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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

14.10.19

let bloom (don't blow)


Cecília

Eu era teimosa, ele era teimoso. Não me lembro do motivo, sei que nos pegámos os dois. Eu era muito mais pequena, devia-me ter calado. Mas começámos à tareia e o meu pai não gostou. Deu uma tareia nele. Eu fugi  e meti-me debaixo da cama. O meu pai procurou-me até ao fim, não tas vou perdoar. E depois, a tareia que tinha dado ao António deu-me a mim também - relato de Maria Amélia. 

Mas não há memórias que o descrevam a subir às árvores para ir aos ninhos, ou outras tropelias de miúdos. Já João, o mais velho, meteu um belo dia a irmã dentro de uma arca e esqueceu-se dela. Maria de Lurdes ia morrendo asfixiada, enquanto ele, aflito, a procurava sem se recordar onde a fechara dessa vez. Outra vez, guardou a irmã Amélia, uma criança minúscula, e ainda hoje uma mulher muito pequenina, dentro de uma mala de viagens. Depois pôs-se a correr pelo quintal, abanando a mala de um lado para o outro, até que ela se abriu e deixou cair a miúda completamente atordoada no meio do canteiro das alfaces. António, contudo, não deixou na memória dos irmãos episódios semelhantes:

- Desde muito miúdo já dizia que queria ser músico. Cantava as cantigas que ouvia na rádio e outras que inventava ele próprio (...) E a minha mãe assim: Toninho, vai cortar um bocadinho de erva para os coelhos, e ele: haviam de morrer todos! Sentava-se no quintal e começava a cantar. E a minha mãe: A erva para os coelhos, António? E ele, ó está bem, está bem! - Maria Amélia Ribeiro Costa recordá-lo-á, para sempre, ensimesmado e misterioso, muito solitário e sempre à procura de espaço para abrir a voz. - Ele já tinha dom. Nasceu com ele. Ele era diferente. Foi sempre diferente de nós todos. Vinha de férias e não gostava que ninguém o perturbasse. Há um penedo em cima, do outro lado da rua, ele sentava-se ali, muitas vezes, a escrever. Dizia: Vou para ali para cima. Não quero que ninguém chame por mim. Se alguém vier, eu não estou para ninguém. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

15.09.19

ações


Cecília

... cada um tem que, por suas próprias forças, criar liberdade e combater as ficções sociais. 

 

 

Fernando Pessoa - O Banqueiro Anarquista (1922)
Antígona (2018)

 

 

 

13.08.19

(sweet) combustível da anarquia


Cecília

Defronte de mim o meu amigo, o banqueiro, grande comerciante e açambarcador notável, fumava como quem não pensa (...) Voltei-me para ele, sorrindo. 

-- É verdade: disseram-me há dias que você em tempos foi anarquista...

-- Fui, não: fui e sou. Não mudei a esse respeito. Sou anarquista. 

-- Essa é boa! Você anarquista! Em que é que você é anarquista?... Só se você dá à palavra qualquer sentido diferente...

-- Do vulgar? Não; não dou. Emprego a palavra no sentido vulgar. 

-- Quer você dizer, então, que é anarquista exactamente no mesmo sentido em que são anarquistas esses tipos das organizações operárias? Então entre você e esses tipos da bomba e dos sindicatos não há diferença nenhuma?

-- Diferença, diferença, há... Evidentemente que há diferença. Mas não é a que você julga (...) Você comparou-me a esses parvos dos sindicatos e das bombas para indicar que sou diferente deles. Sou, mas a diferença é esta: eles (sim, eles e não eu) são anarquistas só na teoria; eu sou-o na teoria e na prática (...) Ia eu dizendo que, como era lúcido por natureza, me tornei anarquista consciente. Ora o que é um anarquista? É um revoltado contra a injustiça de narcermos desiguais socialmente  - no fundo é só isto. (...) Ora, na altura da nossa propaganda em que lhe estou falando, descobri uma coisa. No grupo de propaganda - não éramos muitos; éramos uns quarenta, salvo erro - dava-se este caso: criava-se tirania. (...)

Uns mandavam em outros e levavam-nos para onde queriam; uns impunham-se a outros e obrigavam-nos a ser o que eles queriam; uns arrastavam outros por manhas e por artes para onde eles queriam. Não digo que fizessem isto em coisas graves; mesmo, não havia coisas graves ali em que o fizessem. Mas o facto é que isto acontecia sempre e todos os dias, e dava-se não só em assuntos relacionados com a propaganda, como fora deles, em assuntos vulgares da vida. Uns iam insensivelmente para chefes, outros insensivelmente para subordinados (...) E repare que se passava num grupo de gente que se unira para especialmente para fazer o que pudesse para o fim anarquista - isto é, para combater, tanto quanto possível, as ficções sociais, e criar, tanto quanto possível, a liberdade futura (...) Agora ponha o caso num grupo muito maior, muito mais influente (...) Então é que eu vi com que bestas e com que covardões estava metido! (...) Aquela corja tinha nascido para escravos. Queriam ser anarquistas à custa alheia. Queriam a liberdade, logo que fossem os outros que lha arranjassem, logo que lhes fosse dada como um rei dá um título!

