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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

da importância da educação / ensino

a educação privada é intolerável nas famílias degeneradas, entregues a maus hábitos e imbuídas de maus princípios. Mais vale o abominável regime do colégio. 

No seio das famílias honestas e tranquilas, porém, deveria ser um dever ficar com a guarda das crianças e não as obrigar a aprender os factos da vida num colégio onde a igualdade só existe à lei da pancada, onde a disciplina é embrutecedora, onde a autoridade é brutal, pueril e tacanha - já para não mencionar os vícios que proliferam em todas as instituições do género. Hoje em dia, contudo, parece que a educação moral já não é necessária ao homem; parece que todos preferem refugiar a vida na inteligência e virar as costas ao coração. No que respeita às crianças inteligentes, tudo o que o que o colégio consegue desenvolver é o orgulho e o amor-próprio. Já as crianças não-inteligentes, essas ficam-se pelos instintos vis e grosseiros. Em todas, mesmo nas naturezas mais naturalmente generosas que essa detestável educação não consegue corromper por completo, é a vaidade que se sobrepõe a tudo o resto (...) 

A melhor educação possível passaria por uma soma perfeitamente combinada de conhecimentos (...) pelo verdadeiro progresso do coração: a intensa estimulação dos sentimentos (...) do sentido de justiça, de elevação moral, de gratidão, de boa-fé, de dedicação. Um tipo de ensino dotado de poder persuasivo (...) pois, se não bastar a palavra, resta-nos o exemplo. O homem mais modesto, a mulher menos culta, qualquer pai ou mãe poderá oferecê-lo ao seu filho (...) 

Necessário seria, sobretudo, conhecer o carácter de uma criança, fazer com que também se conhecesse a si mesma, e tão profundamente que se sentisse forçada a reconhecer a verdade pelo menos para si própria; chamar a atenção dela para os seus defeitos, fazer-lhe notar os insucessos e as vitórias, encorajar a sua progressão no caminho do bem. Se a criança for ávida de ciência, devemos tentar refreá-la, mostrar-lhe que a inteligência de nada serve sem a bondade, sem a virtude, sem o amor. No caso de se revelar indolente mas doce e afectuosa, é necessário que compreenda que se deve instruir e cultivar por amor àqueles que a educam, e transformar o desenvolvimento da sua inteligência num sacrifício, num acto de completa dedicação (...) há que habituar as crianças a explicarem com arrojo aquilo que conhecem bem e desvalorizar-lhes o pretensiosismo quando falam do que não conhecem de todo, ou do que conhecem mal. Fazer por ridicularizar, sem compaixão, a sua apetência pelo poder. Ridicularizar igualmente os seus apáticos desalentos, pretexto para a indolência (...) O afecto do apreço, da confiança, do discernimento, que fará com que os apuremos segundo o seu mérito, e que os tratemos como o fardo ou o sustentáculo da família, conforme a fraqueza ou a força demonstradas, a dedicação ou o egoísmo (...) O dos colegas, que tendem a arrancar dos outros uma vã honra pública alardeando uma aclamação visível, é o sentimento mais daninho e perverso que podemos fazer eclodir no homem. A criança que triunfa graças à derrota dos seus colegas, e que se alegra em ser coroada em público com mais um louro no alto da cabeça, não passará de um poeta despeitado, um artista invejoso e fingido, um deputado entufado de tola popularidade, um empregado cheio de nula importância, um falso legitimista, um falso doutrinário, um cidadão sem espírito de fraternidade, devoto à pátria apenas devido às recompensas que dela obterá, um orador mais interessado em bem falar do que em demonstrar o bom princípio, um agricultor mais preocupado em alinhar as árvores e em fazer gala de uma manada ostentosa do que em melhorar as suas terras e naturalizar as espécies verdadeiramente adequadas aos seus terrenos, ou seja, um homem desprovido de consciência, de bondade, de genuíno pundonor, cuja utilidade reverte, quando muito, apenas para si mesmo, inútil aonde quer que vá, prejudicial ao bem alheio, e infeliz, caso a sua vaidade não seja satisfeita por um êxito proporcional à sua ambição, ou, caso o seja, perverso, despótico, injusto. 

 

 

George Sand – Diário Íntimo

Antígona (2004)

 

 

a evitar

Evitar o choro, porque as lágrimas são delibitadoras, e ao abatimento seguem-se reacções violentas e decisões nefastas (...) a fúria é sempre alimento de mais fúria, como as lágrimas o são de mais lágrimas. 

 

 

George Sand – Diário Íntimo

Antígona (2004)

 

 

 

 

o século em que se vive

Seria preciso que estivéssemos todos toldados por uma credulidade imbecil (...) ou atulhados em vaidade como os nossos literatos modernos, para tomar assim um efeito por uma causa, e para nos deixarmos deslumbrar cegamente com o poder exercido por certos poetas sobre o século em que vivem, quando é mais natural, porém, que seja o século a exercer o seu poder sobre tais cérebros poéticos, e os force, como outrora Deus, a Pitonisa, a testemunhar, pelos gritos de dor e de cólera, o frenesi ou o desalento dos seus contemporâneos. 

