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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

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28
Mai19

de perto


Cecília

Se vista de longe, Lisboa é uma bonita cidade, espalhada pelas colinas, iluminada pelo Sol que espreita em tímidas abertas pelos buracos das nuvens cinzentas, expondo os telhados avermelhados e os campanários das suas muitas igrejas, os picos dos Jerónimos apontados ao céu, os torreões da Sé, o zimbório da nova Basílica da Estrela, o vasto Terreiro do Paço aberto para o rio luminoso. Mas Philipe de Villepin considera que no encanto daquele casario empinado nas encostas que descem para o Tejo,  entre ruelas onde o sol não entra, mora uma gente heteróclita e encardida, roída por uma lepra medieval, em que abundam os pretos, os frades, os padres, os mendigos, os garotos descalços vagueando, as mulheres raras - diz-se que saem pouco com medo dos franceses encapotadas sob vestes escuras e embiocadas em lenços negros. Cães sarnentos farejam monturos, cabras à solta pastam nos lixos, catam-se piolhos na soleira das portas no caminho para o castelo, de onde a vista abrange finalmente uma grandeza de antiga metrópole dona de meio mundo que, vista de perto, mostra as chagas da decadência, da decrepitude, do atraso, da superstição. 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

08
Mai19

lx 1808


Cecília

O INTENDENTE GERAL

DA POLICIA

DO REINO DE PORTUGAL

Considerando o perigo que póde 

seguir-se da multidão de Cães

vagabundos, que girão pelas

ruas de Lisboa no tempo

dos grandes calores;

 

Considerando outrosim nos des-

agradaveis acontecimentos, que

dahi muitas vezes resultão, prin-

cipalmente de noite; e que os

seus ladros, ao mesmo tempo

que perturbão o socego dos Ha-

bitantes, advertem os Roubado-

res do seguimento da justiça,

ORDENA O QUE SE SEGUE:

(...)

VII. As cautélas prescriptas

para fornecer, nos tempos camo-

sos, agua aos Cães, para os pre-

servar da Hydrophobia, são ago-

ra renovadas, e confirmadas de-

baixo das penas existentes contra

os transgressores.

VIII. Os Regulamentos, que

prohibem conduzir Vacas e Ca-

bras pelas Ruas de Lisboa depois

das onze horas do dia, para se

mugirem ás portas das Casas, são 

igualmente renovados com as Mul-

tas, e Penas nelles mencionadas. 

IX. He igualmente prohibido

que se deixem vagar pelas Ruas,

e encruzilhadas Bois, Vacas, e 

Cabras sem Campainha, sob pena

de serem tomadas, e confiscadas

em beneficio dos Hospitaes. Aque-

les, que nestes casos as apanha-

rem, conduzillas-hão imediata-

mente ao Palacio da Intendencia

Geral da Policia do Reino (no

Rocío), onde receberão, se ti-

ver lugar, huma recompensa, ti-

rada do producto da venda. 

(...)

Lisboa, nove de Abril de 1808 

O INTENDENTE GERAL 

da Policia de Lisboa e do Reino de Portugal,

P. LAGARDE.

Dona Beatriz reponta contra a crueldade dos franceses. Dom António admite, sem o dizer, que Lisboa é uma estrumeira. E Henrique considera que os franceses não têm legitimidade para lhes darem ordens nenhumas. Talvez estejam os três cheios de razão. 

 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

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