 

Fernando Pessoa - O Banqueiro Anarquista (1922)

Antígona (2018)

 

 

 

 

26.06.19

glórias alheias


Cecília

Os soldados de Mafra estão já no limite daquilo que os generais esperam deles, porque são o povo. E todos os povos regressados à condição de rebanho se cansam de morrer em seu próprio nome, quanto mais por uma glória que os deixa no anonimato. Nas pequenas misérias do dia-a-dia, num pequeno burgo dos confins da Península, os libertadores vão descobrindo o seu cansaço e amolecendo numa missão que se esfuma na sua condição de estrangeiros, condição que os povos «libertados» se não esquecem de lhes lembrar. 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

09.05.19

no tempo certo - fruto inteiro e maduro


Cecília

Recomeça... se puderes, sem angústia e sem pressa e os passos que deres, nesse caminho duro do futuro, dá-os em liberdade, enquanto não alcances não descanses, de nenhum fruto queiras só metade.

 

Miguel Torga

 

 

18.04.19

lei feroz na história e na vida


Cecília

Na história e na vida parece às vezes vislumbrar-se uma lei feroz, segundo a qual «dar-se-á a quem tiver; tirar-se-á a quem não tiver». No Lager, onde o homem está só e a luta pela vida se reduz ao seu mecanismo primordial, a lei iníqua está abertamente em vigor, é reconhecida por todos. Com os aptos, com os indivíduos fortes e astutos, os próprios chefes gostam de manter contactos, que chegam a ser de quase camaradagem, pois esperam poder tirar, talvez mais tarde, algum proveito. Mas (...) aos homens em fase de degradação, não vale a pena dirigir a palavra, pois já se sabe que começariam a queixar-se e a contar o que costumavam comer em casa. Muito menos vale a pena ser-se amigo deles, pois não têm conhecimentos importantes no campo, não comem nada extra-ração, não trabalham em Kommandos vantajosos e não conhecem nenhuma forma secreta de organização. E, finalmente, sabe-se que estão aqui de passagem e dentro de poucas semanas deles ficará apenas um punhado de cinzas num campo não muito longe daqui, e um número de matrícula riscado num livro de registo. 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

05.04.19

Cecília (chimpanzé)


Cecília

cecilia2-800x746.jpg

Cecília (Argentina, 1998) é uma chimpanzé argentina.

Ela é notória pois foi o primeiro ser vivo não-humano a receber um habeas corpus, que autorizou a transferência do seu cativeiro em Mendoza, na Argentina, para o Brasil. Em 5 de abril de 2017, ela chegou em seu novo lar, na cidade de Sorocaba, para viver no Santuário de Primatas de Sorocaba.

in https://pt.wikipedia.org/wiki/Cec%C3%ADlia_(chimpanz%C3%A9)

 

A adaptação de Cecília foi muito boa e alguns meses depois de sua chegada já começou a conviver com um companheiro, o chimpanzé Marcelino.

Segundo a equipe do santuário que acompanha Cecília, ela está muito bem de saúde e se encontra totalmente adaptada à vida no Santuário (...)

“Ela se alimenta muito bem e gosta de vários tipos de frutas e folhas. Continua convivendo com seu companheiro Marcelino, que gosta muito dela e está sempre por perto. Em algumas ocasiões em que foi preciso separá-los momentaneamente, ambos ficaram preocupados um com o outro e Marcelino chega a vocalizar para chamá-la. 

 

in http://www.projetogap.org.br/noticia/gap-brasil-noticias-de-cecilia-a-primeira-chimpanze-a-desfrutar-do-direito-de-habeas-corpus-no-mundo/

 

 

08.03.19

a bluebird in my heart


Cecília

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,
I say, stay in there, I’m not going
to let anybody see
you.

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pour whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he’s
in there.

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody’s asleep.
I say, I know that you’re there,
so don’t be
sad.

then I put him back,
but he’s singing a little
in there, I haven’t quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it’s nice enough to
make a man
weep, but I don’t
weep, do
you?

 

Charles Bukowski - "Bluebird”

 

 

 

 

28.02.19

voltar a ser


Cecília

Depois de arranjar a janela partida e depois de o aquecedor começar a difundir calor, pareceu que em cada um a tensão afrouxara, e foi então que Towaroski (um franco-polaco de vinte e três anos, doente de tifo) propôs aos outros doentes que oferecessem cada um uma fatia de pão a nós os três que tivemos o trabalho, e a proposta foi aceite. 

Um dia antes, tal acontecimento não teria sido concebível. A lei do Lager dizia: «come o teu pão e, se puderes, o do teu vizinho», e não deixava lugar à gratidão. Isto significava claramente que o Lager estava morto.

Foi este o primeiro gesto humano que aconteceu entre nós. Julgo que se poderia fixar naquele momento o início do processo pelo qual, nós que não morremos, de Häftlinge voltámos lentamente a ser homens. 

 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

Resurrection of the Messiah

Justin BUA

 

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