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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

15
Mar22

bufarinheiros

Cecília

Vagueio de casa em casa como os frades da Idade Média que enganavam as raparigas e as mulheres casadas com contas e baladas. Sou um viajante, um bufarinheiro, pagando com uma caução a hospitalidade que me oferecem; sou um convidado fácil de agradar; alguém que ora dorme no melhor quarto da casa, na cama de dossel, ora passa a noite no estábulo, deitado num molho de feno. Não me importo com as pulgas, o mesmo se passando com o toque da seda. Tenho uma percepção demasiado clara da perenidade da vida e das tentações que a caracterizam para impor proibições. Apesar de tudo, não sou tão tolerante como vos pareço

 

Virginia Woolf – As Ondas (1931)

Colecção Mil Folhas / Bibliotex SL / M.E.D.I.A.S.A.T. e Promoway Portugal Ltda (2002)

 

 

11
Mai21

chefes de nação e cíclicas beatitudes

Cecília

O presidente israelita Ben-Gurion pede ao Yad Vashem (Alta Autoridade para a Shoah) para averiguar o caso e fazer uma recomendação importante, pois já havia iniciativas, vindas de certos sectores, para nomear Salazar e Franco como Justos Entre as Nações. Os processos de averiguação do Yad Vashem, como comentou o embaixador Bessa Lopes no seu estudo, são extremamente rigorosos, e concluíram que, de facto, o "Justo", neste caso, era Aristides de Sousa Mendes. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

17
Mar21

bubuiando

Cecília

le vide n'abolit pas l'inconnu mais l'éblouit

[...]

Tudo arde ainda na minuciosa paciência

[...]

Intensidade e tensão 

da atenção pura

que sabe conter o que não se pode conter 

 

estremecimento que não treme

tudo respira no silêncio

[...]

amorosos dedos de um amor da terra 

[...]

teia aberta 

[...]

e navio submerso 

[...]

pedra de infinita transparência

[...]

paciência ardente 

[...]

vazio amante

[...]

mão que penetrou no impenetrável 

[...]

a infinita intensidade do contacto 

 

António Ramos Rosa in  UM ESPAÇO DE SILÊNCIO (Proposições sobre a pintura de Vieira da Silva)  - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

O Naufrágio

Maria Helena Vieira da Silva 

 

09
Mar20

impaciente, cega

Cecília

 

Alguém a viu sair, essa mulher descalça

que marcha ao longo do muro impaciente e cega? 

 

 

António Ramos Rosa in CICLO DO CAVALO - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

01
Ago18

troca fachadas

Cecília

Não, ele vivia num bairro que parecia um bairro social, mas na verdade não o era, porque ali não aconteciam as coisas que era suposto acontecerem nos bairros sociais. Aquele bairro tinha sido fruto de uma excelente ideia do antigo presidente da Câmara, agora preso por corrupção, o que em termos práticos significava uma meia dúzia de milhares de euros a mais numa conta em nome de uma sobrinha, uma vivenda com mais pisos do que a maioria, um apartamentozito para a filha mais velha, algumas viagens a destinos turísticos muito parecidos e obviamente uma série de jantaradas e garrafas de whisky impossíveis de contabilizar. Mas, por injustiça, os partidos da oposição, os jornais locais, um ou outro nacional e o pessoal da vila já não mencionavam essa excelente forma que o antigo presidente tinha arranjado para resolver o problema das barracas. Talvez porque a ideia tivesse sido tão simples e tão boa, mas dava menos àqueles que também queriam algum extra para fazer aquela vida que era suposto fazer-se, quando se era mais ou menos político, mas o ordenado não deixava. 

 

 

 

Ricardo Adolfo,  Mizé - Antes gálderia do que normal e remediada 

Alfaguara (2011)

 

 

 

 

 

02
Jan18

sem impedimentos

Cecília

A criada Kame gritava: musumé, onde estás tu. E a jovem Matsu respondia: no teu coração. A criada voltava a gritar: e mais onde. Matsu respondia: ao sol. Estou aqui encostada ao sol. Era como se o sol se estendesse até tocar o corpo ao abandono da jovem. A criada juntava-se-lhe e culpava-se de parar os trabalhos por um instante. Por vezes, escolhiam a fome em troca de um mínimo de sossego. A felicidade podia acontecer num ínfimo instante, ainda que a fome se mantivesse e até a sentença para sofrer. O sofrimento nunca impediria alguém de ser feliz. 

 

 

Valter Hugo Mãe – Homens imprudentemente poéticos

Porto Editora (2016)

 

 

 

 Le semeur au soleil couchant

Vincent Van Gogh

 

 

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