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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

cuspir como Deus


Cecília

24
Abr19

Kuhn é um insensato. Não vê, na cama ao lado, Beppo, o grego, que tem vinte anos, e que depois de amanhã irá para o gás; e que, sabendo-o, fica deitado olhando fixamente a lâmpada sem dizer nada e sem pensar em mais nada? Não sabe Kuhn que a próxima será a sua vez? Não percebe Kuhn que hoje aconteceu uma coisa abominável que nenhuma oração propiciatória, nenhum perdão, nenhuma expiação dos culpados, nada, em suma, que esteja em poder do homem fazer, poderá nunca mais cancelar?

Se eu fosse Deus, cuspiria para o chão a oração de Kuhn. 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

prisão


Cecília

08
Out18

Para encherem a noite, os grilos não precisam mais que de uma lura. 

Mesmo no cativeiro continuam a cantar...

 

Para o homem, momentos há -- e é doloroso reconhecê-lo -- em que até o universo é uma prisão.

 

Jorge Sousa Braga - Ao Relento

 

 

in O Poeta Nu [poesia reunida]

Assírio & Alvim (abril 2014)

 

 

 

 

o século em que se vive


Cecília

26
Abr18

Seria preciso que estivéssemos todos toldados por uma credulidade imbecil (...) ou atulhados em vaidade como os nossos literatos modernos, para tomar assim um efeito por uma causa, e para nos deixarmos deslumbrar cegamente com o poder exercido por certos poetas sobre o século em que vivem, quando é mais natural, porém, que seja o século a exercer o seu poder sobre tais cérebros poéticos, e os force, como outrora Deus, a Pitonisa, a testemunhar, pelos gritos de dor e de cólera, o frenesi ou o desalento dos seus contemporâneos. 

 

 

George Sand – Diário Íntimo

Antígona (2004)

 

 

 

a hipótese


Cecília

09
Abr18

O meu meio de transporte era um Comet de 62. A jovem da casa em frente sentia-se muitíssimo ofendida com o meu carro velho. Tinha de estacionar em frente à casa dela porque era uma das poucas zonas planas do bairro e o meu carro não arrancava em subidas. Mal pegava em terreno plano, pelo que eu ficava ali sentado, a bombar o acelerador e a carregar na ignição, e o som era nojento e contínuo. A mulher começava a gritar como se estivesse a enlouquecer. Era uma das poucas vezes em que eu sentia vergonha de ser pobre. Ficava ali sentado, a dar gasadas e a rezar para que o Comet de 62 arrancasse, ao mesmo tempo que tentava ignorar os gritos de raiva que saíam da casa dispendiosa. Bombava e bombava, o carro arrancava, andava alguns metros, e ia-se abaixo outra vez. 

« Tira esse chaço da frente da minha casa ou eu chamo a polícia!» Depois os longos gritos loucos. Por fim, ela saía, de quimono, uma jovem loura, linda, mas ao que parece, completamente louca. Corria até à porta do carro a gritar e um dos seios saltava para fora. Guardava-o e o outro seio saltava para fora. E depois uma perna espreitava pela racha do quimono. «Minha senhora, por favor», dizia-lhe eu, «estou a tentar».

Finalmente, conseguia pôr o carro a andar e ela ficava no meio da rua, com os dois seios de fora, a gritar: «Não voltes a estacionar aqui o carro, nunca mais, nunca mais, nunca mais!» Era em alturas como aquela que eu considerava a hipótese de procurar emprego. 

 

 

Charles Bukowski in Um Par de Gigolôs - Música para Água Ardente (1983)

Antígona (2015)

 

 

 

mar07021.JPG

 fonte imagem: http://www.roadhouserestorables.com/gpage36.html