Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

loucura sadia

09.10.20

[..] O procedimento do Sr. Aristides de S. Mendes implicara tal desvairamento que ao comunicar logo em seguida às autoridades espanholas a decisão de dar por nulos os vistos concedidos pelo consulado em Bordéus a numerosíssimas pessoas que ainda se encontravam em França, não tive dúvida em declarar que era minha convicção que o referido cônsul havia perdido o uso da razão. A bem da nação.»

Neste aceso encontro entre Teotónio Pereira e Aristides houve troca de palavras desagradáveis. A determinada altura, Teotónio Pereira declara que Aristides deve ter enlouquecido, ao que este lhe responde: «Mas será preciso ser-se louco para fazer o que está certo?» 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

engolir para fora

24.08.20

Certa vez, o avô Jorge cortou a ponta do dedo com a tesoura da poda. Nesse caso, o grito foi curto e grave. Como se o som quisesse sair e ele o metesse para dentro. Lutava não apenas com o sangue que jorrava como de uma mangueira, mas com o próprio grito. E logo de seguida, com um lenço apertado no dedo, o avô conseguiu dominá-lo. Tinha sido uma questão de segundos. Um desleixo. Uma coisa a não repetir.

[...]

Aquele grito existiu, não era possível voltar atrás, mas foi remetido para a escuridão no mesmo momento em que foi produzido. A escuridão das coisas de que não é permitido falar. As coisas íntimas. As coisas que se querem só para nós. 

Os gritos da mãe eram outra coisa. Eram gritos virados para fora. Queriam dizer que existiam. Viajar para longe. Perdurar no tempo e na distância. Era como se fizessem questão de permanecer dentro dela e ela os quisesse expulsar. Como se, de boca aberta, procurasse projectar o som o mais longe que podia. 

E a isto, percebi depois, as pessoas chamavam desabafar.

- Deita tudo cá para fora - ouvi o resto do dia. 

Isso queria dizer que o avô tinha procurado abafar a sua dor, comê-la. Por outro lado, a mãe fazia todos os possíveis para desabafar a sua dor, vomitá-la. Isto era compreensível. À partida, só conseguíamos manter uma dor dentro de nós se ela lá coubesse. E tendo em conta o que ouvi durante esses dias, era natural que a dor da mãe fosse muito maior do que a do avô.

Uma dor maior. Sem comparação possível. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

 

 

living poem

05.06.20

(...)

porque queres viver

o sol que desejas 

(...)

é ele que te conduz

a si mesmo

*

Espero que ele me invente

onde e aqui eu estou

de novo a respirar

a folha imaginada

(...)

Esta aventura vale?

Não podes desistir

dizer que nada vale

se o nada mesmo enfrentas

 

António Ramos Rosa in O NASCIMENTO DO POEMA - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

dínamo

10.10.19

Sinto profusamente aquilo que se furta

às palavras mas não ao entendimento.

Sinto as fases do teu corpo

como um dínamo de luz a atravessar

o meu peito. 

 

Paulo da Costa Domingos in CAMPO DE TÍLIAS

 

 

Paulo da Costa Domingos – Carmina (1971-1994)
Antígona (1995)

 

 

 

dar as ventas

14.09.19

porque a energia é finita

a selva irrevogável

a faca, o coração, cegos

(...)

E das fúrias, pela redonda abertura, saímos a revisitar

estrelas e o veneno,

inalando um pó, dar as ventas à Medusa. 

 

 

Paulo da Costa Domingos in ARA

 

Paulo da Costa Domingos – Carmina (1971-1994)
Antígona (1995)

 

 

L'alma dell'alma mia

04.07.19

o único meio de sacudir tragédias e enfrentar desgraças é encará-las de frente e de coração ao alto. E, virando-se para o defunto no retrato, arranca a confirmação: Sabes bem, ó Sarmento, que sempre fui mulher de honra e de coragem! Se Deus te tragou nas ondas do mar, foi porque achou ser eu capaz de governar-me sozinha! 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)