a luz da cozinha, os tubos fluorescentes de fabricar cegos quase a chegarem aqui juntamente com ruídos de gavetas, talheres, a porta do frigorífico numa espécie de sucção, um prato a bater nos outros ao ser tirado da pilha, uma voz nos antípodas
- Queres ovos mexidos?
os cliques do forno que não acende, acende, se apaga, acende de novo e o assobiozinho do gás, uma torneira aberta, uma torneira fechada, qualquer coisa que se parte
(acho que um pires)
o som de porta de armário e de objectos remexidos à procura do vasculho e da pá, do sapato a carregar na patilha do balde cromado onde se despejam cacos,
António Lobo Antunes – A Última Porta Antes da Noite (2018)
Paulo da Costa Domingos – Carmina (1971-1994) Antígona (1995)
Parle à ta tête
Je veux qu'on m'écoute, oui, je veux qu'on m'comprenne Je veux aimer, savoir pourquoi j'suis là, dis-moi pourquoi j'suis là Et je marche seule cachée sous mon ombrelle S'te plaît, ne te moque pas de moi, j'vais au pôle emploi Le moral à plat
Et je fais le mariole, parfois, j'fais des marmites J'en ai marre d'aller très vite, j'peux démarrer de suite Dites-moi c'que vous en dites Oh, dites-moi c'que vous en dites
[Refrain] Parle p-p-p-p-p, parle à, parle à ta tête Parle à, parle à ta tête, parle à, parle à ta tête Parle à tê-tê-tê-tête, parle à, parle à ta tête Parle à, parle à ta tête, parle à, parle à ta tête
J'suis en mode burn out, est-c'qu'il faut qu'j'te l'répète ? Ça brûle, ça pique et ça monte à la tête, j'deviens encore plus bête J'garde le sourire, paraît qu'la vie est belle S'te plaît, non, non, ne me ment pas, ou,i j'ai dit "ne ment pas" C'est bien trop pour moi
[Refrain] Parle p-p-p-p-p, parle à, parle à ta tête Parle à, parle à ta tête, parle à, parle à ta tête (c'est bien trop pour moi) Parle à tê-tê-tê-tête, parle à, parle à ta tête Parle à, parle à ta tête, parle à, parle à ta tête
Toutes ces belles lumières et ce tumulte autour de moi M’embrument et m’enivre d'absinthe, d'amour et j'y crois Je donnerai tout sans rien garder sauf ta réalité Je mourrai comme j'ai vécu une fois le rideau tombé L'idéal auquel je rêve, il n'a rien d'anormal Par delà, le bien, le mal le temps m'emportera Comme une rose en cristal vacille et perd tous ses pétales J'veux faire briller ma vie comme l'éclat d'une étoile Pardonne-moi le jour où je n'pourrai plus te parler Pardonne-moi chaque moment où je n't'ai pas regardé Oh, pardonne-moi tout le temps que je ne t'ai pas donné Et chaque lendemain qui s'ra un jour de moins Moi, je veux vivre, que mon cœur brûle, j'veux m'sentir exister Souffrir, pleurer, danser, aimer à en crever Paris, Athènes, Venise, Harlem, Moscou à tes cotés Le temps ne vaut qu'du jour où il nous est compté
[Refrain] Parle p-p-p-p-p, parle à, parle à ta tête Parle à, parle à ta tête, parle à, parle à ta tête Parle à tê-tê-tê-tête, parle à, parle à ta tête Parle à, parle à ta tête, parle à, parle à ta tête
Em 6 de maio de 1937 ocorreu a explosão do Hindenburg, em Lakehurst, perto de Nova York. O incêndio do maior zepelim do mundo causou a morte de 35 pessoas (...)
O acidente aconteceu no final de uma tarde chuvosa, 77 horas depois da decolagem em Frankfurt. A bordo estavam 61 tripulantes, 36 passageiros, dois cachorros, além de bagagem, cargas e correspondências. O forte vento em Lakehurst havia obrigado o capitão Max Pruss a sobrevoar o atracador por duas vezes. Ao mesmo tempo, ordenou que fossem soltos gás e mais de uma tonelada de água para aliviar o peso.
O zepelim já estava com as escadas baixadas quando, a 60 metros do chão, iniciou-se um incêndio em sua cauda. Meio minuto depois, o corpo do dirigível caía, em chamas, com o solo (...)
Diversas comissões de peritos tentaram descobrir a causa da explosão, sem alcançar resultados concretos. Na época, correram várias versões. Podia ter sido um problema técnico, mas também uma sabotagem dos norte-americanos, duas semanas após o bombardeio de Guernica pelos alemães. Ou teria sido um complô judeu? Da concorrência? Ou ainda dos agricultores cujos campos ficavam em volta do campo de pouso?
(...)
Hoje, os técnicos têm quase certeza de que a causa está nas leis da física. O gás hidrogênio, que fazia o balão flutuar, vazou devido a uma trágica cadeia de circunstâncias e explodiu em contato com o ar, por causa da eletricidade estática acumulada na atmosfera com o temporal. O fogo espalhou-se rapidamente pela parede externa do dirigível, feita de algodão e linho e revestida por uma fina camada de alumínio.
Depois da tragédia, a indústria alemã de zepelins passou a fazer contatos com os Estados Unidos para importar hélio, gás não inflamável, produzido no Texas. Os negociadores alemães quase haviam atingido seu objetivo, um navio com milhares de garrafas do gás estava a caminho da Alemanha quando os nazistas invadiram a Áustria, a 1º de março de 1938.
Que fazer então? Matar a enteada com gás da Companhia ficava caríssimo e os tempos que correm exigem a mais apertada economia. Para tirar as dúvidas, puxou de papel e lápis e fez as contas: Tendo a sua casa 185 m3 e custando 40$00 cada metro do referido gás, a vingança importar-lhe-ia em cerca de sete contos e quinhentos. Impossível!... (E aqui deixo o meu protesto para ser exarado em acta na próxima reunião de vereadores. Que porcaria de cidade é esta, onde morrer fica quase tão caro como viver?!)
Vilhena – Branca de Neve e os 700 anões (1962) Edição fac-símile, A Bela e o Monstro Edições / Rapsódia Final, Unipessoal lda (2014)