Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

conhecimento dos homens


Cecília

07
Mai19

O resultado deste feroz processo de selecção natural poder-se-ia ler nas estatísticas do movimento do Lager. Em Auschwitz, no ano de 1944, dos velhos prisioneiros judeus (...) dos pequenos números inferiores a cento e cinquenta mil, sobreviviam poucas centenas (...) Só sobreviviam, os médicos, os alfaiates, os sapateiros, os músicos, os cozinheiros, os jovens homossexuais atraentes, os amigos ou patrícios de uma ou outra autoridade do campo; e ainda indivíduos particularmente ferozes, vigorosos e desumanos, desempenhando (em consequência de uma investidura por parte do comando SS, que neste sentido mostravam ter um conhecimento dos homens deveras diabólico) os cargos de Kapo, de Blockältester, ou outros; 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

couraças


Cecília

07
Mai19

Porque os russos irão chegar. O solo treme noite e dia debaixo dos nossos pés; no silêncio vazio da Buna o ruído baixo e surdo das artilharias ecoa agora ininterruptamente. Respira-se um ar tenso, um ar de solução final. Os polacos deixaram de trabalhar, os franceses voltaram a andar de cabeça erguida. Os ingleses piscam-nos o olho e cumprimentam-nos às escondidas com o «V» do indicador e do médio; e nem sempre às escondidas.

Mas os alemães são surdos e cegos, fechados numa couraça de obstinação e de desconhecimento deliberado. Mais uma vez marcaram a data do início da produção da borracha sintética: será a 1 de Fevereiro de 1945. 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

LZ 129 Hindenburg


Cecília

06
Mai19

Em 6 de maio de 1937 ocorreu a explosão do Hindenburg, em Lakehurst, perto de Nova York. O incêndio do maior zepelim do mundo causou a morte de 35 pessoas (...)

O acidente aconteceu no final de uma tarde chuvosa, 77 horas depois da decolagem em Frankfurt. A bordo estavam 61 tripulantes, 36 passageiros, dois cachorros, além de bagagem, cargas e correspondências. O forte vento em Lakehurst havia obrigado o capitão Max Pruss a sobrevoar o atracador por duas vezes. Ao mesmo tempo, ordenou que fossem soltos gás e mais de uma tonelada de água para aliviar o peso.

O zepelim já estava com as escadas baixadas quando, a 60 metros do chão, iniciou-se um incêndio em sua cauda. Meio minuto depois, o corpo do dirigível caía, em chamas, com o solo (...)

Diversas comissões de peritos tentaram descobrir a causa da explosão, sem alcançar resultados concretos. Na época, correram várias versões. Podia ter sido um problema técnico, mas também uma sabotagem dos norte-americanos, duas semanas após o bombardeio de Guernica pelos alemães. Ou teria sido um complô judeu? Da concorrência? Ou ainda dos agricultores cujos campos ficavam em volta do campo de pouso?

(...)

Hoje, os técnicos têm quase certeza de que a causa está nas leis da física. O gás hidrogênio, que fazia o balão flutuar, vazou devido a uma trágica cadeia de circunstâncias e explodiu em contato com o ar, por causa da eletricidade estática acumulada na atmosfera com o temporal. O fogo espalhou-se rapidamente pela parede externa do dirigível, feita de algodão e linho e revestida por uma fina camada de alumínio.

Depois da tragédia, a indústria alemã de zepelins passou a fazer contatos com os Estados Unidos para importar hélio, gás não inflamável, produzido no Texas. Os negociadores alemães quase haviam atingido seu objetivo, um navio com milhares de garrafas do gás estava a caminho da Alemanha quando os nazistas invadiram a Áustria, a 1º de março de 1938.

 

in https://www.dw.com/pt-br/1937-explos%C3%A3o-do-dirig%C3%ADvel-hindenburg/a-512261

 

 

p02ct6kr.jpg

p02ct6ln.jpg

wreckage.jpg

 

 

 

cuspir como Deus


Cecília

24
Abr19

Kuhn é um insensato. Não vê, na cama ao lado, Beppo, o grego, que tem vinte anos, e que depois de amanhã irá para o gás; e que, sabendo-o, fica deitado olhando fixamente a lâmpada sem dizer nada e sem pensar em mais nada? Não sabe Kuhn que a próxima será a sua vez? Não percebe Kuhn que hoje aconteceu uma coisa abominável que nenhuma oração propiciatória, nenhum perdão, nenhuma expiação dos culpados, nada, em suma, que esteja em poder do homem fazer, poderá nunca mais cancelar?

Se eu fosse Deus, cuspiria para o chão a oração de Kuhn. 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

os russos


Cecília

08
Abr19

 

todos os dias ladram as sirenas do Fliegeralarm; os russos estão a oitenta quilómetros. A central eléctrica está parada, as colunas do Metanol já não existem, três dos quatro gasómetros do acetileno foram pelos ares. Ao nosso Lager afluem todos os dias sem qualquer ordem os prisioneiros «recuperados» de todos os campos da Polónia oriental; uma minoria segue para o trabalho, a maioria segue directamente para Birkenau e para a Chaminé. 

 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

o último


Cecília

04
Abr19

Todo este aparato, este cerimonial meticuloso não são novos para nós. Desde que estou no campo, já tive de assistir a treze enforcamentos públicos; mas das outras vezes tratava-se de crimes comuns (...)

