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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

I reprise de agosto


Cecília

07
Ago19

A adrenalina trepa o stress dos VIPs desliza

por rasgadas pistas no cobre a pique a pique a pique

lábio cigarro mão morta ao volante

(...)

Um frigo internacional avança slowly

contra a chaparia de todas as

ambições.

 

Paulo da Costa Domingos in Na EN264, A última Nau

 

Paulo da Costa Domingos - Carmina (1971 - 1994)

Antígona (1995)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

arGOLAdaS


Cecília

29
Jul19

Vai apreensivo com o destino do Lourenço (...) O homem tem cinco filhos e deve estar a esta hora a arrepelar-se para inventar com que lhes dar de comer. 

Põe-se Frei Pedro a arquitectar planos para tirar o Lourenço da encrenca e ocorre-lhe que a solução poderá passar pelo padre Sepúlveda (...) 

Santas tardes, senhor abade. E vá de lhe trinar a miséria do Lourenço, da mulher e dos cinco filhos, com acordes trágicos e tons patrióticos. Pois, que se há-de fazer... É a vida - conforma-se o cura. Frei Pedro simula espanto e indigna-se, que não se pode cruzar os braços e deixar à fome o mártir do despotismo jacobino! E, na embalagem, avança a sugestão. E se, este ano, o senhor padre Sepúlveda abdicasse do abadágio e, em seu lugar, se procedesse à recolha dos géneros pelas famílias, para acudir ao Lourenço, até se achar remédio mais duradouro? O cura empalidece, e estaca junto aos rebentos das tronchudas, fulminado. Ó Frei Pedro, o abadágio é uma tradição secular! Então quer que eu dê esse desgosto aos meus paroquianos?! Frei Pedro põe os olhos em alvo. Só este ano... O abade retoma o passeio, a fugir àquele raio que siderou o seu sossego, àquele apelo que o mói. Bom, bom, bom... Deixe lá isso comigo - diz, iluminado pela disposição de esfolar a paróquia. - Cá me arranjarei para que haja peditório para o Lourenço. E abadágio. 

 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

gémeas antoninas


Cecília

13
Jun19

Se não fosse demasiado crescida para essas coisas (...)

- Nunca somos demasiado crescidas para isso, minha querida, porque é algo que estamos sempre a fazer, de uma forma ou de outra. Os nossos fardos estão aqui, neste mundo, o caminho estende-se à nossa frente, e desejar a bondade e a felicidade é o que nos ajuda a ultrapassar as dificuldades e os erros até atingirmos a paz

 

Louisa May Alcott – Mulherzinhas (1868)
Oficina do Livro (2011)

 

13.06.2017

Parabéns D. e L.

Minhas meninas-furacão-de-açúcar.

 

dad


Cecília

19
Mar19

Your Very Own Guardian Angel


The loss of a father
Is a heavy burden to bear.
He's a source of quiet strength
That is so missed when he's not there.

Take comfort he's in Heaven,
And looking down at you.
He'll be there through the coming years,
Watching over and guiding you.

He's your very own guardian angel,
And he'll be with you to the end,
When you meet again in Heaven,
And your broken heart will finally mend.

in https://dying.lovetoknow.com/Poem_in_Memory_of_a_Dad

 

 

(obrigada B. pelo privilégio de me ter tornado mãe contigo. pela honra de ser mãe das tuas filhas. direi sempre às nossas meninas que são filhas de um homem bom. o melhor homem que conheci até hoje. para sempre , eu e tu, - pai e mãe - pais em planos espirituais diferentes.

Amor, Luz, Paz)

os 12 mandamentos ciganos


Cecília

26
Fev19

1º  Amar a Deus acima de tudo e respeitar todos os Santos;

 2º  Respeitar a Semana Santa;

3º Respeitar todas as Religiões e credos que elevam o nome de Deus – Nosso Pai;

  4º Ajudar-se mutuamente;

  5º Amar e não desmerecer nenhuma criança;

  6º Respeitar os idosos e não desprezar a sua sabedoria;

  7º Não mostrar o corpo;

  8º Não se prostituir;

  9º Manter a fidelidade entre os casais;

10º Não se envergonhar de sua origem;

11º Não deixar de praticar o dom da adivinhação;

12º Não trair seu povo.

 

 

 

 

rotina da magia


Cecília

21
Jan19

É que os clientes quando chegavam do trabalho cansados, desmotivados, prontos para enfiar um tiro nos cornos, sempre passavam por ali - e em vez de chacinarem a família, levantavam o último herói psicopata e com ele arrasavam exércitos de maus em menos de duas horas. O que era o tempo perfeito para voltarem para a cama e dormirem aquelas seis, sete horinhas que os ia deixar fresquinhos para mais um dia de labuta nos cubículos de Lisboa e arredores. 

 

Ricardo Adolfo, Mizé - Antes galdéria do que normal e remediada

Alfaguara (2011)

 

 

mas as mães


Cecília

07
Jan19

A chegada de um pequeno destacamento de SS alemães deveria ter levantado dúvidas até mesmo nos optimistas; todavia, conseguimos interpretar de diferentes formas esta novidade, sem tirar a mais óbvia das consequências (...) O comissário italiano, portanto, deu ordem para que todos os serviços continuassem a funcionar até ao anúncio definitivo; a cozinha continuou, pois, em actividade, os faxinas da limpeza trabalharam como de costume, e até os professores da pequena escola deram aulas à tarde, como todos os dias. Mas as crianças naquela tarde não tiveram trabalhos para casa.

Caiu a noite, uma noite tal que se percebeu que olhos humanos não a poderiam presenciar e sobreviver. Todos o sentiram: nenhum dos guardas, nem italianos nem alemães, teve a coragem de ir ver o que é que faziam os homens quando sabiam que iam morrer. 

Cada um despediu-se da vida da forma que lhe era mais própria. Alguns rezaram, ouros beberam além do normal, outros inebriaram-se com a última nefanda paixão. Mas as mães ficaram acordadas para preparar com amoroso cuidado a comida para a viagem, e lavaram os filhos, e fizeram as malas, e de madrugada os arames farpados estavam cheios de roupas de crianças estendidas a secar ao vento; e não se esqueceram das fraldas, dos brinquedos, das almofadas e das cem pequenas coisas que elas bem conhecem, e das quais os filhos sempre precisam. Não fariam também o mesmo? Se amanhã esperassem ser mortos com o vosso filho, não lhe davam hoje de comer? 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

debaixo das árvores


Cecília

24
Ago18

Os meus avós, os meus pais, a minha mulher, eu e os meus filhos comemos debaixo de uma plátano gigante, brincámos debaixo de um plátano gigante, rimos debaixo de um plátano gigante... Se nos cair um tronco em cima, se nos matar a todos, é melhor do que a puta de um cancro. Foram gerações inteiras a usufruir da felicidade de estar debaixo de uma árvore. Sabes o que isso quer dizer? Que vivíamos, que gostávamos do que fazíamos, que sangrávamos dos tomates e das costas e dos ossos, que chorávamos e ríamos sem precisar de uma telenovela ou de um comediante na televisão. Era assim que vivíamos. Debaixo das árvores. 

 

Afonso Cruz - Jesus Cristo Bebia Cerveja (2012)

Penguin Random House (2016)