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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

as neutralidades de bom aluno (I)

24.06.21

a sua carta sem resposta dirigida ao Presidente da República. Essa carta, datada de 1 de setembro de 1945, numa altura em que o meu avô já teria tido o primeiro AVC e precisava que alguém lhe escrevesse os textos, foi ditada por ele a Gigi. É uma carta que reflete a situação de desespero em que vivia a família [...] O presidente Carmona, homem de armas e chefe das Forças Armadas portuguesas também teve receio de responder ao cônsul de Bordéus, e , prudentemente, preferiu reenviá-la a Salazar, em cujo "Arquivo Pessoal" foi encontrada pelo biógrafo do meu avô. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

That's okay, We're insured

09.06.21

- Muito bem, agora têm um bom emprego. Se não sujarem o nariz, têm segurança para o resto da vida.

Segurança? Podíamos ter segurança na prisão. Três metros quadrados sem renda para pagar, sem contas de água ou de luz, sem impostos, sem pensão para as crianças. Sem imposto de circulação. Sem multas de trânsito. Sem repreensões por conduzir embriagado. Sem perder dinheiro nas corridas de cavalos. Cuidados médicos gratuitos. Camaradagem com pessoas que têm interesses semelhantes. Missa. Sexo anal. Funeral sem despesas. 

 

Charles Bukowski – Correios (1971)

Antígona (2015)

 

 

vizinhança (ou as verdadeiras selvas)

09.06.21

No adro deram-lhe água; a vizinha cujo carro, segundo Angelina, «rodou toda a noite» também lhe levou pão e água, numa das vezes que ali regressou. De manhã, deixou-a em casa, fez-lhe o café com leite que a mulher não tomara na noite anterior, mas a velha mulher não se sente grata. Semanas depois deu pela falta de uma série de bens. Convenceu-se de que foi a vizinha que, naquela noite, lhe ficara com a chave de casa a responsável pelo roubo. Chegou a fazer queixa na GNR, mas diz que o processo não avançou. Hoje chora mais pelas coisas perdidas do que pelo receio do fogo. 

 

Patrícia Carvalho – Ainda aqui estou (2018)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Patrícia Carvalho (2018)

 

 

atirar a salvar

11.02.21

Ao olharmos para a lista dos emolumentos do consulado de Portugal com os nomes de pessoas que pagaram para obter o visto, é possível constatar a existência de muitos nomes que poderiam ser "suspeitos" segundo os critérios da PVDE. As pessoas falavam umas com as outras e transmitiam os seus sentimentos, os medos e as ânsias de forma espontânea. O cônsul de Portugal começava a ser falado nos lugares públicos, por «ajudar judeus a deixar França», como relata o biógrafo Rui Afonso.

Quando Aristides vem a Portugal para o casamento da filha, já traz na bagagem o início do primeiro caso que vai custar-lhe a carreira: é o caso Wiznitzer - o primeiro visto, passado apenas dez dias depois da entrada em vigor da Circular 14. Arnold Wiznitzer, a mulher e o filho, por terem perdido a nacionalidade austríaca e por serem judeus, tinham-se tornado personae non gratae numa Europa em guerra. O seu único objetivo era sobreviverem e conseguirem sair do continente europeu. Aristides assina-lhes o visto para virem a Portugal apanhar um navio para o outro lado do Atlântico, a 21 de novembro de 1939. Não havia tempo a perder com burocracias, pois Wiznitzer iria ser "internado" num campo de concentração por se encontrar em França de forma irregular. O pedido de autorização para passar o visto foi enviado para Portugal a 27 de novembro por Aristides, repetido a 6 de dezembro, e sempre nada... As autoridades portuguesas nunca responderam de forma séria, pois começaram a dizer em tom de troça que o cônsul primeiro passava os vistos e depois é que pedia autorização, para estar conforme à Circular 14. De facto, enquanto os militares nazis primeiro atiravam a matar e depois é que faziam perguntas, Aristides primeiro salvava pessoas e depois é que se conformava à burocracia lenta e pesada. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

esperanças de oriente

09.12.20

Que mais trazia consigo o ano de 1956?

(...)

Que mais novidades ainda?

Esperança: o parto sem dor - utilizado principalmente na Rússia e China comunistas - foi aceite pela Igreja Católica. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

Beba, mas com moderação durante o período de vacinação contra a covid-19. É basicamente a recomendação que o Instituto Gamaleia, que produz a vacina Sputnik 5, da Rússia, fez hoje, negando informação de autoridade do governo russo sobre proibição do consumo de álcool nesse período.

in https://valorinveste.globo.com/mercados/internacional-e-commodities/noticia/2020/12/09/instituto-russo-nega-necessidade-de-abstinncia-de-lcool-durante-vacinao.ghtml

 

medo

08.12.20

«Dee Dee», disse ele, «daqui a meia hora tenho uma entrevista com o Rod Stewart. Tenho de ir.» Partiu.

Dee Dee pediu outra rodada. «Porque é que não és simpático para as pessoas?»

«Medo», respondi. 

 

Charles Bukowski – Mulheres (1978)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2003)

 

A MORTE E O AVARENTO (1494)

Hieronymus Bosch 

engolir para fora

24.08.20

Certa vez, o avô Jorge cortou a ponta do dedo com a tesoura da poda. Nesse caso, o grito foi curto e grave. Como se o som quisesse sair e ele o metesse para dentro. Lutava não apenas com o sangue que jorrava como de uma mangueira, mas com o próprio grito. E logo de seguida, com um lenço apertado no dedo, o avô conseguiu dominá-lo. Tinha sido uma questão de segundos. Um desleixo. Uma coisa a não repetir.

[...]

Aquele grito existiu, não era possível voltar atrás, mas foi remetido para a escuridão no mesmo momento em que foi produzido. A escuridão das coisas de que não é permitido falar. As coisas íntimas. As coisas que se querem só para nós. 

Os gritos da mãe eram outra coisa. Eram gritos virados para fora. Queriam dizer que existiam. Viajar para longe. Perdurar no tempo e na distância. Era como se fizessem questão de permanecer dentro dela e ela os quisesse expulsar. Como se, de boca aberta, procurasse projectar o som o mais longe que podia. 

E a isto, percebi depois, as pessoas chamavam desabafar.

- Deita tudo cá para fora - ouvi o resto do dia. 

Isso queria dizer que o avô tinha procurado abafar a sua dor, comê-la. Por outro lado, a mãe fazia todos os possíveis para desabafar a sua dor, vomitá-la. Isto era compreensível. À partida, só conseguíamos manter uma dor dentro de nós se ela lá coubesse. E tendo em conta o que ouvi durante esses dias, era natural que a dor da mãe fosse muito maior do que a do avô.

Uma dor maior. Sem comparação possível. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)