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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

22
Mar22

cassetes [que funcionavam]

Cecília

Em meados dos anos de 1990, quando era estudante e frequentava en passant as já referidas cadeiras de Marketing, costumava arriscar uma imitação tosca das intervenções sibilantes de Carlos Carvalhas, então secretário-geral do Partido Comunista Português, martelando as mesmas teclas que o Comité Central gostava de tocar à época: «O Governo destruiu o aparelho produtivo nacional, sacrificou a nossa agricultura, as nossas pescas e os mais importantes sectores industriais, tudo isto num cenário de dificuldades para os portugueses; eis-nos então perante um ministro das Finanças feito mestre-escola comunitário, a quem cabe distribuir o cacete, reservando a cenoura para o primeiro-ministro». Em suma, os critérios de Maastricht e as decisões políticas condenaram-nos a ser um país servil, de empregados de mesa, com um paninho de loiça pendurado no braço [...] (já a referência explícita ao cacete está documentada nas actas da Assembleia da República de 13 de Fevereiro de 1992), mas, enfim, percebe-se a ideia. Nessa altura, o país dava mesmo os primeiros passos em direcção a uma terciarização acelerada. 

 

Pedro Vieira – Em que posso ser útil? (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Pedro Vieira (2021)

 

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in https://m.facebook.com/umempregadodemesatambemchora/

 

21
Fev22

vergonhas [não tão] alheias I

Cecília

Uma pesquisa ilustra bem a resistência dos estereótipos à evidência e, das diferentes situações que envolvia, salientamos duas: uns participantes eram confrontados com fotografias de um grupo de pessoas negras, bem vestidas, descritas num pequeno texto como tendo obtido sucesso na vida; outros participantes eram confrontados com fotografias das mesmas pessoas negras, mas agora vestidas de forma simples e descritas como tendo fracassado na vida. Era pedido aos participantes que avaliassem a cor dos membros de cada um dos grupos, num contínuo de mais negro a mais branco. Os resultados foram claros: as pessoas que apareciam bem vestidas nas fotografias e no cenário de sucesso foram percebidas como mais brancas do que as vestidas de forma simples. Das diferenças de sucesso os participantes inferiram diferenças de cor. Ao que parece, quando a realidade não confirma o estereótipo, mudamos a (perceção da) realidade para manter o estereótipo. 

 

Jorge Vala  – Racismo, Hoje, Portugal em Contexto Europeu (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Jorge Vala (2021)

 

 

09
Dez21

payback period

Cecília

Se hoje EUA e China lutam pelo papel de potência mundial, numa corrida tecnológica e espacial, há pouco mais de um século eram os britânicos que governavam as ondas, mantendo sob o seu jugo mais de 400 milhões de pessoas, então equivalente a mais de 20% da população mundial [...]

“Império não acabou quando os britânicos fizeram as malas” “Os sinos do templo, eles dizem, volta soldado inglês”, entoou distraidamente o então ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Boris Johnson, dentro do pagode de Shwedagon, o mais sagrado templo budista de Rangun, no Myanmar, em 2017.

Tratava-se da Estrada para Mandalay (1892), um nostálgico poema de Rudyard Kipling sobre um antigo soldado inglês, e as saudades que tinha de uma rapariga birmanesa que beijara. “Provavelmente não é uma boa ideia”, avisou o embaixador britânico ao seu ministro dos Negócios Estrangeiros, perante as câmaras do Channel 4, calando-o. É que, no que toca ao período colonial, muitos birmaneses recordam sobretudo os massacres cometidos pelos britânicos, suprimindo sucessivas rebeliões.

No entanto, nem sempre a memória se mantém tão viva e o sentimento anticolonial tão forte, salienta Deana Heath. Por um lado, “para garantir que os crimes coloniais ficavam por punir, os britânicos usaram táticas que iam da destruição de documentos a colocar outros num arquivo secreto no Reino Unido, que o Governo britânico só admitiu que existia em 2011”, lembra a historiadora.

