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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

sentido de desobediência

16.06.21

É difícil imaginar o estado de espírito de Aristides quando se apercebeu de que não conseguiria salvar todos os refugiados que por ele esperavam. A imagem do cônsul português a passar freneticamente vistos na rua em Bayonne, ou a acelerar rumo à fronteira para abrir ele próprio a cancela antes que lá chegasse a ordem que dava os seus vistos como nulos, foi aproveitada pelos instigadores do seu processo disciplinar para sugerir "ato de loucura" de um "homem perturbado por trágicas circunstâncias". Mas nós, a sua família, sabemos que era compaixão e o sentido de justiça que o moviam, e a vontade de "desobedecer até ao fim" para conseguir salvar o máximo de vidas possível. Mesmo que isso lhe custasse o resto da carreira.

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

entradas

14.06.21

Tinham de os deixar entrar porque, como era óbvio, os espanhóis não os aceitavam de volta - com o argumento de que os refugiados apenas tinham autorização para atravessar Espanha em trânsito para Portugal, como o capitão Agostinho Lourenço, chefe da PVDE, esclareceu por escrito no âmbito do processo contra Aristides de Sousa Mendes. Inúmeros testemunhos de escritores ou de simples viajantes dão conta de como a entrada em Portugal - este "paraíso triste", como lhe chamou Antoine de Saint-Exupéry - em fins de junho, princípios de julho daquele ano, constituía uma experiência digna de filme de horror. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

 

espaços do tempo

31.03.21

 

e uns caem separados na distância

 

 

António Ramos Rosa in  O INCERTO EXACTO  - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

 

máscaras que funcionam

26.01.21

A outra má experiência, que ainda hoje recorda, foi com outra instituição de Pedrógão Grande. Sílvia ligou, a directora respondeu-lhe que tinha os armazéns cheios. Sílvia diz que insistiu. «O que temos para levar não são bens usados, é artigo novo, embalado; jogos de lençóis, atoalhados, edredões, toalhas de mesa, panos de cozinha, tudo de que uma casa precisa. E oitenta pares de calçado novo, em caixa.» Do outro lado fez-se um curto silêncio, antes da resposta que a promotora do grupo Esposende com Pedrógão no Coração reproduz: «Ela diz-me: " Vamos fazer assim, faça uma triagem. O que estiver usado ponha numas carrinhas à parte e, se não se importar, entrega nos bombeiros de Castanheira de Pêra, que estão a recolher esse tipo de artigo. O que for novo põe noutra carrinha, e quando vier a caminho dá-me um toque para o meu telemóvel particular, que lhe vou dar, e um assistente meu estará à vossa espera para recolher esses bens." 

 

Patrícia Carvalho – Ainda aqui estou (2018)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Patrícia Carvalho (2018)

 

 

...

16.12.20

As palavras têm rosto: ou de silêncio ou de sangue. 

 

António Ramos Rosa in  CICLO DO CAVALO  - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

El ciervo herido (1946)

Frida Kahlo

ensurdecer com vírus

13.03.20

porque se pode murmurar para uma pessoa enquanto se ensurdece outra e tudo vibra, ao mesmo tempo em silêncio e explodindo 

 

António Lobo Antunes – A Última Porta Antes da Noite (2018)

Publicações Dom Quixote (2018)

 

 

 

 

se

10.03.19

a confusão decadente com que agora tentam cumprir as ordens cada vez mais insensatas do Imperador, enquanto cavalga para a retaguarda com um pequeno destacamento de cavaleiros, no caminho de Mação, à cata dos retardatários que se arrastam Debaixo de chuva, fazendo das espingardas bordões ou amontoados à matroca em carros de bois roubados nas quintas, de pés estrapados em farrapos sujos, entregues à exaustão e à fome. Se o rasto caótico daquela marcha tivesse acontecido em Espanha, poucos sobrariam para contar os padecimentos e teriam acabado na ponta das impiedosas facas toledanas. Aqui, o que quase os derrota é a aspereza das sendas, a pobreza dos povos, a chuva e a lama onde se atascam as batarias de artilharia e onde os infantes perdem as botas e o moral. Se, na caminhada para Lisboa, lhes aparecesse um exército minimamente preparado teriam conhecido um vexame ou um massacre, ou ambas as coisas. 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)