Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

António chegou a Amesterdão em 1974, numa altura em que a cidade estava na vanguarda de um sem número de movimentos, desde a ecologia à luta anti-apartheid, passando pela liberalização das drogas ditas leves, que eram ali encarados com o mesmo pragmatismo com que, em muitos outros países, se aceitam e até estimulam outros vícios como o jogo. Havia para todos os gostos. Grupos anarquistas, ecologistas, pacifistas, os krakers, com as suas redes de okupas, que pressionavam o governo, (...)
15 Dez, 2019

leitura

Pode ser que a leitura tenha os dias contados, não faço futurologia, mas por enquanto está muito melhor do que era. A avó dos meus filhos, que nasceu numa aldeia isolada do Alentejo e teve uma paixão proibida e incompreendida pelos livros, tinha de ler às escondidas porque a leitura era uma actividade inútil, não era produtiva, e uma mulher devia dedicar-se aos meritosos descasque de batatas e cosedura de meias. Hoje, podemos ler em público sem que a maioria dos considere uns (...)
26 Nov, 2019

queda contada

a verdade é frequentemente mais estranha do que os factos, e os últimos nem sempre contam a verdade    Wray Delaney - Memórias de Uma Cortesã  (2016) Quinta Essência, Oficina do Livro (2017)      
Eu era teimosa, ele era teimoso. Não me lembro do motivo, sei que nos pegámos os dois. Eu era muito mais pequena, devia-me ter calado. Mas começámos à tareia e o meu pai não gostou. Deu uma tareia nele. Eu fugi  e meti-me debaixo da cama. O meu pai procurou-me até ao fim, não tas vou perdoar. E depois, a tareia que tinha dado ao António deu-me a mim também - relato de Maria Amélia.  Mas não há memórias que o descrevam a subir às árvores para ir aos ninhos, ou outras (...)
cada um tem de libertar-se a si próprio     Fernando Pessoa - O Banqueiro Anarquista (1922) Antígona (2018)      
Defronte de mim o meu amigo, o banqueiro, grande comerciante e açambarcador notável, fumava como quem não pensa (...) Voltei-me para ele, sorrindo.  -- É verdade: disseram-me há dias que você em tempos foi anarquista... -- Fui, não: fui e sou. Não mudei a esse respeito. Sou anarquista.  -- Essa é boa! Você anarquista! Em que é que você é anarquista?... Só se você dá à palavra qualquer sentido diferente... -- Do vulgar? Não; não dou. Emprego a palavra no sentido vulgar.  (...)
26 Jun, 2019

glórias alheias

Os soldados de Mafra estão já no limite daquilo que os generais esperam deles, porque são o povo. E todos os povos regressados à condição de rebanho se cansam de morrer em seu próprio nome, quanto mais por uma glória que os deixa no anonimato. Nas pequenas misérias do dia-a-dia, num pequeno burgo dos confins da Península, os libertadores vão descobrindo o seu cansaço e amolecendo numa missão que se esfuma na sua condição de estrangeiros, condição que os povos (...)