Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

se só, não

Cecília, 01.07.20

- Falávamos mais das clientes, do que dos cabelos. Do feitio, da maneira de ser delas. Nós somos cabeleireiros, somos médicos e somos padres. É uma terapia. Antes era, pelo menos. Mas... é muito esquisito. As mulheres sabem perfeitamente quem nós somos, às vezes até nos contam a vida toda, mas na rua são capazes de não nos falarem. Fingem que não nos veem. Chegámos a encontrar clientes nossas no Pap'Açorda que, ali, faziam de conta que não nos conheciam. Gente supostamente educada, com apelidos sonantes. E nós, é claro, gozávamos imenso com isso. É óbvio que quando ele se tornou um artista conhecido, já faziam gala em conhecê-lo. Se só fosse cabeleireiro, não. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

aprender com o trigo (não se desculpar com o joio)

Cecília, 05.06.20

O rapaz de calças de ganga era, afinal, uma pessoa séria. Tinha estudado muito, no seminário. O pai era um lavrador com posses, como o senhor Rodrigues, e ele só se tinha formado por devoção. Podia ter ido para médico, engenheiro ou professor. Com os conhecimentos do pai, podia estar muito bem na vida. Podia ter investido num negócio ou arranjado um tacho na câmara municipal. Se fosse uma pessoa menos decente, era o que teria feito. Tantos que queriam e não podiam! 

Sem se esquecer de referir o pormenor da indumentária devida a uma pessoa que ocupava a posição dele, o meu pai dizia o mesmo (...)

As calças de ganga eram o defeito do qual ninguém, a não ser Deus, se conseguia eximir. Estávamos servidos para a vida. Que pedíssemos a Deus que o estimasse, todos os dias, nas nossas orações. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

impaciente, cega

Cecília, 09.03.20

 

Alguém a viu sair, essa mulher descalça

que marcha ao longo do muro impaciente e cega? 

 

 

António Ramos Rosa in CICLO DO CAVALO - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

queda contada

Cecília, 26.11.19

a verdade é frequentemente mais estranha do que os factos, e os últimos nem sempre contam a verdade 

 

Wray Delaney - Memórias de Uma Cortesã  (2016)

Quinta Essência, Oficina do Livro (2017)

 

 

 

memórias que importam (ou a simplicidade que fortifica)

Cecília, 20.10.19

O pai, exímio tocador de cavaquinho e harmónica, era o chefe de uma banda familiar onde todos cantavam e dançavam, congregando, mesmo em alturas mais difíceis, um clima de festa que filho algum conseguiu esquecer. 

 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

 

 

invisivelmente visível

Cecília, 08.10.19

Eu tenho um anjo

Anjo da Guarda

Que me protege de noite e de dia

Eu não o vejo

Eu não o ouço

Mas sinto sempre a sua companhia 1

 

1 António Variações, «Anjo da Guarda», Anjo da Guarda, EMI - Valentim de Carvalho, 1983 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

 

a medida

Cecília, 08.09.19

(...)

em nome do sofrimento e da felicidade

em nome dos animais e dos utensílios criadores

em nome de todas as vidas sacrificadas

em nome dos sonhos 

em nome das colheitas em nome das raízes 

em nome dos países em nome das crianças 

em nome da paz

que a vida vale a pena que ela é a nossa medida

que a vida é uma vitória que se constrói todos os dias 

(...)

 

António Ramos Rosa in O BOI DA PACIÊNCIA

 

António Ramos Rosa - Obra Poética I 

Assírio & Alvim (2018)

 

 

 

who i am: antiga

Cecília, 23.08.19

Já chegou o homem novo, aquele

por Whit-

man anunciado, embora

sujeito a insuspeitos 

refrões financeiros. Basta 

que um fale 

conhecemo-los todos, todos

igualmente superficiais,

trazem na lapela o sinal

emblemático da sua pobreza 

de espírito. Outros trazem mais 

a regra da indiferença 

e nós, as mulheres, cobrimo-nos 

com as pinturas da guerra 

declarada ao sucesso 

do homem novo. Moderno

como um fogo cáustico, tudo

devora, a Natureza 

e as próprias raízes, tudo

sobrevoa cego de apenas ver 

em diferido. 

 

Nós ouvimos o real uivar

prisioneiro da sombra, o mapa distor-

cido, a cartografia desta doença 

planetária que murcha e desagrega 

o cérebro à lareira, no bramido

à vida pondo fim. Desapareceu 

dos lábios a doce palavra 

«companheiro», somente

a beiça voraz escancara dentes

dourados, rupestres, as presas

do bom hálito do homem novo.

Tanto faz ficares connosco, porque

partir é onde ilusionistas 

e agências nos transportam, só

a cortês nesga do rio nos leva:

ásperas, pedra-pomes. Desgraça,

demais confiámos o corpo à margem

calma, aos risonhos bebedouros, - insinuavam:

pejados de alma, mas alma, alma,

é coisa para antigos

livros poéticos. 

 

Paulo da Costa Domingos in OUVIMOS O REAL

 

 

Paulo da Costa Domingos - Carmina (1971 - 1994)
Antígona (1995)