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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

engarrafados

20.05.21

Bordéus, que em tempos de paz tinha cerca de 200 mil habitantes, até 15 de junho iria contar com mais de um milhão de habitantes. Como acolhê-los, onde se refugiariam eles?

Em 1940, as pessoas não tinham máquinas fotográficas como hoje. Se não há registos de imagem suficientes desses dias negros, há, no entanto, uma gravura que ilustra melhor que tudo o que foi a entrada em Bordéus, em meados de junho de 1940, pela Pont de Pierre. Essa visão catastrófica ficou, sem dúvida, gravada nas mentes de Aristides e Angelina, tal como ficou gravada na mente do pintor e gravador Charles Philippe, o artista que a celebrizou dois anos mais tarde numa gravura que faz parte dos Arquivos Municipais de Bordéus [...] e das janelas do consulado de Portugal viam-se facilmente os autocarros, as ambulâncias, as centenas de automóveis particulares e os milhares de pessoas "engarrafados" nesta entrada de Bordéus, à mercê de um eventual ataque aéreo. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes (2017)

 

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L’exode juin 1940

Charles Philippe

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https://laultimahora.es/la-avalancha-de-odio-contra-la-voluntaria-que-consolo-a-un-migrante-en-ceuta-provoca-que-cierre-sus-redes-sociales/

 

 

bodes, segredos e planos

17.05.21

Hoje, estes documentos são conhecidos e incontornáveis em qualquer trabalho sobre Aristides de Sousa Mendes, tal como o testemunho do rabino Kruger e vários outros, que confirmam a bondade do gesto do meu avô em Bordéus. Para mim, é díficil entender como é que um doutoramento da Universidade de Coimbra, em 2013, ignora totalmente tais testemunhos, e até sugere que o processo contra Aristides, em 1940, foi uma «mentira arranjada pelo regime de Salazar para desviar de si as atenções e proteger um certo secret d'état». Aristides de Sousa Mendes - o mau funcionário, dizem "eles" - serve apenas de bode expiatório para esconder algo de muito superior que estaria a ser projetado por Salazar e pelos seus próximos (a tese de que Salazar, no fundo, era um "humanitário escondido"). Ao que parece, o meu avô ter-lhes-á estragado os planos... 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

look for the woman

17.05.21

Uma senhora inglesa, ao ouvir contar tantas coisas sobre o cônsul e o consulado de Portugal, dirigiu-se para lá, esperando obter um visto super-rápido, talvez por ser inglesa... De facto, não foi o que aconteceu, e quando chegou à fala com o cônsul, até sugeriu, de modo altivo, que se fosse uma questão de dinheiro, poderia dar algum. Aristides respondeu que ali, naquele momento, o dinheiro não servia para nada, mas se ela quisesse desembolsar algum, então que contribuísse para um qualquer fundo de caridade. A senhora não gostou da resposta, e imediatamente enviou uma queixa para o ministério britânico dos Negócios Estrangeiros, dizendo que o cônsul de Portugal em Bordéus protelava até altas horas o serviço de vistos e que cobrava fundos sabe-se lá para quê e para quem! Este episódio aparecerá nos autos do processo disciplinar instaurado por Salazar, algumas semanas depois. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

Concealed (2019)

Alex Frew

 

conexões sem rede

10.05.21

Sou um rapaz com um fato de flanela cinzenta. Ela encontrou-me. Toca-me na nuca. Beija-me. Tudo se desmorona [...] Qual a coisa que faz mexer o meu coração, as minhas pernas? Foi então que aqui cheguei e te vi, verde como um arbusto, como um ramo, muito quieto, Louis, com os olhos vítreos. «Estará morto?», pensei, e beijei-te. Por baixo do vestido cor-de-rosa, o meu coração saltava, semelhante às folhas, que, e muito embora nada exista que as faça mexer, não param de oscilar. Agora, chega-me ao nariz o odor a gerânios; chega-me ao nariz o odor a terra vegetal. Danço. Ondulo. Deixo-me cair sobre ti como uma rede de luz. Deixo-me ficar deitada em cima de ti, a tremer. 

 

Virginia Woolf – As Ondas (1931)

Colecção Mil Folhas / Bibliotex SL / M.E.D.I.A.S.A.T. e Promoway Portugal Ltda (2002)

 

 

ego sum luto

05.05.21

 

Estrela, sim, estrela de argila

em núpcias consigo e com o mundo. 

 

António Ramos Rosa in MEDIADORA DO CORPO - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

em 1989, em 1992, em ...,

04.06.20

Em 1989, o quarteirão enfaixado entre a Avenida de Fernão de Magalhães, a Rua Abraços e a Rua da Póvoa abrigava umas quantas pessoas escondidas em prédios do século XIX. Sobreviviam nas cozinhas, nos quartos, nas salas, onde quer que os prédios dessem calor (...)

Nesse Inverno, os buldózeres executaram a ordem de despejo. Os que lá tinham ficado foram acordados pelos operadores que berravam «Fujam, a máquina é cega!». Deram com as paredes destruídas, as camas esmagadas, as molduras das fotografias partidas, conformaram-se e seguiram pelas ruas, uns de roupão, outros de casaco vestido à pressa. Em três dias ninguém se lembrava deles.

O empreiteiro queria construir em tempo recorde por medo de que a Câmara inventasse novas burocracias (...) Depois chegaram as retroescavadoras, que entregaram pazadas de entulho aos reboques dos camiões. E assim cavaram fundações com quinze metros de profundidade protegidas por taipais com placas que avisavam para o óbvio: perigo (...)

Era evidente que a Fernão de Magalhães não merecia o hipermercado pensado para aquele espaço. Veja-se os prédios em volta. Tudo feio, menos os azulejos antigos e o Vila Galé, a torre mais alta da cidade. Dito isto, cuspiam para o chão, concluíam «A vida é assim, o nosso Porto não aprende» (...)

As gruas ainda levantaram um torreão de cinco andares na fachada que dava para a avenida. E então soube-se. Em 1992, as obras pararam por imbróglio jurídico, excesso burocrático, corrupção ou falta de dinheiro, enfim, um dos cenários a que estamos habituados. 

 

Afonso Reis Cabral – Pão de Açúcar
Publicações Dom Quixote (2018)

 

tanto como antes

21.05.20

Certo dia perguntei ao senhor Xavier porque lhe chamou Piccolo e ele respondeu que gostava muito do Pinóquio, «Piccolo como tu», e eu fiquei a perceber tanto como antes. 

 

Afonso Reis Cabral – Pão de Açúcar
Publicações Dom Quixote (2018)

 

 

pinturas e adornos

03.12.19

Vivemos uma era de enganos, de perucas, pinturas e adornos, em que tudo o que a natureza foi pródiga a oferecer à humanidade não passa senão de uma tela base que precisa de melhoramentos. A maioria de nós esconde-se por detrás de um rosto pintado, sendo muito poucos os que se deixam ver como realmente são. 

 

Wray Delaney - Memórias de Uma Cortesã  (2016)

Quinta Essência, Oficina do Livro (2017)

 

 

delicadezas de estilo

28.10.19

 

O mais delicado champanhe não passa do desperdício de uma festa, daquilo que as leveduras decidiram cagar depois de se empanturrarem do açúcar das uvas. 

 

 

Afonso Cruz_ O macaco bêbedo foi à ópera - Da embriaguez à civilização (2019)
Fundação Francisco Manuel dos Santos e Afonso Cruz (2019)

 

 

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Champagne at the Hotel Room

Marc Ferrero