Por outro lado, “as ligações culturais entre o Reino Unido e as suas antigas colónias são muito profundas. O que tem sido ajudado pelo facto de as lideranças nacionalistas, os grupos que receberam o poder dos britânicos, serem maioritariamente falantes de inglês e terem uma educação ocidental”, explica. Aliás, para muitos autores, a literatura inglesa foi usada com “máscara de conquista”, uma maneira de “afastar a atenção da brutal natureza do controlo colonial”, reflete. “Este é um exemplo de porque é que o império não acabou quando os britânicos fizeram as malas e partiram” [...]

Outros legados coloniais são menos óbvios, como a generalização da perseguição a pessoas LGBT+. Ao contrário do que se costuma imaginar, não era norma em todos os territórios colonizados antes da chegada dos britânicos. Na Índia, por exemplo, as hijra – hoje chamar-lhes-íamos mulheres trans – tinham um papel respeitado em certas culturas do subcontinente, funcionando quase como sacerdotisas. Mas tudo desapareceu com a introdução da moral Vitoriana, “os britânicos exportaram as suas normas de género por todo o mundo, tornaram-nas lei, porque o género era crucial para o projeto colonial”, explica Heath. “Era, em parte, por outras palavras, a chamada missão ‘civilizadora’ britânica”.

in https://ionline.sapo.pt/artigo/755188/reino-unido-o-que-sobra-do-imperio-brit-nico-?seccao=Mundo_i

 

 

21
Jul21

brandos costumes

Cecília

A sociedade portuguesa de 1940 estava muito dividida no que dizia respeito aos seus sentimentos por Salazar. E ainda hoje, apesar da revolução de 1974, que permitiu ao país viver em democracia, a memória do ditador suscita ideias contraditórias em alguns sectores: há quem insista em perpetuar a memória de um Salazar "autoritário, mas bonzinho", pondo em dúvida que tenha, sequer, colaborado com o nazismo (nem mesmo de forma não consciente). Como se barrar o caminho da salvação a potenciais vítimas da perseguição e dos campos de concentração e da morte, só para dar um exemplo que me toca mais de perto, não fosse colaboração suficiente com o horror nazi...

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes (2017)

 

deus me proteja de mim
e da maldade de gente boa
da bondade da pessoa ruim
deus me governe, guarde
ilumine e zele assim
caminho se conhece andando
então vez em quando
é bom se perder
perdido fica perguntando
vai só procurando
e acha sem saber
perigo é se encontrar perdido
deixar sem ter sido
não olhar, não ver
bom mesmo é ter sexto sentido
sair distraído e espalhar bem-querer

Faixa do disco Francisco, forró y frevo (2008)

 

 

06
Jul21

e aos costumes nada se faz

Cecília

A guerra terminou a 8 de maio de 1945 e o dia 9 de maio foi declarado Dia da Paz. Os chefes dos governos dos países aliados e de outros, para comemorarem a ocasião, fizeram discursos para a nação. Portugal (ou Salazar) não podia ficar atrás, e "naturalmente", pôs-se do lado das nações vitoriosas que se bateram pela democracia, pela liberdade e pela defesa dos direitos humanos. Salazar, que se lembrou dos elogios que lhe foram dirigidos em 1940, erradamente e por engano, pela imprensa estrangeira devido à política de abertura e acolhimento de refugiados", proferiu, na Assembleia Nacional, a 18 de maio, o discurso Portugal , a Guerra e a Paz (in Discursos, Salazar). A parte que mais marcou os gémeos, os meus avôs, começava assim: «Do mais não há que falar. Quaisquer outros na nossa situação acolheriam refugiados, salvariam e agasalhariam náufragos, ajudariam a suavizar a sorte dos prisioneiros, enviariam donativos a necessitados, por dever de solidariedade humana e também para manter no mundo convulsionado por ódios mortais o que poderia ser chama, embora ténue, de caridade, antevisão, embora pálida, da justiça e da paz. Pena foi não termos podido fazer mais.»

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes (2017)

 

 

29
Jun21

país(es)

Cecília

Um país se delimita nas mudanças do vento.

Labirinto ou fábrica de espumas sempre aberta. 

