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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

handcuffed western world

13.07.21

[...] um jogador negro do FCP, foi ruidosamente insultado por adeptos do Vitória. O insulto mais ouvido consistiu numa simulação de sons de macaco. [...] Esta associação a animais de pessoas percebidas como pertencendo a «raças» diferentes é comum naqueles que partilham crenças racistas ou um forte preconceito racial e o expressam de forma aberta. Os nazis associavam os judeus a ratos e baratas. No passado recente, também os tabloides ingleses retomaram estas expressões a propósito dos imigrantes subsarianos que tentam alcançar a Europa cruzando o Mediterrâneo. [...] o racismo continua hoje vivo [...] Importa, por isso, compreender os mecanismos que mantêm o racismo, seja de forma mais escondida ou mais manifesta, no quotidiano e no funcionamento das instituições. Esse objetivo implica analisar crenças, atitudes, sentimentos, normas sociais e funcionamentos institucionais que alimentam e legitimam o racismo, apesar da sua condenação pela democracia, pelos valores igualitários e pela liberdade, e apesar dos custos das desigualdades sociais que produz. 

 

Jorge Vala  – Racismo, Hoje, Portugal em Contexto Europeu (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Jorge Vala (2021)

 

 

ter memória

08.07.21

Um dia, em junho desse ano, estava eu no Parlamento Europeu, quando me pus a matutar que um dos deputados europeus tinha sido salvo em 1940 com um visto assinado pelo meu avô. Pensei que talvez fosse simpático da minha parte cumprimentá-lo, e dar-lhe notícias. Peguei na lista do Parlamento Europeu e procurei o nome dele. E, de facto, lá estava ele, com a fotografia: Otto von Habsburg, arquiduque e herdeiro do antigo império austro-húngaro.

Liguei-lhe imediatamente, não sabendo muito bem o que iria dizer, mas fi-lo. Do outro lado respondeu-me uma senhora a quem eu apenas disse que desejava falar com sua excelência. No minuto seguinte, Otto von Habsburg responde-me. Fiquei ligeiramente atrapalhado, não esperava tanta rapidez, e disse-lhe (em francês): «Desculpe incomodá-lo, sou neto de um cônsul português que V. Exa. conheceu há muitos anos...»

«Ah, o seu avô foi um homem ex-tra-or-di-nai-re!!!», respondeu ele. Fiquei sem palavras, parecia-me difícil que ele se lembrasse assim sem mais nem menos, e insisti: «Foi em 1940, em Bordéus. Há 46 anos, durante a guerra.»

«Sim, lembro-me muito bem, Aristides de Sousa Mendes», disse o eurodeputado, sem nenhuma hesitação. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

https://www.bportugal.pt/comunicado/moeda-de-colecao-aristides-de-sousa-mendes-entra-em-circulacao-15-de-julho

 

as neutralidades de bom aluno (II)

24.06.21

O seu gesto humanitário servirá para sempre de exemplo de total devoção às causas da liberdade e compreensão entre todas as nações e raças.»

Estas duas cartas foram escritas em 1968, 28 anos depois dos acontecimentos de Bordéus, e portanto, não serviram para a defesa de Aristides no seu processo de outubro de 1940. Mas mesmo que tivessem chegado a tempo de servirem de apoio, o mais provável é que tivessem desaparecido, tal como aconteceu nessa altura a outros documentos favoráveis ao cônsul. Em 1940, Salazar e os seus próximos estavam convencidos de que a "nova ordem mundial" viria do lado do III Reich, e o cônsul de Bordéus teria de ser afastado e severamente castigado, para que aos olhos dos nazis tal punição fosse bem visível. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

ilha

11.06.21

Cheguei a um silencioso, a um suave centro. 

[...]

Estou isolado, aberto a uma vida repentina. 

[...]

Feliz, feliz, na fescura das veias, nos músculos libertos. 

 

António Ramos Rosa in TANGÊNCIA NO CENTRO - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

pessoas

21.05.21

As ruas estavam cheias de pessoas doidas e chatas. A maior parte vivia em boas casas e parecia não trabalhar, o que me deixava a pensar como é que conseguiam. 

 

Charles Bukowski – Correios (1971)

Antígona (2015)

 

 

aqui, esperando o lá

16.05.21

O simples

estar aqui

deixa livre a ausência.

A presença confunde-se com o vazio exacto. 

 

António Ramos Rosa in MEDIADORA DA PRESENÇA - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

 

adorei as almas!

13.05.21

 

O último símbolo que quero destacar é o rosário ou as contas. [...] O rosário cristão se confunde com as contas do “Òpelè-Ifá” ou “Rosário de Ifá”, que é um instrumento divinatório dos tradicionais sacerdotes de Ifá (Ifá é o porta-voz de Orumilá e de outros Orixás). Vale lembrar que o culto dos negros a Nossa Senhora do Rosário, se deve também ao paralelismo estabelecido entre o rosário desta Nossa Senhora e o Rosário de Ifá, obviamente já conhecido por muitos negros. Por isso, sempre insisto que o culto dos negros a
Nossa Senhora do Rosário é ao mesmo tempo adaptação e resistência [...]

E termino com a saudação aos pretos velhos proferida na maioria dos terreiros de
Umbanda [...] e que demostra a multiplicidade do culto e suas referências: “Salve Jesus
Cristo e Nossa Senhora... Salve os Orixás... Saravá o Preto Velho... Adorei as almas”.

 

in http://www.snh2013.anpuh.org/resources/anais/27/1364730161_ARQUIVO_Adoreiasalmas-XXVIISNH-textocompleto.pdf