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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

vida, sal e água

09.09.21

Nessa noite casaram e no dia seguinte havia um banquete. O príncipe deu ordens: «Nada de sal e água ao tal rei.»

Sentaram-se à mesa e a jovem rainha estava perto do seu pai, mas este não comia. A filha disse-lhe:

«Real Majestade, porque não comeis? A comida não vos agrada?»

«Que ideia! Está muito boa.»

«Então porque não comeis?»

«Não me sinto muito bem.»

A noiva e o noivo serviram-lhe algumas garfadas de carne, mas o rei não as quis e ruminava como a cabra (acaso podia comer sem sal?).

Quando acabaram de comer começaram a contar histórias. O rei, doente como estava, contou todo o fado da sua filha.

«E vós, Real Majestade», disse a filha, «se vísseis a vossa filha, reconhecê-la-íeis?»

«Sabe Deus quando a vi pela última vez!»

Ela levantou-se e foi vestir a roupa de quando partiu do seu pai rumo à morte. «Vamos, Real Majestade, estais a ver a vossa filha? Que sou eu a vossa filha? Mandaste-me matar porque vos tinha dito que vos amava quanto o sal e a água; agora vistes o que é comer sem sal nem água.»

O pai dela não conseguiu dizer uma palavra, mas abraçou-a e pediu-lhe perdão.

Assim ficaram felizes e contentes e nós cá estamos sem cheta.

 

Francisco Vaz da Silva – Gata Borralheira e Contos Similares (2011)
Círculo de Leitores e Temas e Debates (2011)

 

Salinas Aveiro

António Neves

 

listagens [futuras] (estamos quase lá)

24.06.21

O meu avô foi tendo esperança de que o regime acabasse por entender o seu gesto humanitário. Por vezes, encontro correspondência antiga da família na qual leio frases escritas por Aristides como: «Sou otimista», «Continuo a ser otimista», «Tenho fé em Deus», etc., Mas compreendo o sentimento de revolta de que o meu pai tantas vezes deu mostras - até porque o meu pai, Geraldo, o seu sexto filho, ficou intensamente marcado pelo sofrimento causado pelo regime, não só a Aristides, como, por extensão, a si próprio. O meu pai licenciou-se em Ciências Económicas e Financeiras, mas por ser filho de Aristides, e também por, em conjunto com o meu avô e os meus tios, ter assinado as listas do MUD (Movimento de Unidade Democrática, um movimento de oposição ao regime salazarista, que chegou a apoiar a candidatura presidencial do general Norton de Matos, e que Salazar ilegalizou) - razão pela qual foram todos chamados à PIDE e passaram a integrar a chamada "lista negra" do regime - não conseguiu arranjar trabalho na sociedade civil. Era oficial miliciano, e acabou por aceitar uma comissão de serviço em Angola. Quando terminou, a única entidade a dar-lhe trabalho foi o consulado da Bélgica em Luanda, deu-lhe trabalho, mas nunca pôde fazer aquilo com que realmente sonhou. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes (2017)

 

 

ilha

11.06.21

Cheguei a um silencioso, a um suave centro. 

[...]

Estou isolado, aberto a uma vida repentina. 

[...]

Feliz, feliz, na fescura das veias, nos músculos libertos. 

 

António Ramos Rosa in TANGÊNCIA NO CENTRO - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

então (lxcat) ... 18 anos depois

09.06.21

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos pela grandeza da imensidão da alma pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes...e calma

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

 

mute

20.05.21

Silêncio do incontível, como

recusar a veemência

desta cegueira? [...]

Artérias vivas,

estrelas, relâmpagos,

jorrarão da obscuridade vermelha?

 

António Ramos Rosa in MEDIADORA DO MUTISMO - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

unfiltered and loud, proud of this skin full of scars

08.05.21

Estrias de ignorância para enunciar 

o canto material 

 

António Ramos Rosa in PRONUNCIAR A TERRA - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

(agressão)

06.03.21

É a que nunca teve sorte e tinha um grande amor que merecia a felicidade. 

 

António Ramos Rosa in  MUSAS  - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

momento que vem

22.02.21

Ela sabe que o sol vai nascer e a vida vai tornar-se natural e feliz como se de toda a eternidade este momento tivesse sido preparado. 

 

António Ramos Rosa in  MUSAS  - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

https://lyricstranslate.com/pt-br/limitason-limita%C3%A7%C3%A3o.html

 

ginásio da despreocupação

08.01.21

Eu detestava aquele tipo de agitação, o género de sexo à Los Angeles, Hollywood, Bel Air, Malibu e Laguna Beach. Estranhos quando nos encontrávamos, estranhos quando partíamos - um ginásio de corpos anónimos a masturbarem-se mutuamente. As pessoas sem moral consideravam-se muitas vezes livres, mas sobretudo eram incapazes do mínimo sentimento ou de amor. Por isso eram despreocupadas. Os mortos a foderem os mortos. Não havia nem risos nem humor nos seus jogos - era um cadáver a foder outro cadáver. 

 

Charles Bukowski – Mulheres (1978)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2003)