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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

libertações

15.09.21

Pode ainda observar-se que a misteriosa doença do príncipe que se cura mal se inicia o regime de comensalidade com a princesa configura a melancolia de quem, enredado numa situação de confinamento familiar, espera a libertação matrimonial. Esta deve provir de uma noiva externa e não daquela que, criada em casa, representa a própria rainha-mãe (que a escolheu). Em suma, o príncipe doente espera a noiva que o liberte do domínio de uma mãe possessiva. 

 

Francisco Vaz da Silva – Gata Borralheira e Contos Similares (2011)
Círculo de Leitores e Temas e Debates (2011)

 

 

a desconfiança da ingratidão

23.06.21

Guardian article: The 30-year quest for a malaria vaccine


Dr Joe Cohen recalls his experiences of being part of the team that has worked for almost three decades to develop what could be the world’s first vaccine against malaria

[...]

No vaccine exists against malaria. Finding a vaccine is challenging because the plasmodium falciparum parasite, which causes the deadliest form of malaria in humans, is capable of adapting to the human host and escaping its immune responses. But 30 years after research began, the team I worked with is closer than ever to developing a vaccine that could help protect young children in Africa from malaria. Now I am retired, I feel fortunate to have been associated with this work.

[...]

During one of these studies, the reality of the human burden of malaria became even more obvious. In the late 1990s, I visited The Gambia as we were preparing to test RTS,S in people in Africa for the first time. In the children’s ward of the local hospital, the 20 or so beds were each often occupied by two or three tiny children – most of them seriously ill with malaria. Their mothers sat beside them, clearly despondent and almost resigned: many told us they had already lost a child to this dreadful disease. The visit starkly illustrated what malaria meant for the local population and gave even more meaning and urgency to our work.

The Gambia study, conducted in 1999, demonstrated that the vaccine was effective in African adult volunteers and in 2004 our collaborators in Mozambique demonstrated the efficacy of the vaccine candidate in African children. These and other studies paved the way for the start of our final-stage study, Phase 3, in 2009 – a crucial step towards the registration of the vaccine candidate. To get this far would have been a dream only 10 or 15 years ago. We couldn’t grasp that it would actually happen. That was a tremendously big moment for all of us.

https://www.gsk.com/en-gb/responsibility/improving-health-globally/using-our-science-for-global-health/guardian-article-the-30-year-quest-for-a-malaria-vaccine/

 

 

quaquaraquaquá

21.06.21

he kept thinking of his wife, Betsy, and he wanted to howl. He understood only this: that he deserved all of it. He deserved the fact that right now he wore a pad in his underwear because of prostate surgery, he deserved it; he deserved his daughter not wanting to speak to him because for years he had not wanted to speak to her - she was gay; she was a gay woman, and this still made a small wave of uneasiness move through him. Betsy, though, did not deserve to be dead. He deserved to be dead, but Betsy did not deserve that status [...] 

When his wife was dying, she was the one who was furious. She said, "I hate you." And he said, " I don't blame you." She said, "Oh, stop it." But he had meant it - how could he blame her? He could not blame her. And the last thing she said to him was: "I hate you because I'm going to die and you're going to live."

As he glanced up a seagull, he thought, But I'm not living, Betsy. What a terrible joke it has been. 

 

Elizabeth Strout – Olive, Again (2019)
Penguin Random House UK (2019)

 

 

deixem passar

16.06.21

Várias pessoas com quem contactei (algumas já falecidas), falaram-me desses momentos, inesquecíveis para quem os viveu. Como Henri Zvi Deutsch, jovem adolescente na altura, que me contou que os pais, fugidos da Alemanha, nem papéis tinham - com eles apenas traziam fé e esperança. Zvi Deutsch mencionou-me o tipo de vistos que vários autores consideram como únicos na história da diplomacia mundial e que o cônsul de Bordéus terá produzido às centenas. Tratava-se de um simples pedaço de papel onde Aristides (ou talvez um dos seus filhos) escrevia o seguinte texto: «O governo português pede às autoridades francesas e espanholas que deixem passar o portador, ou portadores, deste visto de trânsito temporário. Trata-se de um refugiado, ou refugiados, do conflito armado a decorrer na Europa, a caminho de Portugal.» 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

gestão de canalizações de fluxos

25.05.21

Os jornais da região, e não só, fizeram eco do que foram esses dias da última semana de junho e primeiras de julho em Vilar Formoso. Os comboios chegavam cheios de refugiados, e a PVDE mantinha-os, por vezes durante vários dias, nessa estação, à espera de que os seus agentes tivessem tempo suficiente para fazer um controlo eficaz. 

