Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

notas de todas as línguas

Eu, por vezes, sinto-me vazio. A minha ciência é desprezada. O conhecimento não interessa para nada. Os conhecimentos é que são importantes. Isto é um país de amigos onde, curiosamente, todos são meus inimigos. Ninguém se digna a perder tempo a ler o que ponho no mundo com toda esta sabedoria que me caracteriza. A sociedade é feita de dinheiro. A carne dela são cotações, cheques, cartões de crédito. Vende-se o que dá dinheiro. O que importa não importa. É o fim dos tempos, o homem volta a ser um macaco. Volta a olhar o porco, cara a cara, e a sentir que se olha ao espelho. É isso o homem. Uma espécie de suíno que, momentaneamente, esqueceu a sua condição orwelliana. Somos todos uns porcos que chafurdam na banca e na economia. A vida não passa de um gráfico de barras, umas estatísticas, probabilidades, projecções. E neste mundo somos todos escravos de notas de todas as línguas. 

 

 

Afonso Cruz - Jesus Cristo Bebia Cerveja (2012)

Penguin Random House (2016)

 

 

 

 

passatempo entre guerras

Curioso é constatar que, após o homem ter inventado as primeiras armas logo se iniciaram as conversações para reduzir os armamentos, o que durante milhares de anos, devia ser o passatempo preferido nos intervalos das guerras. 

 

 

Vilhena – História Universal da Pulhice Humana (1960/1961/1965)
Edição Completa, Integral e Nunca Censurada dos Três Volumes Originais Pré-História / O Egipto / Os Judeus

Herdeiros de José Vilhena / SPA 2015, E-Primatur (2016)

 

 

 

 

fado ferrari

Não tendo ainda descoberto a América e não podendo portanto receber auxílio do Plano Marshal, a extremidade ibérica deste nosso mundo ocidental atravessava então momentos difíceis. Sem indústria pesada, sem divisas da área do dólar, a contas com a inflação e com o maior cardume de tubarões de que reza a história, a sua economia não se mostrava à altura das circunstâncias. Os metálicos filões que haviam dado o nome às Idades do Cobre, do Bronze e do Ferro, tinham desaparecido uns atrás dos outros; e nem a agricultura nem o turismo, nem as comemorações dos centenários desses mesmos filões, despertavam o interesse dos indígenas (...) Nem tudo porém era mau, como estas linhas podem fazer crer. Graças a uma política firme e inteligente, que durou longos anos, foi possível equilibrar a subida dos custos com uma substancial descida do nível de vida e, desta forma, salvaguardar a cultura e a civilização do Ocidente. 

O resto do Mundo encontrava-se em pleno estado selvagem e não merece que se perca tempo a descrevê-lo. Teria, aliás, de esperar muitos séculos até que, por mares nunca dantes navegados, levássemos até ele, graças ao nosso espírito desinteressadamente civilizador, os missionários, o fado e o hóquei em patins. 

 

 

Vilhena – História Universal da Pulhice Humana (1960/1961/1965)
Edição Completa, Integral e Nunca Censurada dos Três Volumes Originais Pré-História / O Egipto / Os Judeus

Herdeiros de José Vilhena / SPA 2015, E-Primatur (2016)

 

 

 

entrumpados? hilariante!

a) o mundo não acaba lapidado pelas pedradas atiradas contra o politicamente correto, bem pelo contrário - há mais vida e autenticidade no improviso. se calhar, é preciso muito mais disto: broncos que mostram o que querem e ao que vêm, em vez de lobos disfarçados de cordeiros  ( preocupados com os mexicanos que poderão ser expulsos ou que nem poderão entrar porque um muro se levantará? então e os refugiados não acolhidos por uma europa inteira? o trabalho sujo encomendado à Turquia e pago com o dinheiro do bom europeu? a europa afunda-se na sua própria hipocrisia e melindra-se tanto com o que se passa do outro lado do atlântico! mas não nos esqueçamos que os pais fundadores fugiram da porcaria que por cá se fazia - por muito mau que se queira pintar o tio Sam, o irmão europeu é sempre trinta vezes mais carafunchoso e manhoso).

