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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

gémeas antoninas


Cecília

13
Jun19

Se não fosse demasiado crescida para essas coisas (...)

- Nunca somos demasiado crescidas para isso, minha querida, porque é algo que estamos sempre a fazer, de uma forma ou de outra. Os nossos fardos estão aqui, neste mundo, o caminho estende-se à nossa frente, e desejar a bondade e a felicidade é o que nos ajuda a ultrapassar as dificuldades e os erros até atingirmos a paz

 

Louisa May Alcott – Mulherzinhas (1868)
Oficina do Livro (2011)

 

13.06.2017

Parabéns D. e L.

Minhas meninas-furacão-de-açúcar.

 

todavia sabemos que


Cecília

12
Fev19

Hoje, todavia sabemos que, naquela escolha rápida e sumária, avaliara-se se cada um de nós podia ou não trabalhar utilmente para o Reich; sabemos que nos campos, respectivamente de Buna-Monowitz e Birkenau, só entraram, do nosso comboio, noventa e seis homens e vinte e nove mulheres e que de todos os outros, num total de quinhentos, nem um se encontrava vivo dois dias depois [...] 

Assim morreu Emília, que tinha três anos; porque aos alemães parecia evidente a necessidade histórica de matar os filhos dos Judeus. Emília, filha do engenheiro Aldo Levi de Milão, que era uma criança curiosa, ambiciosa, alegre e inteligente; a ela, durante a viagem no vagão cheio de gente, o pai e a mãe conseguiram dar banho numa tina de zinco, em água morna que o degenerado maquinista alemão aceitara pingar da locomotiva que nos arrastava a todos para a morte. 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

peinture_huile_turgis_11.jpg

Souffrance ou espoir d'une délivrance

 

Représentation de la souffrance de ceux qui vécurent dans les camps d'extermination. Si les personnages sont bleus c'est uniquement pour montrer l'universalité dans la persécution. Que ces personnes soient juives, catholiques, bouddhistes, protestantes, musulmanes, ou qu'elles aient la peau blanche, basanée, noire, rouge, jaune, homo bi ou hétérosexuel, cela importe peu, elles ont soufferts elles furent exterminées. Il ne doit pas y avoir de catégorie et d'ordre dans la souffrance et la persécution. aucune n'est mieux que l'autre. 

 

in http://turgis.pagesperso-orange.fr/06c-peinturgis-huile-symbolique-05.html

 

 

sem


Cecília

30
Jan19

 

Aqui esperavam-nos o comboio e a escolta para a viagem. Aqui recebemos as primeiras pancadas: e o facto foi tão novo e insensato que não sentimos dor, nem no corpo nem na alma. Só um profundo espanto: como se pode bater num homem sem raiva?

 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

Scène du massacre des innocent - 1824

Léon Cogniet

 

 

filha aniversariante


Cecília

16
Jan19

M.

16.01.2014

 

Mother with child 

Léon-Jean Bazille Perrault

 

(...)

One day I'll come swimming
beside your ship or someone will
and if you hear the siren
listen to it. For if you close your ears
only nothing happens. You will never change.

I don't care if you risk
your life to angry goalies
creatures with webbed feet.
You can enter their caves and castles
their glass laboratories. Just
don't be fooled by anyone but yourself.

(...)

Want everything. If you break
break going out not in.
How you live your life I don't care
but I'll sell my arms for you,
hold your secrets forever.

If I speak of death
which you fear now, greatly,
it is without answers.
except that each
one we know is
in our blood.
Don't recall graves.
Memory is permanent.

 

Michael Ondaatje - To A Sad Daughter 

mas as mães


Cecília

07
Jan19

A chegada de um pequeno destacamento de SS alemães deveria ter levantado dúvidas até mesmo nos optimistas; todavia, conseguimos interpretar de diferentes formas esta novidade, sem tirar a mais óbvia das consequências (...) O comissário italiano, portanto, deu ordem para que todos os serviços continuassem a funcionar até ao anúncio definitivo; a cozinha continuou, pois, em actividade, os faxinas da limpeza trabalharam como de costume, e até os professores da pequena escola deram aulas à tarde, como todos os dias. Mas as crianças naquela tarde não tiveram trabalhos para casa.

