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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

pés para cima

 

Também davam longos passeios à beira-mar, que António tanto apreciava, e costumavam ir para o 2001, em Cascais, onde ficavam a dançar toda a noite:

- O António não se drogava, não fumava e não bebia bebidas alcoólicas. Eu também não. Quer dizer, bebia, mas nada de exageros.  Mas toda a gente pensava que sim, porque passávamos a noite aos pulos.

Um outro amigo da época, o Paulo, mais tarde ligado ao cinema, lembra-se de o ver na Fonte da Telha, à Caparica, imóvel no areal deserto a fazer ioga. «Punha-se de cabeça para baixo, pés e pernas para cima, apoiado nos braços, em frente ao mar, a meditar.»

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

(recuperando)

um punho de fogo e um verdadeiro sorriso de aurora 

[...]

É toda mar e vento e praia com um adejar de gaivotas nos cabelos.

[...]

o seu adeus uma ondulada mão desfazendo-se entre mar e céu. 

 

António Ramos Rosa in  MUSAS  - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

chegado

Porque és sem tensão o resultado,

o chegado. A praia e o centro do olhar

no extremo e simples.

[...]

à varanda de ti próprio.

À varanda do mar.

[...]

No espaço interno mar

onde chegaste

o desejo coincide em si

no mar. 

 

 

António Ramos Rosa in O DESEJADO CHEGADO  - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

a(s) verdadeira(s) mudança(s) envolvendo milhões

(e estúdios eco, já agora)

não quero navegar num mar fácil de palavras 

 

António Ramos Rosa in O PAPEL, A MESA, O SOL, A PENA... - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

azul benção

Deolinda seguia os dois, desconfiada e temerosa do mar, mas, ao mesmo tempo, fascinada pela sua vastidão azul, pelo movimento quase hipnótico das ondas, e pelo seu incessante marulhar:

- Sente-se uma pessoa tão pequena - murmurava ela [...]

Levava as socas na mão e a trouxa com o farnel debaixo do braço. Acordavam, mal o dia despontava, iam por volta das nove da manhã para a praia, sentavam-se sempre no mesmo lugar e regressavam sem falta ao meio-dia: «Muito cuidado, sobretudo com as crianças. A pele delas é mais sensível, e para o tratamento fazer efeito a menina tem de estar nua. Depois do meio-dia o sol é um veneno. Ao fim de uns dias, com o corpo habituado, podem voltar à tarde, mas só depois das cinco horas. E não se esqueça de a pôr a dormir a sesta. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

tempo

 

Põe o tempo o cuidado

que ignora o ouvido

e que o livro não dá.

É dele este silêncio,

este saber,

este ouvir e calar.

(...)

É dele o pouco a pouco,

o aproximado,

o justo. 

(...)

É doce e grande 

o tempo.

(...)

Põe o tempo o cuidado.

Mas não põe as estrelas.

 

Perde o olhar o brilho.

Mas o mar não se perde. 

 

 

 

António Ramos Rosa in Antecipação à Velhice - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

 

 

escuto e sei e espero

Com as portas abertas

eu sou o mar que entra. 

Mas sem esquecer o sangue,

eu escuto e sei e espero. 

 

António Ramos Rosa - Obra Poética I 

Assírio & Alvim (2018)

 

 

 

outras coisas que dão matéria

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Edouard Manet (1832-1883)
La plage à marée basse

 

 

Estamos nus e gramamos.

(...)

As paisagens continuam a existir.

As paisagens são suaves.

Continuam também a existir

outras coisas que dão matéria para poemas.

A vida continua. 

Felizmente que há ódios, comichões, vaidades.

A estupidez, esta crassa crença intratável, esta confiança indestrutível

   em si mesmo,

é o que felizmente dá uma densidade, uma plenitude a isto.

Num mundo descoroçoante de puras imagens

é bom este banho de resistências, pressões, vontades, atritos,

é bom navegar.

Porque este presente é logo saudoso.

(...)

A vida continua tão improvavelmente.

(...)

Estamos nus e gramamos.

 

 

António Ramos Rosa in TELEGRAMA SEM CLASSIFICAÇÃO ESPECIAL

 

António Ramos Rosa - Obra Poética I 

Assírio & Alvim (2018)