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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

serviços de inteligência artística

18.05.21

... no ano da graça de 1983 António Variações integrou a lista dos mais malvestidos «de Portugal» [...] O artista reage com olímpico desdém: «sabem lá eles o que é vestir» [...] Uma semana mais tarde, o caso volta a ser relatado pelo Contador Mor que «encontrou um punhadão de gente da RTP foi na festa dada na Charlie's Place para consagração dos mais elegantes e dos mais deselegantes da dificílima arte de vestir». E acrescenta quase com desdém: «António Variações, também um dos menos elegantes, que duvidou expressamente da capacidade do júri para avaliar estilos de bem-vestir.» Ao que António responde, mais ou menos, embora por outras palavras, «O estilo sou eu!» [...]

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

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cercos (de alma) e secretaria

12.05.21

Na conversa que Aristides teve com Angelina e com os filhos José António, Pedro Nuno e Isabel (e Jules d'Août, seu genro) invocou vários argumentos espirituais e históricos, que já foram citados por vários autores. Tentarei recriar um deles, que me foi dito e repetido muitas vezes pelos meus familiares e por outras pessoas que o conheceram bem: «Estes refugiados são filhos de Deus, vítimas inocentes de uma guerra monstruosa que os foi tirar a suas casas, e se não fizermos nada por eles, poderão morrer debaixo de bombas, ou de fome, ou serem assassinados pelo invasor. A nossa obrigação e dever, como pessoas crentes em Deus, é ajudá-los, tal como faria o Bom Samaritano. A Circular 14 é injusta e não tem em conta os terríveis sofrimentos causados a todas estas pessoas. Foi redigida numa secretaria em Lisboa, longe desta realidade, sob influência de um polícia que apenas pensa na sua carreira e bem-estar. 

Vou desobedecer frontalmente a esta Circular a partir de hoje, e fazer tudo quanto puder para ajudar o maior número de refugiados. Conto com a vossa total colaboração para dar vistos gratuitos a todos quantos pudermos. A vossa mãe, com quem já falei, dá-me todo o seu apoio, e está disposta a também prestar ajuda e a cuidar das pessoas que tenham mais necessidade de atenção. Estou consciente de que perderei o meu trabalho, e a vossa vida vai alterar-se. Tudo vai ser mais difícil para nós, mas também tenho a confiança de que Deus não nos abandonará. Ao fazermos o bem a estes refugiados é ao próprio Cristo que o faremos e não seremos esquecidos - um dia poderemos ganhar o céu. 

Por outro lado, este gesto redentor é-lhes devido pelo sofrimentos causados nos séculos XV e XVI pela lei da expulsão dos judeus de 1496 e pelo estabelecimento da Inquisição em Portugal. Esta é uma oportunidade para o nosso país reparar um erro histórico e corrigir os erros do seu passado. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

in https://ocastendo.blogs.sapo.pt/31-de-marco-de-1821-fim-da-inquisicao-2063948

in https://ncultura.pt/inquisicao-medo-tortura-fogueiras/2/

in https://www.leme.pt/magazine/efemerides/1205/dom-manuel-i-assina-o-decreto-de-expulsao-dos-judeus-de-portugal.html

 

roda humana da fortuna

27.01.21

Lucie Matuzewitz continua a sua narrativa: «Um dia, o meu marido, Joseph, conheceu um rabino de barba e cabelo ruivo, que pelas longas tranças mostrava ser muito ortodoxo e tradicional do ponto de vista religioso, e que lhe disse algo de muito espantoso: "Imagine que há dias fui abordado pelo cônsul de Portugal em Bordéus, que me perguntou onde é que estava alojado. Respondi-lhe que infelizmente estava a dormir em cima de um banco, na sala de espera da estação de caminhos de ferro, com a minha mulher e cinco filhos. O cônsul respondeu que compreendia a situação que os judeus estavam a viver, devido às mentiras que os nazis andavam a espalhar acerca das pessoas da nossa religião, e como tal ofereceu-me hospitalidade na sua própria casa - venham morar em minha casa, convidou. Desde há vários dias que estamos a viver em casa do cônsul, que é de uma amabilidade extrema connosco, e que me disse para ir aos lugares públicos da cidade e dirigir-me aos refugiados que querem sair de França para os informar de que ele dará vistos para Portugal a todos os que o desejarem." O cônsul explicou que não tinha autorização para o fazer, pois só podia passar vistos a quem já tivesse bilhete ou passagem para outro país fora da Europa, o que obviamente não é o caso para a grande maioria das pessoas. Disse saber que iria perder o seu lugar, mas daria a Portugal a honra de receber refugiados da nossa religião, podendo assim apagar os crimes dos anos 1496, quando Portugal e a Inquisição expulsaram os judeus, tal como fez Espanha. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

