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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

(sweet) combustível da anarquia


Cecília

13
Ago19

Defronte de mim o meu amigo, o banqueiro, grande comerciante e açambarcador notável, fumava como quem não pensa (...) Voltei-me para ele, sorrindo. 

-- É verdade: disseram-me há dias que você em tempos foi anarquista...

-- Fui, não: fui e sou. Não mudei a esse respeito. Sou anarquista. 

-- Essa é boa! Você anarquista! Em que é que você é anarquista?... Só se você dá à palavra qualquer sentido diferente...

-- Do vulgar? Não; não dou. Emprego a palavra no sentido vulgar. 

-- Quer você dizer, então, que é anarquista exactamente no mesmo sentido em que são anarquistas esses tipos das organizações operárias? Então entre você e esses tipos da bomba e dos sindicatos não há diferença nenhuma?

-- Diferença, diferença, há... Evidentemente que há diferença. Mas não é a que você julga (...) Você comparou-me a esses parvos dos sindicatos e das bombas para indicar que sou diferente deles. Sou, mas a diferença é esta: eles (sim, eles e não eu) são anarquistas só na teoria; eu sou-o na teoria e na prática (...) Ia eu dizendo que, como era lúcido por natureza, me tornei anarquista consciente. Ora o que é um anarquista? É um revoltado contra a injustiça de narcermos desiguais socialmente  - no fundo é só isto. (...) Ora, na altura da nossa propaganda em que lhe estou falando, descobri uma coisa. No grupo de propaganda - não éramos muitos; éramos uns quarenta, salvo erro - dava-se este caso: criava-se tirania. (...)

Uns mandavam em outros e levavam-nos para onde queriam; uns impunham-se a outros e obrigavam-nos a ser o que eles queriam; uns arrastavam outros por manhas e por artes para onde eles queriam. Não digo que fizessem isto em coisas graves; mesmo, não havia coisas graves ali em que o fizessem. Mas o facto é que isto acontecia sempre e todos os dias, e dava-se não só em assuntos relacionados com a propaganda, como fora deles, em assuntos vulgares da vida. Uns iam insensivelmente para chefes, outros insensivelmente para subordinados (...) E repare que se passava num grupo de gente que se unira para especialmente para fazer o que pudesse para o fim anarquista - isto é, para combater, tanto quanto possível, as ficções sociais, e criar, tanto quanto possível, a liberdade futura (...) Agora ponha o caso num grupo muito maior, muito mais influente (...) Então é que eu vi com que bestas e com que covardões estava metido! (...) Aquela corja tinha nascido para escravos. Queriam ser anarquistas à custa alheia. Queriam a liberdade, logo que fossem os outros que lha arranjassem, logo que lhes fosse dada como um rei dá um título!

 

Fernando Pessoa - O Banqueiro Anarquista (1922)

Antígona (2018)

 

 

 

 

glórias alheias


Cecília

26
Jun19

Os soldados de Mafra estão já no limite daquilo que os generais esperam deles, porque são o povo. E todos os povos regressados à condição de rebanho se cansam de morrer em seu próprio nome, quanto mais por uma glória que os deixa no anonimato. Nas pequenas misérias do dia-a-dia, num pequeno burgo dos confins da Península, os libertadores vão descobrindo o seu cansaço e amolecendo numa missão que se esfuma na sua condição de estrangeiros, condição que os povos «libertados» se não esquecem de lhes lembrar. 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

no tempo certo - fruto inteiro e maduro


Cecília

09
Mai19

Recomeça... se puderes, sem angústia e sem pressa e os passos que deres, nesse caminho duro do futuro, dá-os em liberdade, enquanto não alcances não descanses, de nenhum fruto queiras só metade.

