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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

engolir para fora

24.08.20

Certa vez, o avô Jorge cortou a ponta do dedo com a tesoura da poda. Nesse caso, o grito foi curto e grave. Como se o som quisesse sair e ele o metesse para dentro. Lutava não apenas com o sangue que jorrava como de uma mangueira, mas com o próprio grito. E logo de seguida, com um lenço apertado no dedo, o avô conseguiu dominá-lo. Tinha sido uma questão de segundos. Um desleixo. Uma coisa a não repetir.

[...]

Aquele grito existiu, não era possível voltar atrás, mas foi remetido para a escuridão no mesmo momento em que foi produzido. A escuridão das coisas de que não é permitido falar. As coisas íntimas. As coisas que se querem só para nós. 

Os gritos da mãe eram outra coisa. Eram gritos virados para fora. Queriam dizer que existiam. Viajar para longe. Perdurar no tempo e na distância. Era como se fizessem questão de permanecer dentro dela e ela os quisesse expulsar. Como se, de boca aberta, procurasse projectar o som o mais longe que podia. 

E a isto, percebi depois, as pessoas chamavam desabafar.

- Deita tudo cá para fora - ouvi o resto do dia. 

Isso queria dizer que o avô tinha procurado abafar a sua dor, comê-la. Por outro lado, a mãe fazia todos os possíveis para desabafar a sua dor, vomitá-la. Isto era compreensível. À partida, só conseguíamos manter uma dor dentro de nós se ela lá coubesse. E tendo em conta o que ouvi durante esses dias, era natural que a dor da mãe fosse muito maior do que a do avô.

Uma dor maior. Sem comparação possível. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

 

 

escritores

08.03.18

Como si el reconocimiento consistiera en que lo comprendieran a uno. Nadie entiende nunca a nadie, y desde luego nadie entiende a los escritores. Van errabundos por reinos de emociones cojas y, la mayoría de las veces, no se entienden a sí mismos. 

 

 

David Foenkinos - La biblioteca de los libros rechazados (2016)
Titulo original: Le Mystère Henri Pick
Traducción de María Teresa Gallego Urrutia y Amaya García Gallego
Penguin Random House Grupo Editorial S.A.U. (febrero, 2017)

 

 

Amish Letter Writer

Horace Pippin

 

How Is Your Heart?

11.01.17

during my worst times
on the park benches
in the jails
or living with
whores
I always had this certain
contentment-
I wouldn't call it
happiness-
it was more of an inner
balance
that settled for
whatever was occuring
and it helped in the
factories
and when relationships
went wrong
with the
girls.
it helped
through the
wars and the
hangovers
the backalley fights
the
hospitals.
to awaken in a cheap room
in a strange city and
pull up the shade-
this was the craziest kind of
contentment

and to walk across the floor
to an old dresser with a
cracked mirror-
see myself, ugly,
grinning at it all.
what matters most is
how well you
walk through the
fire.

 

Charles Bukowski - Ham on Rye: A Novel

 

 

It's hard to find the balance, when you are in love.
You're lost in the middle, cause you have to decide,
between mind and heart...

Between mind and heart...

Heart is the engine of your body.
But brain is the engine of your life.

Between mind and heart...

Heart is the engine of your body.
But brain is the engine of your life.

Between mind and heart.
Between mind and heart.

Between mind and heart.

 

Enigma - Between Mind and Heart

(The Screen Behind the Mirror - 2000)