Sinuosas continuidades, dunas de pensamento, 

por vezes um abrigo, ninho de primavera,

por vezes um polvo ardendo nas areias. 

 

António Ramos Rosa in UM PAÍS, UM POEMA - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

16
Jun21

deixem passar

Cecília

Várias pessoas com quem contactei (algumas já falecidas), falaram-me desses momentos, inesquecíveis para quem os viveu. Como Henri Zvi Deutsch, jovem adolescente na altura, que me contou que os pais, fugidos da Alemanha, nem papéis tinham - com eles apenas traziam fé e esperança. Zvi Deutsch mencionou-me o tipo de vistos que vários autores consideram como únicos na história da diplomacia mundial e que o cônsul de Bordéus terá produzido às centenas. Tratava-se de um simples pedaço de papel onde Aristides (ou talvez um dos seus filhos) escrevia o seguinte texto: «O governo português pede às autoridades francesas e espanholas que deixem passar o portador, ou portadores, deste visto de trânsito temporário. Trata-se de um refugiado, ou refugiados, do conflito armado a decorrer na Europa, a caminho de Portugal.» 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

25
Mai21

gestão de canalizações de fluxos

Cecília

Os jornais da região, e não só, fizeram eco do que foram esses dias da última semana de junho e primeiras de julho em Vilar Formoso. Os comboios chegavam cheios de refugiados, e a PVDE mantinha-os, por vezes durante vários dias, nessa estação, à espera de que os seus agentes tivessem tempo suficiente para fazer um controlo eficaz. 

Manuel Lourenço de Andrade, um jovem de 20 anos em 1940, habitava a cem metros da famosa estação que iria ficar na história. Para ele, o mês de junho desse ano, tornou-se um capítulo inesquecível da sua juventude. Assistiu à dor de todas aquelas pessoas, e também presenciou gestos de solidariedade numa base quotidiana. Contou-me como ele e a sua família sentiram o sofrimento que começou a chegar a Vilar Formoso, em comboios superlotados, a partir de meados de junho. Iam todos os dias à estação de caminhos de ferro da vila, levando outros a seguir o seu exemplo, para prestar ajuda e oferecer bens de primeira necessidade aos refugiados, por vezes apenas umas palavras de encorajamento. Lembra-se de um refugiado que ao fim de uma semana sucumbiu à doença, por falta de assistência médica e de medicamentos. Ficou sepultado no cemitério de Vilar Formoso - os habitantes da vila acompanharam o cortejo fúnebre.

Obviamente, a PVDE não estava lá por razões humanitárias, mas para controlar o fluxo de pessoas e canalizá-las para diferentes zonas do país. O aspeto humanitário não foi pensado pela autoridades deste país tão católico, num momento em que as consequências de mais uma guerra mundial alastravam até ao território nacional. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

25
Mai21

transformar-se em

Cecília

Efetivamente, a determinação em salvar pessoas desobedecendo às ordens do governo expressas na Circular 14, a abertura de espírito e o amor ao próximo, seguindo o exemplo do «Bom Samaritano», a compaixão para com os que sofrem transformando-se num deles e aceitando todo o sofrimento que daí veio "com amor", como a Dra. Raquel Andrade tão bem exprimiu no subtítulo da sua tese de doutoramento O Diplomata que se fez Refugiado, esclarecem-nos sobre a epopeia de Aristides. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

21
Mai21

a bondade, salva

Cecília

Numa carta datada de fevereiro de 1968, escrita a Joana de Sousa Mendes, a filha de Aristides e Angelina que a partir de Nova Iorque se bateu valentemente pela reabilitação do pai até à sua morte, o professor Charles Oulmont escreve: «[...] Nunca esquecerei a forma como o seu pobre pai se empenhou para aliviar o sofrimento dos judeus durante a invasão de França em 1940, em Bordéus. Pessoalmente, encontrava-me também, nessa situação desesperada, como refugiado, apesar de ter sido convidado pelo governo português para estar presente nas cerimónias da Independência de Portugal. Poderíamos pensar que tal facto protegeria a minha vida! Infelizmente, não foi o caso, e foi o seu pai e só ele, com a sua bondade, quem me salvou... 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

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