 

Miguel Torga

 

 

lei feroz na história e na vida


Cecília

18
Abr19

Na história e na vida parece às vezes vislumbrar-se uma lei feroz, segundo a qual «dar-se-á a quem tiver; tirar-se-á a quem não tiver». No Lager, onde o homem está só e a luta pela vida se reduz ao seu mecanismo primordial, a lei iníqua está abertamente em vigor, é reconhecida por todos. Com os aptos, com os indivíduos fortes e astutos, os próprios chefes gostam de manter contactos, que chegam a ser de quase camaradagem, pois esperam poder tirar, talvez mais tarde, algum proveito. Mas (...) aos homens em fase de degradação, não vale a pena dirigir a palavra, pois já se sabe que começariam a queixar-se e a contar o que costumavam comer em casa. Muito menos vale a pena ser-se amigo deles, pois não têm conhecimentos importantes no campo, não comem nada extra-ração, não trabalham em Kommandos vantajosos e não conhecem nenhuma forma secreta de organização. E, finalmente, sabe-se que estão aqui de passagem e dentro de poucas semanas deles ficará apenas um punhado de cinzas num campo não muito longe daqui, e um número de matrícula riscado num livro de registo. 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

Cecília (chimpanzé)


Cecília

05
Abr19

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Cecília (Argentina, 1998) é uma chimpanzé argentina.

Ela é notória pois foi o primeiro ser vivo não-humano a receber um habeas corpus, que autorizou a transferência do seu cativeiro em Mendoza, na Argentina, para o Brasil. Em 5 de abril de 2017, ela chegou em seu novo lar, na cidade de Sorocaba, para viver no Santuário de Primatas de Sorocaba.

in https://pt.wikipedia.org/wiki/Cec%C3%ADlia_(chimpanz%C3%A9)

 

A adaptação de Cecília foi muito boa e alguns meses depois de sua chegada já começou a conviver com um companheiro, o chimpanzé Marcelino.

Segundo a equipe do santuário que acompanha Cecília, ela está muito bem de saúde e se encontra totalmente adaptada à vida no Santuário (...)

“Ela se alimenta muito bem e gosta de vários tipos de frutas e folhas. Continua convivendo com seu companheiro Marcelino, que gosta muito dela e está sempre por perto. Em algumas ocasiões em que foi preciso separá-los momentaneamente, ambos ficaram preocupados um com o outro e Marcelino chega a vocalizar para chamá-la. 

 

in http://www.projetogap.org.br/noticia/gap-brasil-noticias-de-cecilia-a-primeira-chimpanze-a-desfrutar-do-direito-de-habeas-corpus-no-mundo/

 

 

a bluebird in my heart


Cecília

08
Mar19

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,
I say, stay in there, I’m not going
to let anybody see
you.

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pour whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he’s
in there.

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody’s asleep.
I say, I know that you’re there,
so don’t be
sad.

then I put him back,
but he’s singing a little
in there, I haven’t quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it’s nice enough to
make a man
weep, but I don’t
weep, do
you?

 

Charles Bukowski - "Bluebird”

 

 

 

 

voltar a ser


Cecília

28
Fev19

Depois de arranjar a janela partida e depois de o aquecedor começar a difundir calor, pareceu que em cada um a tensão afrouxara, e foi então que Towaroski (um franco-polaco de vinte e três anos, doente de tifo) propôs aos outros doentes que oferecessem cada um uma fatia de pão a nós os três que tivemos o trabalho, e a proposta foi aceite. 

Um dia antes, tal acontecimento não teria sido concebível. A lei do Lager dizia: «come o teu pão e, se puderes, o do teu vizinho», e não deixava lugar à gratidão. Isto significava claramente que o Lager estava morto.

Foi este o primeiro gesto humano que aconteceu entre nós. Julgo que se poderia fixar naquele momento o início do processo pelo qual, nós que não morremos, de Häftlinge voltámos lentamente a ser homens. 

 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

Resurrection of the Messiah

Justin BUA

 

Amelia Earhart


Cecília

24
Jul18

 

Courage is the price that Life exacts
for granting peace.
The soul that knows it not
Knows no release from little things:
Knows not the livid loneliness of fear,
Nor mountain heights where bitter
joy can hear
The sound of wings.
How can life grant us boon of living,
compensate
For dull gray ugliness and pregnant
hate
Unless we dare
The soul's dominion? Each time we
make a choice, we pay
With courage to behold the resistless
day,
And count it fair.

 

 

Courage -  Poem by Amelia Earhart

 

 

 

Amelia Mary Earhart

(24 de julho, 1897 — desaparecida em 2 de julho de 1937)

 

 

 

revolução e flores


Cecília

25
Abr18

O que os homens e as mulheres fazem uns aos outros está para além da compreensão. 

 

Charles Bukowski in Bebedeira De Longa Distância - Música para Água Ardente (1983)

Antígona (2015)