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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

17
Mar21

bubuiando

le vide n'abolit pas l'inconnu mais l'éblouit

[...]

Tudo arde ainda na minuciosa paciência

[...]

Intensidade e tensão 

da atenção pura

que sabe conter o que não se pode conter 

 

estremecimento que não treme

tudo respira no silêncio

[...]

amorosos dedos de um amor da terra 

[...]

teia aberta 

[...]

e navio submerso 

[...]

pedra de infinita transparência

[...]

paciência ardente 

[...]

vazio amante

[...]

mão que penetrou no impenetrável 

[...]

a infinita intensidade do contacto 

 

António Ramos Rosa in  UM ESPAÇO DE SILÊNCIO (Proposições sobre a pintura de Vieira da Silva)  - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

O Naufrágio

Maria Helena Vieira da Silva 

 

09
Mar20

impaciente, cega

 

Alguém a viu sair, essa mulher descalça

que marcha ao longo do muro impaciente e cega? 

 

 

António Ramos Rosa in CICLO DO CAVALO - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

01
Ago18

troca fachadas

Não, ele vivia num bairro que parecia um bairro social, mas na verdade não o era, porque ali não aconteciam as coisas que era suposto acontecerem nos bairros sociais. Aquele bairro tinha sido fruto de uma excelente ideia do antigo presidente da Câmara, agora preso por corrupção, o que em termos práticos significava uma meia dúzia de milhares de euros a mais numa conta em nome de uma sobrinha, uma vivenda com mais pisos do que a maioria, um apartamentozito para a filha mais velha, algumas viagens a destinos turísticos muito parecidos e obviamente uma série de jantaradas e garrafas de whisky impossíveis de contabilizar. Mas, por injustiça, os partidos da oposição, os jornais locais, um ou outro nacional e o pessoal da vila já não mencionavam essa excelente forma que o antigo presidente tinha arranjado para resolver o problema das barracas. Talvez porque a ideia tivesse sido tão simples e tão boa, mas dava menos àqueles que também queriam algum extra para fazer aquela vida que era suposto fazer-se, quando se era mais ou menos político, mas o ordenado não deixava. 

 

 

 

Ricardo Adolfo,  Mizé - Antes gálderia do que normal e remediada 

Alfaguara (2011)

 

 

 

 

 

02
Jan18

sem impedimentos

A criada Kame gritava: musumé, onde estás tu. E a jovem Matsu respondia: no teu coração. A criada voltava a gritar: e mais onde. Matsu respondia: ao sol. Estou aqui encostada ao sol. Era como se o sol se estendesse até tocar o corpo ao abandono da jovem. A criada juntava-se-lhe e culpava-se de parar os trabalhos por um instante. Por vezes, escolhiam a fome em troca de um mínimo de sossego. A felicidade podia acontecer num ínfimo instante, ainda que a fome se mantivesse e até a sentença para sofrer. O sofrimento nunca impediria alguém de ser feliz. 

 

 

Valter Hugo Mãe – Homens imprudentemente poéticos

Porto Editora (2016)

 

 

 

 Le semeur au soleil couchant

Vincent Van Gogh

 

 

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