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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

frisos nas primeiras filas

Cecília, 10.02.20

Nunca a canção fora tão bela e tão temida, como quando foi servida pelos Príncipes da Palavra. Muitos viviam exilados, ou, se estavam em Portugal, eram presos com frequência. Constituíam uma autêntica plêiade de poetas e baladeiros para quem a canção era uma arma. José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Mário Branco, Ary dos Santos, Sophia de Mello Breyner, Manuel Alegre, Natália Correia e outros. Mas até o rock, por fim emergente, acabaria por entrar também pelos caminhos da contestação. Em 1970, o Quarteto 1111 foi, simultaneamente, acusado ou elogiado por ter instalado « a subversão a nível político-social», provocando um autêntico «terramoto» que terminou com a ordem de retirada do álbum de estreia do grupo liderado por José Cid que abordava a guerra colonial, o racismo, a emigração. Foi o primeiro disco de rock censurado. A partir daqui o grupo nunca mais deixou de estar sob mira da censura. Em cada um dos seus espétaculos, havia um friso de homens de gabardina na primeira fila. Não riam, não aplaudiam, não cantavam. Observavam os quatro Uns, que eram «subversivos e perigosos para o regime». Igual destino sofre o álbum de Petrus Castrus, Mestre, cheio de referências à censura, com uma abordagem aos mitos nacionais pela ironia. Nomeadamente em Pátria Amada, que inclui o poema «maldito» de Ary dos Santos, SARL, e que é confiscado pelo Secretariado Nacional da Informação (SNI)[...] O próprio fado, que geralmente não levantava grandes questões, estava também debaixo de olho. A começar pelas serenatas da academia coimbrã, sempre tão suspeitas. Os estudantes nunca eram de confiar... tinham ideias próprias, coisa bizarra e perigosa [...] Até Amália Rodrigues [...] teve um disco censurado. A história conta-se em poucas palavras. Em dezembro de 1968, Vinicius de Moraes, que ia passar o Natal em Roma, fez escala em Lisboa e encontrou-se com Amália em casa desta. Desse longo serão que contou com a presença de poetas, escritores, músicos, resultou um disco cujas faixas são hoje consideradas verdadeiras relíquias da música e poesia em língua portuguesa. Entre os muitos e felizes convivas, encontravam-se Ary dos Santos, Natália Correia, David Mourão Ferreira, e naturalmente a própria Amália e Vinicius. Cantaram-se fados e bossas novas, declamou-se, improvisou-se, durante um longo e maravilhoso serão. O sumariado disco Amália/Vinicius, uma hora, que emergiu deste encontro foi lançado em 1970. Sol da pouca dura. Rapidamente, a Direção dos Serviços de Censura da Emissora Nacional proibiu o precioso manifesto da lusofonia, fazendo-o retirar do mercado. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

 

 

knickknack

Cecília, 03.09.19

No passado dia 19 de Agosto, o Presidente da República, depois de ter dado luz verde às alterações a diversos códigos fiscais uns dias antes, promulgou o chamado pacote laboral que introduz diversas alterações no Código do Trabalho. Em causa, estão 3 mudanças fundamentais: regras dos contratos a prazo, período experimental e bancos de horas.

 

Bancos individuais e grupais

 

A principal novidade consiste numa reviravolta relativamente aos bancos de horas individuais: conforme referimos em Abril de 2018, o Governo tinha previsto a sua extinção imediata. Contudo, na redacção final, aqueles que já foram acordados ainda se mantêm em vigor por mais um ano. Para além disso, o último artigo da lei permite a criação de novos bancos de horas individuais durante algum tempo.

 

in Newsletter Revista Gerente

 

 

 

 

o último

Cecília, 04.04.19

Todo este aparato, este cerimonial meticuloso não são novos para nós. Desde que estou no campo, já tive de assistir a treze enforcamentos públicos; mas das outras vezes tratava-se de crimes comuns (...)

Hoje trata-se de outra coisa. 

No mês passado, um dos fornos crematórios de Birkenau foi mandado pelos ares. Nenhum de nós sabe (e talvez nunca ninguém venha a saber) exactamente como é que a iniciativa foi levada a cabo (...) 

