orgulho

Cecília, 31.07.19

Então, Manoel solta os freios das cerimónias, agarra-a pela cintura e, antes de a beijar, diz-lhe que as doidices de Lisboa não são nada, ao pé da doidice que ele tem por ela. Olha que estás a desfazer-me o chignon... Pois desfaço-to mesmo!

Acabam por comer a canja fria, o Manoel de camisa esgargalada e fora das calças, a Juliana de cabeleira desfeita e chambre chinês 

 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

pedro(a)s

Cecília, 22.07.19

Conheci a maturidade infantil

das crianças, mas também não é isso 

(...)

fartei-me de tentativas.

 

Desejo antes a ferida sólida

que não sara, o enigma, essa coisa

que se transporta inteira pelo Universo

como o irreprimível grito

do sangue no vento avisando

o futuro de que não ficámos ilesos

à espessa rede do Amor 

(...)

Aperta-me esse mitigado anel tão alto

(...)

porque a angústia, doce angor, e a esperança

informam o meu sangue

do regresso da tua ausência.

 

Barbeio a infâmia do nosso desencontro,

o homem pode punir-se numa higiene

precária, pode pintar-se e eu

cumpro imenso os rituais

do disfarce.

 

Fumo a tirania do meu medo, para mim

é sede de ser tarde

a vinda do teu húmido oásis

sotto voce e eu,

eu reduzido a nada.

 

A morte avança, ama-me sob a luz

da tua voz

cobrindo a terra elementar onde prometidos

potros de crinas soltas e alma leve

se opõem ao vazio. 

 

Paulo da Costa Domingos in Cabeças

 

 

Paulo da Costa Domingos – Carmina (1971-1994)
Antígona (1995)

 

 

 

 

honra deliciosa

Cecília, 11.07.19

Vá Com Deus
Vanessa da Mata
(Sereia de Água Doce)

 

Vejo o povo dizer
Que perdeu um amor
Que quando estava lá
Só rimava com dor
Isso não é perda
Isso é livramento

Nesse mundo tonto
Que vive rodando
Vejo tanta gente desesperada
Criando histórias
Criando pessoas
Criando paixões
Medo da solidão

Qual é o problema
De estar na sua própria companhia?

Vi um casal com sangue
Ligação de ódio
Eu sei que os dois
Já não viviam
Andavam nas ruas
Meio mortos vivos
Até que entenderam seu desamor

Qual é o problema
De estar na honra
De sua própria companhia?

Fazer o que der na telha
Autossuficiência
Que delícia
Qual é o problema?


(...)


Vá com Deus...