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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

dos dois, um

07.05.21

Tudo antigo, tal como uma antiga barbearia. Na casa de banho havia um pequeno urinol enfeitado com um arranjo de flores de plástico [...]

Matilde Abreu lembra-se do seu próprio encantamento:

- Para mim, era tudo novidade absoluta. Tinha quinze anos, portanto imagine-se. António teria à volta dos trinta e cinco, trinta e oito anos, e nesses tempos, não pintava a barba. Era loiro dele. Pontualmente, fazia uma descoloração e cortava o cabelo muito curto [...] Como patrão era exigentíssimo, e tinha um feitio muito especial. Um feitio difícil. Ele achava que a pessoa, olhando, tinha obrigação de, logo a seguir, saber fazer [...]

E o António era assim com as pessoas com quem tinha uma relação mais forte e mais próxima. Mas com uma pessoa tão exigente ao lado, ou se aprende bem a lição e as coisas tomam um rumo, ou então é impossível. Por isso digo, com ele ou se ama ou se odeia. Comigo foi assim.

Lições de vida. Quando a carreira musical de Variações se começou a impor, Matilde foi ficando cada vez mais responsável pelo salão. Um dia, António tentou contratar uma aprendiza para as funções que ela própria desempenhara quando começara a trabalhar com ele. Então, Matilde recordou as frases sacramentais de António: você tem de se impor, porque o mundo só tem dois tipos de pessoas, os que mandam e os que se deixam mandar. Você não quer ser do segundo, pois não? Dizia-lhe estas e outras coisas num tom seco, por vezes quase sem expressão, e continuava a trabalhar, mas Matilde guardava tudo [...]

- Ainda hoje me lembro, como se o tivesse à minha frente. O tom de voz, a expressão dos olhos, os gestos: o mundo só tem dois tipos de pessoas, os que mandam e os que se deixam mandar. Você não quer ser do segundo, pois não? 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

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regra(s) de Paracelso

15.11.19

O exercício de prever é uma espécie de loucura, exige a invenção de hipóteses, de sair do cadinho dos factos para abraçar a possibilidade. Existe aqui o evidente paradoxo de a loucura ser o oposto da temperança, mas há que usar a regra de Paracelso: a diferença entre veneno e remédio é a dose. 

 

Afonso Cruz_ O macaco bêbedo foi à ópera - Da embriaguez à civilização (2019)
Fundação Francisco Manuel dos Santos e Afonso Cruz (2019)