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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

o poder de querer

Cecília, 25.09.20

No seu tempo, e num país onde a esmagadora maioria da população rural era ainda analfabeta, Deolinda de Jesus era uma das poucas pessoas, na aldeia, que sabia ler e escrever. Não frequentou nenhuma escola, mas a mestra do ateliê onde aprendeu costura ensinava a ler e a escrever às meninas que quisessem. Ela foi das poucas que quis. Ao longo de toda a vida a sua letra firme e bem desenhada encheu cartas e cartas com as quais mitigou a solidão de ter os filhos longe, permitindo-lhe, por seu turno, ler sem intermediários, as que eles lhe foram mandando [...] A certa altura, Deolinda partilhou esta ferramenta com o marido. Foi no final dos anos 50, quando surgiu a oportunidade de Jaime ser cobrador da Casa do Povo. Era um trabalho de fim de semana, mas garantia mais uma fonte de rendimento para a família. Porém, e como condição de admissão, exigia o domínio ainda que muito básico, das letras e da tabuada por causa das contas. Deolinda chamou a si a tarefa de ensinar ao marido os rudimentos da leitura e da escrita. As aulas decorriam ao serão, na mesa da sala de jantar. De lápis na mão, caderno de linhas ou quadriculado à frente, lampião de azeite na mesa, Jaime engolia o orgulho e rebentava de humilhação quando a mulher o emendava, uma vez e outra e outra. Mas o facto é que conseguiu o emprego, sinal de que lhe aproveitaram as lições. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

leitura

Cecília, 15.12.19

Pode ser que a leitura tenha os dias contados, não faço futurologia, mas por enquanto está muito melhor do que era. A avó dos meus filhos, que nasceu numa aldeia isolada do Alentejo e teve uma paixão proibida e incompreendida pelos livros, tinha de ler às escondidas porque a leitura era uma actividade inútil, não era produtiva, e uma mulher devia dedicar-se aos meritosos descasque de batatas e cosedura de meias. Hoje, podemos ler em público sem que a maioria dos considere uns vadios inúteis. Há duas décadas não poderia ter lido certos livros e certos autores: vivíamos em liberdade, mas as edições eram muito limitadas, tanto no volume de obras traduzidas como na edição, distribuição e importação (...) É verdade que Plotino, Saadi ou Diógenes Laércio continuam sem edições portuguesas, bem como alguns autores contemporâneos, como Cãrtãrescu ou Mrozek, mas hoje podemos entrar numa livraria e ter escolhas e liberdades que nunca tivemos. 

 

Afonso Cruz_ O macaco bêbedo foi à ópera - Da embriaguez à civilização (2019)
Fundação Francisco Manuel dos Santos e Afonso Cruz (2019)

 

 

comportamento perigosamente seguro

Cecília, 09.05.19

Não existe meio mais seguro para fugir do mundo do que a arte, e não há forma mais segura de se unir a ele do que a arte.

 

Johann Goethe

 

 

 

Leituras da Casa - Sessão 9 - Sábado, 26 de Janeiro

Cecília, 24.01.19

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No próximo sábado, 26 de Janeiro, às 17h00, as Leituras da Casa dedicam a primeira sessão de 2019 ao livro O Modernismo Brasileiro e o Modernismo Português, de Arnaldo Saraiva.

O convidado desta sessão é o poeta e músico brasileiro Luca Argel.
A moderação é de Rui Manuel Amaral.

 

Agradecemos a sua presença. A entrada é livre.
Livraria da INCM, Praça dos Leões (Praça Gomes Teixeira, 1 a 7), Porto.

 

 

egoísmo bom

Cecília, 27.09.17

Los lectores siempre se encuentran a sí mismos, de una forma o de otra, en un libro. Leer es un estímulo completamente egotista. Buscamos inconscientemente lo que nos dice algo.

 

 

David Foenkinos - La biblioteca de los libros rechazados (2016)
Titulo original: Le Mystère Henri Pick
Traducción de María Teresa Gallego Urrutia y Amaya García Gallego
Penguin Random House Grupo Editorial S.A.U. (febrero, 2017)

 

 

 

livros órfãos

Cecília, 01.09.17

Muy a principios de la década de 1990, aquella idea suya tomó cuerpo. Un apasionado lector creó, para rendirle homenaje, la «biblioteca de los libros rechazados». Así fue como nació la Brautigan Library, que da acogida a todos los libros huérfanos de editorial que vieron la luz en los Estados Unidos. En la actualidad se halla en Vancouver * en el estado de Washington.

 

 

* En internet se encuentra fácilmente información acerca de las actividades de esa biblioteca en la página web www.thebrautiganlibrary.org

 

 

David Foenkinos - La biblioteca de los libros rechazados (2016)
Titulo original: Le Mystère Henri Pick
Traducción de María Teresa Gallego Urrutia y Amaya García Gallego
Penguin Random House Grupo Editorial S.A.U. (febrero, 2017)

 

sofreguidão, lentidão

Cecília, 04.07.17

E é aí que 

O ritmo (que é a nossa melhor parte) exige que recomece 

A ler avidamente. É um momento penoso porque a sofreguidão

Desfaz a leitura; 

 

 

Maria Gabriela Llansol - O Começo de Um Livro É Precioso
Assírio & Alvim (outubro 2003)

 

 

Girl in the Hammock, 1873

 Winslow Homer

(1836-1910)