O homem que irá morrer hoje diante de nós tomou parte de qualquer forma na revolta (...) todos ouvimos o grito do condenado; ele penetrou as espessas barreiras de inércia e de remissão, percutiu o centro vivo do homem dentro de cada um de nós:

- Kameraden, ich bin der Letzte! - (Camaradas, eu sou o último!)

Queria poder contar que entre nós, rebanho abjecto, uma voz se levantou, um murmúrio, um sinal de concordância. Mas nada aconteceu. Ficámos de pé, curvados e cinzentos, de cabeça baixa, e só descobrimos a cabeça quando o alemão o ordenou. O alçapão abriu-se, o corpo contorceu-se atrozmente; a banda recomeçou a tocar, e nós, de novo formados em coluna, desfilámos diante dos últimos estremecimentos do justiçado. 

Ao pé da forca, os SS olham com indiferença para nós que desfilamos: a sua obra está cumprida, e bem cumprida. Os russos podem chegar; agora, já não há homens fortes entre nós, o último pende por cima das nossas cabeças, e, para os outros, poucas forcas foram suficientes. Os russos podem chegar : apenas nos encontrarão a nós, os vergados, os apagados, dignos da morte inerme que nos espera. 

Destruir o homem é difícil, quase tanto quanto criá-lo; não foi fácil, não foi rápido, mas os Alemães conseguiram-no. Desfilamos dóceis, debaixo dos seus olhares: da nossa parte nada mais têm a recear: nem actos de revolta, nem palavras de desafio, nem sequer um olhar de condenação. 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

todos querem ser chefes

Cecília, 05.04.18

Todos querem ser chefes. Porque aqueles que se fazem escravos são cretinos e pedintes cujos patrões, quando se encontram frente a frente, se cumprimentam e se observam e se odeiam mutuamente. 

 

 

George Sand – Diário Íntimo

Antígona (2004)

 

 

 

galinhas do mato

Cecília, 23.02.17

Se te disserem que um gorila salvou a tua irmã
E que não é bonito pensares a todo o momento
Na caixa de correio vazia
Pensa bem, mano, na fórmula que adoptaste
Para uma sociedade sem classes
Onde não adianta patinar na relva como os ursos.
Só eles possuem o dom do peso
Aliado à levitação,
Mas a um qualquer é permitido rir
E falar alto como se acordasse em forma.
Fora do orabolas em que foste criado
Há muita coisa à espera de ser vista
Pela primeira vez
Se guardião-centauro de crespas unhas
Pronto ao disparo da saliva
Em vez de balas.
Não te rias de quem sofre à beira de água
Porque deles é também o reino da luta.
Na feira onde o loureiro medra ao quïlómetro dezassete
E se afoga a virtude em cântaros de água
Não há lugar para a débil panaceia de risos.
As árvores crescem e tu com todas
Fora do pedúnculo
Junto à terra

 

 

Zeca Afonso in Textos e Canções

 

 

 

José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos

(2 de Agosto, 1929 — 23 de Fevereiro, 1987)

 

 

 

 

 eterno Zeca sempre

 

eterno Zeca sempre

Cecília, 02.08.16

"… de facto, os jovens por vezes não se destacam do sistema. Limitam-se a constatar que não há saídas. Essa atitude tem de ser modificada e são eles que a têm de modificar. Se for preciso partir a loiça, escavacar tudo isto, acabar com a burocracia para criar uma sociedade diferente, eles que o façam. Partam mesmo a loiça. Mas são eles que o têm de fazer. Não são os homens da minha geração. Os homens e as mulheres. Aliás, sem as mulheres não se pode fazer nada. Pressinto que, de facto, as mulheres vão ter um papel muito importante na futura sociedade, contanto que não tentem imitar os homens no que eles têm de mau…"

 

 

 

 

José Afonso 

( 2 de agosto, 1929 - 23 de fevereiro, 1987)

 

 

 

 

fonte: http://www.aja.pt/eu-dizia/