Manuel Lourenço de Andrade, um jovem de 20 anos em 1940, habitava a cem metros da famosa estação que iria ficar na história. Para ele, o mês de junho desse ano, tornou-se um capítulo inesquecível da sua juventude. Assistiu à dor de todas aquelas pessoas, e também presenciou gestos de solidariedade numa base quotidiana. Contou-me como ele e a sua família sentiram o sofrimento que começou a chegar a Vilar Formoso, em comboios superlotados, a partir de meados de junho. Iam todos os dias à estação de caminhos de ferro da vila, levando outros a seguir o seu exemplo, para prestar ajuda e oferecer bens de primeira necessidade aos refugiados, por vezes apenas umas palavras de encorajamento. Lembra-se de um refugiado que ao fim de uma semana sucumbiu à doença, por falta de assistência médica e de medicamentos. Ficou sepultado no cemitério de Vilar Formoso - os habitantes da vila acompanharam o cortejo fúnebre.

Obviamente, a PVDE não estava lá por razões humanitárias, mas para controlar o fluxo de pessoas e canalizá-las para diferentes zonas do país. O aspeto humanitário não foi pensado pela autoridades deste país tão católico, num momento em que as consequências de mais uma guerra mundial alastravam até ao território nacional. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

da resiliência

21.05.21

A época das chuvas começou [...] Os carteiros efectivos telefonavam a dizer que estavam doentes, de todas as estações da cidade, portanto todos os dias havia trabalho na Estação de Oakford e em todas as outras. Até os substitutos telefonavam a dizer que estavam doentes. Eu não o fiz, porque o cansaço não me deixava pensar em condições. 

 

Charles Bukowski – Correios (1971)

Antígona (2015)

 

Source Of Warmth

Katie m. Berggren

 

fazer acontecer

19.05.21

Um jornalista do Le Monde, José Alain Fralon, que seguia o processo Papon, achou curioso o argumento do Père Bernard. Encontrou-o, e escreveu um grande artigo sobre Aristides, com chamada na primeira página do Le Monde. Um artigo que deu que falar. José Alain Fralon é contactado por uma editora de Bordéus, a Mollat, e escreve Le Juste de Bordeaux, um livro que será traduzido para português, inglês e alemão. A notícia do Le Monde chega ao parlamento europeu, em Bruxelas. Desta vez, os deputados portugueses, de todos os partidos, estão disponíveis para responder afirmativamente a uma iniciativa de Otto von Habsburg, em favor do cônsul de Bordéus. Em novembro de 1998, o parlamento europeu organiza uma homenagem a Aristides de Sousa Mendes em Estrasburgo. Devido a doença grave do arquiduque, é o filho mais velho, Karl von Habsburg, quem lê o discurso principal, escrito pelo pai. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

projetoamelia.org/apelo

13.05.21

No dia 1 de Fevereiro deste ano, o exercido to Myanmar executou um golpe de estado. Desde então mais de 750 pessoas, incluindo crianças, foram assassinadas. Este número aumenta todos os dias. 

Durante mais de três meses, o único hospital pediátrico que oferece tratamento a crianças com cancro esteve fechado. Foram três meses sem diagnosticar novos casos, sem operações e tratamentos urgentes.

Não basta estarem a lutar contra um cancro, estas famílias perderam a liberdade e o acesso ao tratamento que pode salvar as suas crianças. 

O hospital pediátrico de Yangon reabriu esta semana. Apesar dos riscos de segurança, a equipa do Projeto Amélia e da organização World Child Cancer estão a contactar as famílias que precisam de tratamento urgente. 

Mas precisamos da sua ajuda e de mais fundos. Com a sua ajuda, podemos oferecer a estas famílias os custos da viagem que demora em média 12 horas e que agora mais do que nunca, é urgente e precisa de ser feita em segurança. 

 

 

http://www.projetoamelia.org/apelo

 

 

alunos com patente

10.05.21

Para essas e outras famílias com o mesmo tipo de simbolismo era vital chegar à fronteira antes dos nazis : a corrida tinha começado. Uma corrida na qual os alemães contavam com alguns trunfos: a velocidade à qual avançavam, com um material de grande qualidade, e em quantidade; apoios das forças colaboracionistas de Pétain e de Franco, e o apoio "tranquilo" de "um bom aluno" - António de Oliveira Salazar, com uma Circular 14 mesmo oportuna. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

in https://plataformacascais.com/component/tags/tag/big-pharma.html