Hoje trata-se de outra coisa. 

No mês passado, um dos fornos crematórios de Birkenau foi mandado pelos ares. Nenhum de nós sabe (e talvez nunca ninguém venha a saber) exactamente como é que a iniciativa foi levada a cabo (...) 

O homem que irá morrer hoje diante de nós tomou parte de qualquer forma na revolta (...) todos ouvimos o grito do condenado; ele penetrou as espessas barreiras de inércia e de remissão, percutiu o centro vivo do homem dentro de cada um de nós:

- Kameraden, ich bin der Letzte! - (Camaradas, eu sou o último!)

Queria poder contar que entre nós, rebanho abjecto, uma voz se levantou, um murmúrio, um sinal de concordância. Mas nada aconteceu. Ficámos de pé, curvados e cinzentos, de cabeça baixa, e só descobrimos a cabeça quando o alemão o ordenou. O alçapão abriu-se, o corpo contorceu-se atrozmente; a banda recomeçou a tocar, e nós, de novo formados em coluna, desfilámos diante dos últimos estremecimentos do justiçado. 

Ao pé da forca, os SS olham com indiferença para nós que desfilamos: a sua obra está cumprida, e bem cumprida. Os russos podem chegar; agora, já não há homens fortes entre nós, o último pende por cima das nossas cabeças, e, para os outros, poucas forcas foram suficientes. Os russos podem chegar : apenas nos encontrarão a nós, os vergados, os apagados, dignos da morte inerme que nos espera. 

Destruir o homem é difícil, quase tanto quanto criá-lo; não foi fácil, não foi rápido, mas os Alemães conseguiram-no. Desfilamos dóceis, debaixo dos seus olhares: da nossa parte nada mais têm a recear: nem actos de revolta, nem palavras de desafio, nem sequer um olhar de condenação. 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

voltar a ser


Cecília

28
Fev19

Depois de arranjar a janela partida e depois de o aquecedor começar a difundir calor, pareceu que em cada um a tensão afrouxara, e foi então que Towaroski (um franco-polaco de vinte e três anos, doente de tifo) propôs aos outros doentes que oferecessem cada um uma fatia de pão a nós os três que tivemos o trabalho, e a proposta foi aceite. 

Um dia antes, tal acontecimento não teria sido concebível. A lei do Lager dizia: «come o teu pão e, se puderes, o do teu vizinho», e não deixava lugar à gratidão. Isto significava claramente que o Lager estava morto.

Foi este o primeiro gesto humano que aconteceu entre nós. Julgo que se poderia fixar naquele momento o início do processo pelo qual, nós que não morremos, de Häftlinge voltámos lentamente a ser homens. 

 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

Resurrection of the Messiah

Justin BUA

 

a última marcha


Cecília

27
Fev19

Todos os prisioneiros sãos (excluindo alguns bem aconselhados que, à última hora, se despiram e se esconderam nalguma cama de enfermaria) partiram na noite de 18 de janeiro de 1945. Deviam ser cerca de vinte mil, provenientes de vários campos. Desapareceram quase todos durante a marcha de evacuação: Alberto foi um deles. Talvez alguém escreva um dia a história destes homens. 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

Final-Death-March_1-1.jpg

THE DEATH MARCH

Logo_AUSCHWITZ_ING_S.png

 

 

a notícia


Cecília

22
Fev19

Não temos regresso. Ninguém deve sair daqui, pois poderia levar para o mundo, juntamente com a marca gravada na carne, a terrível notícia do que, em Auschwitz, o homem teve coragem de fazer ao homem. 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

todavia sabemos que


Cecília

12
Fev19

Hoje, todavia sabemos que, naquela escolha rápida e sumária, avaliara-se se cada um de nós podia ou não trabalhar utilmente para o Reich; sabemos que nos campos, respectivamente de Buna-Monowitz e Birkenau, só entraram, do nosso comboio, noventa e seis homens e vinte e nove mulheres e que de todos os outros, num total de quinhentos, nem um se encontrava vivo dois dias depois [...] 

Assim morreu Emília, que tinha três anos; porque aos alemães parecia evidente a necessidade histórica de matar os filhos dos Judeus. Emília, filha do engenheiro Aldo Levi de Milão, que era uma criança curiosa, ambiciosa, alegre e inteligente; a ela, durante a viagem no vagão cheio de gente, o pai e a mãe conseguiram dar banho numa tina de zinco, em água morna que o degenerado maquinista alemão aceitara pingar da locomotiva que nos arrastava a todos para a morte. 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

peinture_huile_turgis_11.jpg

Souffrance ou espoir d'une délivrance

 

Représentation de la souffrance de ceux qui vécurent dans les camps d'extermination. Si les personnages sont bleus c'est uniquement pour montrer l'universalité dans la persécution. Que ces personnes soient juives, catholiques, bouddhistes, protestantes, musulmanes, ou qu'elles aient la peau blanche, basanée, noire, rouge, jaune, homo bi ou hétérosexuel, cela importe peu, elles ont soufferts elles furent exterminées. Il ne doit pas y avoir de catégorie et d'ordre dans la souffrance et la persécution. aucune n'est mieux que l'autre. 

 

in http://turgis.pagesperso-orange.fr/06c-peinturgis-huile-symbolique-05.html