Caiu a noite, uma noite tal que se percebeu que olhos humanos não a poderiam presenciar e sobreviver. Todos o sentiram: nenhum dos guardas, nem italianos nem alemães, teve a coragem de ir ver o que é que faziam os homens quando sabiam que iam morrer. 

Cada um despediu-se da vida da forma que lhe era mais própria. Alguns rezaram, ouros beberam além do normal, outros inebriaram-se com a última nefanda paixão. Mas as mães ficaram acordadas para preparar com amoroso cuidado a comida para a viagem, e lavaram os filhos, e fizeram as malas, e de madrugada os arames farpados estavam cheios de roupas de crianças estendidas a secar ao vento; e não se esqueceram das fraldas, dos brinquedos, das almofadas e das cem pequenas coisas que elas bem conhecem, e das quais os filhos sempre precisam. Não fariam também o mesmo? Se amanhã esperassem ser mortos com o vosso filho, não lhe davam hoje de comer? 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

sagradas famílias


Cecília

09
Nov17

e o meu pai, descalço, a exilar-se no sofá da sala de membros encolhidos como um gafanhoto numa haste a protestar

- Quase não há dia que não fique para aqui senhores 

a coçar a nuca com as patas de cima, a minha mãe 

- Hoje estás impossível

e até o sol me trazer de novo mais nada, apenas resmungos parecidos com um tractor em ponto morto ele que de manhã em calças de pijama se barbeava a cantarolar, de bocadinho de algodão colado à bochecha porque se cortou, por baixo do algodão um traço vermelho que teimava em não secar e a minha mãe na cozinha a aquecer o leite de costas para toda a gente, abrindo e fechando gavetas com força 

- Onde pára o teu babete? 

 

 

António Lobo Antunes – Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera (2016)
Publicações D. Quixote | Leya (2016)

 

 

 

 

 

dias a sim


Cecília

23
Set17

 

a crítica (...) expressa numa ausência de elogios

 

 

há pessoas que necessitam de um baloiço para o raciocínio

 

 

sempre me fizeram sonhar os comboios

 

 

 

me esqueci da professora mas as vírgulas ficaram, vírgula, segundo ela eram sempre úteis mesmo ao conversar

- Com uma pausazinha na altura certa fica tudo mais claro

 

 

 

muito se morre em Portugal de facto

 

 

o avô do meu marido a abrir a tampa do relógio do colete

- Nove horas

e a fechá-la num estalinho que lhe agradava, se lho emprestasse abria e fechava-o duzentas vezes porque lhe apetecia comer aquele som

 

 

 

apesar de estarmos no outono e uma chuvinha parva, dessa que não molha nem se sente, nos convida ao suicídio apenas, a vizinha triste, a minha mãe triste por contágio que a infelicidade pega-se

 

 

 

o som do pêndulo do relógio da sala, de dia quase mudo e à noite enorme porque no escuro tudo aumenta

 

 

 

não se falavam há anos que o tempo separa as pessoas e depois o esquecimento começa o seu trabalho

 

 

 

- Tenho cinquenta e nove anos caramba

tombaram-lhe como tijolos os cinquenta e nove anos em cima

 

 

 

até um grilo uma tarde na bancada que expulsei com um piparote para o quintal onde mais tarde ou mais cedo uma lagartixa o arrastaria por uma das patas na direcção de uma falha de muro, tudo come tudo neste mundo, é assim, até o mar devagarinho vai comendo os penedos, a nós come-nos a idade

 

 

 

por ser vasta era mais paciente, sempre nervosas, as magras

 

 

 

porque na vida não existem certezas e até Deus muda de humor

 

 

as pessoas são tantas dentro das pessoas que são

 

 

 

adivinhava que me miravam porque um peso em mim, sentimos sempre um peso quando nos olham

 

 

espanta-me que haja pessoas ingénuas capazes de acreditarem nas mentiras das ondas

 

 

 

há coisas que nos agradam ao princípio e o tempo torna sinistras

 

 

que pena as pessoas não se aceitarem como são

 

 

 

e eu calada a engolir-me a mim mesma, como é complicado engolirmo-nos a nós mesmos

 

 

 

derivado ao sol, levo esta luz, esta felicidade, esta paz (...) até nos dissolvermos na luz

 

 

 

António Lobo Antunes – Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera (2016)
Publicações D. Quixote | Leya (2016)