 

 

b) se há coisa que o voto faz é mostrar como as coisas estão e o estado a que se deixaram chegar. 

 

c) como portuguesa e europeia incomoda-me mais o presidente Juncker.

 

 

 

Muda-se de moleiro, não se muda de ladrão.

 

Provérbio Português

 

 

 

 

 

 

 

 

supercouraçados

" - E s'a guerra continuar?

- Então emitimos votos onde, sem deixar de dar razão ao mais fraco, não negamos a razão do mais forte. E pedimos aos dois países em guerra que declarem solenemente que não fazem guerra um ao outro, mas que procedam a operações de ordem para regulação do conflito. É mais pacífico. Em geral, as operações militares sempre acabam por acabar. Admitimos então que a parte mais forte proceda a uma determinada tomada de território que lhe agrade, desde que não se pronuncie a palavra anexação. No referente à Etiópia fomos terríveis de início e não receámos protestar contra a atitude da Itália. Mas depois de termos desse modo provado o nosso apego ao ideal de justiça, tivemos mesmo que encarar a realidade de frente. É que, digam o que disserem os foliculários com falta de assunto, nós não somos utopistas. Por isso nos contentámos com dar aos Estados membros a liberdade de reconhecer ou não esta conquista. Bela táctica, não acham? Com efeito, as conveniências são respeitadas. Primo, a Sociedade das Nações permanece fiel ao seu ideal, visto que não reconhece, ao menos por agora, a conquista da Etiópia. Secundo, os Estados membros não infringem os seus deveres para com a Sociedade das Nações, uma vez que esta autoriza a reconhecer a conquista da Etiópia, se assim quiserem. Temos, como vêem, uma grande preocupação com a liberdade de pensamento e com a soberania dos Estados membros da Sociedade das Nações ainda não vencidos. Cada um dos Estados que faça o que quiser. Nos daí lavamos as nossas mãos. No fim de contas, o nosso papel é emitir votos prudentes, é votar resoluções hábeis que não desgostem ninguém. A nossa tarefa resume-se a isto: ser anódinos! Cumpriremos essa tarefa com um vigor cada vez maior. (Confidencial:) De resto, aquele négus é bastante antipático. Parece que nao está nada doente, que tudo aquilo é uma comédia. E, além disso, tenho ouvido dizer que vive com dificuldades. É claro que tudo aquilo é muito triste. Mas que se há-de fazer? O que a Etiópia tinha a fazer era servir-se de gases asfixiantes, e a verdade é que não temos culpa de ela ter um exército deplorável, não receio dizê-lo, deplorável. (Deu uma palmada na mesa.) Eis, num breve resumo, senhor ministro, a actividade da Sociedade das Nações. Mas não é tudo. Tenho dois grandes projectos que de certo modo são a carne da minha carne, filhos do meu pensamento e do meu coração, que concebi no silêncio e na meditação. Eis o primeiro projecto, que lhes conto confidencialmente. Se Sir John Cheyne estiver de acordo, pediremos aos grandes países que chamem Humanidade, Concórdia, Paz Internacional e assim por diante a todos os supercouraçados actualmente em construção. O meu segundo projecto consiste em suprimir os soldados e os canhões nas lojas de brinquedos. Desarmemos as crianças! Do ponto de vista moral, as crianças são mais importantes que os pais. O futuro! " 

 

 

Albert Cohen  – Trincapregos (1938)

Tradução de Pedro Tamen 

 

Contexto Editora, Lda., para Círculo de Leitores (outubro,1999)

 

 

 

TRINCAPREGOS

também chamado Dentolas e Olho de Satanás

e Lord High Life e Sultão dos Tossegosos

e Crânio-em-Sela e Pés Pretos

e Chapéu Alto e Bei dos Mentirosos

e Palavra de Honra e Quase Advogado

e Complicador de Processos e Médico de Clisteres

e Alma do Juro e Poço de Astúcia

e Devorador de Patrimónios e Barba de Forquilha

e Pai da Imundície e Capitão dos Ventos