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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

1 ESQ

09.06.21

e da figura frágil que eu amo, o seu espaço

que ignoro, o seu quarto intacto, o seu odor de rapariga.

[...]

Eu desejo as palavras das suas fibras, a saliva da sua língua. 

Desejaria habitar o seu caminho, bater à sua porta. 

 

António Ramos Rosa in FALO DE UM DESIQUILÍBRIO - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

os mal fodidos da Transilvania

25.05.21

O que eu estou a tentar dizer é que há um certo tipo de jogos que se fazem nos escritórios, por essa América fora. As pessoas estão aborrecidas, não sabem o que fazer e então brincam ao romance-de-escritório. Na maior parte dos casos é mesmo só para passar o tempo. Às vezes, ainda conseguem dar uma ou duas quecas por fora. Mas, mesmo assim, é só um passatempo para distrair, como o bowling, a televisão ou uma festa de passagem de ano. Se perceberes que não tem qualquer significado, não vais sair magoada. Percebes o que te estou a dizer? 

 

Charles Bukowski – Correios (1971)

Antígona (2015)

 

 

apostar na equipa certa

02.04.20

Mas em 1983 e em 1984, as autoridades responsáveis pela saúde dos portugueses não estavam informadas, logo, não sabiam como encarar o problema. Portanto, desmentem-no. A sida não existe. A exstir, é noutros países. Não há pragas nem epidemias. O director do Instituto Nacional do Sangue multiplica-se em entrevistas e vai à televisão desmentir a gravidade da situação e pedir às pessoas para não se preocuparem porque Portugal era um país de bons costumes. Só uma mulher, investigadora, estava atenta, e, pior do que isso, preocupadíssima. Odete Santos tinha ouvido falar da doença em 1983, num congresso em Lausanne, na Suíça, para onde foi a convite da maior especialista mundial em infeções hospitalares, que lhe diz: «Se for o que a gente pensa, vai ser uma desgraça!» Odete Santos, que trabalhava com o Instituto Pasteur, em Paris, pediu para ser apresentada ao professor Montagnier, o virologista francês que isolara o vírus... e contra tudo e contra todos iniciou uma batalha pelo conhecimento da doença, em Portugal... Numa enorme solidão, como ela própria admite, a cientista foi discriminada. As pessoas chegavam a mudar de passeio para não lhe falarem... Mas em 1985, com uma equipa diminuta na Faculdade de Farmácia, Odete Santos entra para a História da Medicina ao isolar o VIH-2... (...) A partir daí, a sida, em Portugal, não apenas existe como tem direito a bilhete de identidade. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)