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bu(r)las

11.04.20

Na altura da Páscoa pagava-se a bula para se poder comer carne. Ainda me recordo de uma vizinha , a Sr.ª D.ª Maria Engrácia, que não pagou. A mulherzinha era pobre, mãe solteira, vivia sozinha... e terá comido uma asita de frango. Alguém a denunciou e ela foi excomungada. A carta com o documento da excomunhão vinha com o selo do bispo de Braga. Toda a gente soube, e foi como se a mulher tivesse lepra. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

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convicções e baionetas

13.05.19

Vai ao ponto de aconselhar prudência, ao menos esperar os pareceres da hierarquia, a palavra esclarecida do Bispo de Lisboa, do Inquisidor. A Santa Madre Igreja sempre soube conviver em paz com os governos, sempre colocou acima de tudo o sossego dos fiéis e o respeito das leis. Lérias - resmunga o abade de Ribamar. - Cá para mim, hereges que me invadam a casa estão a pedir é cachaporra nos lombos! É uma fanfarronada, mas sempre alivia. Teodósio cala-se, numa censura cautelosa, a depreciar a tendência trauliteira do pároco. Serão mais as vozes do que as nozes quando o abade vir uma baioneta apontada ao saco das tripas. 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

(...) durante a segunda invasão do Porto pelos franceses, no âmbito da Guerra Peninsular, o tenente-coronel Lameth, particularmente prestigiado entre as tropas de Napoleão, foi morto em Santiago de Riba-Ul numa emboscada liderada por Bernardo Barbosa Cunha, natural de Arrifana.

Foi em retaliação a esse ataque que o marechal Nicolas Soult - tio de Lameth - deu ordem às suas tropas para rumarem a Arrifana, onde, em 17 de abril de 1809, sob o comando do general Jean Guillaume Thomières, assassinaram 71 pessoas, entre as quais 62 arrifanenses que procuraram refúgio na igreja local (...)

"Dando cumprimento às ordens do marechal Soult, o general Thomières fez uma investida sobre Arrifana, exigindo que os assassinos fossem entregues para serem fuzilados e os respetivos cadáveres expostos" (...)

Perante o cerco do exército francês, acrescentou, "a população procurou refúgio no interior da igreja, que acabou por revelar-se uma ratoeira - os franceses obrigaram todos os homens válidos a saírem do templo, selecionando em seguida um em cada cinco para serem fuzilados no Campo da Buciqueira".

in https://www.dn.pt/lusa/interior/feira-recria-com-600-figurantes-o-massacre-de-arrifana-durante-as-invasoes-francesas-10828709.html

 

assados

27.06.18

Descoberto o fogo, inventaram os assados mas arranjaram também lenha para se queimarem pois logo apareceu quem inventasse o inferno, o castigo, o pecado (67) e outras coisas que tais, acabando-se de uma vez para sempre a paz entre os homens. 

 

(67) Onde as criaturas se afundaram com regalo e para todo o sempre. 

 

 

Vilhena – História Universal da Pulhice Humana (1960/1961/1965)
Edição Completa, Integral e Nunca Censurada dos Três Volumes Originais Pré-História / O Egipto / Os Judeus

Herdeiros de José Vilhena / SPA 2015, E-Primatur (2016)

 

 

Os Sete Pecados Mortais e os Quatro Novíssimos do Homem (1500)

Hieronymus Bosch

(As quatro últimas etapas do homem são a morte, o juízo final, o paraíso e o inferno).

 

 

 

bruno de nola

17.02.17

Ao peso da sua condenação se deverá, certamente, o silêncio quase total dos contemporâneos, quaisquer que fossem as suas razões - «alguns por medo, outros por remorso» - e as formas externas de que se revestiram: e que vão desde as versões piedosamente «atenuadas» do suplício (e não menos empenhadas em justificá-lo), à remoção do nome Frei Giordano «dos registos da Ordem de S. Domingos» e das Universidades e Academias em que tinha ensinado.

Silenciaram também o facto da sua morte, com unânime cumplicidade, não só «os escritores da história profana» - que não deixaram, porém, de relatar as condenações de outros heréticos «daquele fim de século» - como ainda «os da história eclesiástica» e até os que, em vida, o protegeram, lhe deram  hospitalidade e partilharam da sua amizade.  

 

Giordano Bruno - Acerca Do Infinito, Do Universo E Dos Mundos

Fundação Calouste Gulbenkian (junho 1998)

 

 Giordano Bruno

(Nola, Reino de Nápoles, 1548 — Roma, Campo de Fiori, 17 de fevereiro, 1600)

 

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Apresento-vos agora a minha especulação acerca do infinito, do universo e dos mundos inumeráveis. 

(...)

começa-se a demonstrar a infinidade do universo, e apresenta-se o primeiro argumento, tirado o facto de não saberem onde termina o mundo aqueles que mediante a fantasia lhe querem fabricar muralhas. 

 

 

Giordano Bruno - Acerca Do Infinito, Do Universo E Dos Mundos

Fundação Calouste Gulbenkian (junho 1998)