 

 

George Sand – Diário Íntimo

Antígona (2004)

 

 

 

aproveita o vento

Serão processados os aborrecidos;

ostracizados os coitados;

perseguidos os crentes;

fuzilados os fracos;

odiados os feios;

perdidas as esperanças.

 

Por ordem do autor. Contra a vontade de São Epifânio. 

 

 

Golgona Anghel in Como Uma Flor de Plástico Na Montra De Um Talho (2013)

Assírio & Alvim (2017)

 

 

 

 

 

 

as editoras dos segredos

Tal fue el caso de «La Gloria de mi hermano», novela de un tal Gustave Horn, que había padecido treinta y dos rechazos. Richard Ducousset no esperó para proponerle un contrato al autor, que pensó que se trataba de una broma, ¿o quizá de una cámara oculta? No, el contrato era de verdad de la buena. 

- Pues no lo entiendo. Hace unos meses no quiso saber nada de mi libro. Recibí una carta estándar. 

- Hemos cambiado de parecer. Todo el mundo puede equivocarse... - explicó el editor. 

 

Pocas semanas más tarde, el libro salió al mercado con la siguiente faja cruzándole la cubierta:

 

" La novela que rechazaron 32 veces"

 

 (...) sobrepasó la muy respectable cifra de veinte mil ejemplares. A los lectores les había intrigado una novela que habían rechazado tantas editoriales. Esa atracción se interpretaba como un gusto por lo transgresor. Incapaz de captar lo irónica que resultaba aquella situación, Gustave Horn sintió que por fin su talento recibía la recompensa que merecía. Estaba tan convencido que no comprendió por qué la editorial rechazó el siguiente manuscrito que presentó. 

 

 

 

David Foenkinos - La biblioteca de los libros rechazados (2016)
Titulo original: Le Mystère Henri Pick
Traducción de María Teresa Gallego Urrutia y Amaya García Gallego
Penguin Random House Grupo Editorial S.A.U. (febrero, 2017)

 

uma vez mais

o fracasso é a origem do sucesso

 

Valter Hugo Mãe – Homens imprudentemente poéticos

Porto Editora (2016)

 

 

 

 Let's start over again
Why can't we start it over again
Just let us start it over again
And we'll be good
This time we'll get it, get it right
It's our last chance to forgive ourselves

 

 

pelos dias fora

passavam-lhe os azeites e trancava-se no quarto a chorar 

- A minha maior asneira foi o casamento contigo

o meu pai umas palmadinhas amigas 

- Apesar de tudo não temos sido infelizes 

e se calhar não eram ou eram mas não mais que os restantes, quem é feliz neste mundo, falta sempre algo não é, saúde, dinheiro, mas a vida continua a tropeçar mais ou menos pelos dias fora, empenada e contudo girando, o meu pai para a minha mãe

- Dá cá uma beijoca 

ela apesar de sobrazinhas de ciúme a estender a bochecha, nessa noite o crucifixo umas pancadas curtas mas pancadas mesmo assim e ambos melhor a seguir, o meu pai para a minha mãe 

- Atrevidota 

e a minha mãe corada a apontar-me o nariz e todavia no fundo contente, não muito no fundo, via-se cá de cima, eu para eles 

- Namoram outra vez 

 

 

António Lobo Antunes – Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera (2016)
Publicações D. Quixote | Leya (2016)

 

 

 

 

rechazos

El protagonista trabaja en una biblioteca que acepta todos los libros que han rechazado las editoriales. Se puede uno encontrar allí, por ejemplo, con un hombre que ha acudido a dejar un manuscrito tras haber padecido cientos de rechazos. Y de esa forma se van juntando ante los ojos del narrador libros de todo tipo. Se puede dar allí tanto con un ensayo como El cultivo de las flores a la luz de las velas en una habitación de hotel cuanto con un libro de cocina que recoge todas las recetas de los platos que aparecen en la obra de Dostoievski. Una gran ventaja de esta organización: es el autor quien elige el lugar que quiere en los estantes. Puede deambular entre las páginas de sus colegas malditos antes de localizar el sitio que le corresponde en esa forma de antiposteridad. En cambio, no se acepta ningún manuscrito que llegue por correo. Hay que ir en persona a dejar la obra que no ha querido nadie, como si esa acción simbolizara la voluntad postrera de abandonarla definitivamente. 

 

 

David Foenkinos - La biblioteca de los libros rechazados (2016)
Titulo original: Le Mystère Henri Pick
Traducción de María Teresa Gallego Urrutia y Amaya García Gallego
Penguin Random House Grupo Editorial S.A.U. (febrero, 2017)

 

 

 

 

Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,

Sê um arbusto no vale mas sê

O melhor arbusto à margem do regato.

Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.

Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva

E dá alegria a algum caminho.

 

Se não puderes ser uma estrada,

Sê apenas uma senda,

Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.

Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...

Mas sê o melhor no que quer que sejas. 

 

Pablo Neruda

 

SHINTARO OHATA

''The end of the beginning'', 2010, painting, polystyrene based sculpture