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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

e aos costumes nada se faz

06.07.21

A guerra terminou a 8 de maio de 1945 e o dia 9 de maio foi declarado Dia da Paz. Os chefes dos governos dos países aliados e de outros, para comemorarem a ocasião, fizeram discursos para a nação. Portugal (ou Salazar) não podia ficar atrás, e "naturalmente", pôs-se do lado das nações vitoriosas que se bateram pela democracia, pela liberdade e pela defesa dos direitos humanos. Salazar, que se lembrou dos elogios que lhe foram dirigidos em 1940, erradamente e por engano, pela imprensa estrangeira devido à política de abertura e acolhimento de refugiados", proferiu, na Assembleia Nacional, a 18 de maio, o discurso Portugal , a Guerra e a Paz (in Discursos, Salazar). A parte que mais marcou os gémeos, os meus avôs, começava assim: «Do mais não há que falar. Quaisquer outros na nossa situação acolheriam refugiados, salvariam e agasalhariam náufragos, ajudariam a suavizar a sorte dos prisioneiros, enviariam donativos a necessitados, por dever de solidariedade humana e também para manter no mundo convulsionado por ódios mortais o que poderia ser chama, embora ténue, de caridade, antevisão, embora pálida, da justiça e da paz. Pena foi não termos podido fazer mais.»

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes (2017)

 

 

fazer cordas de areia

01.06.21

No início do giro, endireitava-se, tirava o apito, um dos grandes, e soprava, com cuspo a voar em todas as direcções. Isto era para as crianças saberem que ele tinha chegado. Levava-lhes rebuçados. Elas vinham a correr e ele ia-lhes dando os rebuçados enquanto descia a rua. O bom do G.G. [...]

Mas um dia o G.G. meteu-se numa alhada. O bom do G.G. Encontrou uma miúda pequena nova na zona. E deu-lhe rebuçados. E disse:

- Bem, tu és uma menina muito bonita! Gostava que fosses a minha menina!

A mãe estava a ouvir à janela e desatou a correr aos gritos, a acusar o G.G. de molestar uma criança. Como não conhecia o G.G., os rebuçados e aquela conversa foram demais para ela. 

O bom do G.G. Acusado de molestar uma criança.

Entrei e ouvi o Stone a falar ao telefone com a mãe, tentando explicar-lhe que o G.G. era um homem honrado. O G.G. estava sentado à frente do seu móvel, absorto.

Quando o Stone acabou a conversa e desligou, eu disse-lhe:

- Não devias dar graxa a essa mulher. Ela tem uma mente suja. Metade das mães americanas, com as suas queridas ratas e as suas queridas filhinhas, metade das mães americanas tem a mente suja. Ela que se lixe. [...]

O Stone abanou a cabeça.

- Não, as pessoas são dinamite! São dinamite! 

 

Charles Bukowski – Correios (1971)

Antígona (2015)

 

 

venenos

04.05.21

duro é o silêncio, e são os ossos. duro

é também o veneno dos dias transparentes

 

António Franco Alexandre

 

 

António Ramos Rosa - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

sangrias

16.11.20

A partir dos anos 50, a emigração marcou de forma esmagadora a realidade do país, num fenómeno que se regista à escala europeia. Foi sobretudo, um êxodo rural em duas vertentes: partia-se para países que ofereciam melhores condições de trabalho, logo maior qualidade de vida. Ou trocava-se o campo pela cidade, pelos mesmos motivos1.

1 Esta sangria de gente pode ser esquematizada em três períodos, nomeadamente a década de 50 a 59 com o Brasil como destino preferencial (68% do total de partidas); a década de 60 a 69 que tem a Europa como destino maioritário, atraindo 68% do total das saídas, com a França à cabeça numa primeira fase, e a Alemanha na segunda fase. Finalmente, um terceiro período regista entre 80 e 88 de novo os destinos europeus como preferenciais (França, Luxenburgo; Alemanha), e a emigração para os centros urbanos em busca dos mesmos objetivos. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

gosto pelo medieval

18.12.19

As visões românticas da Europa medieval omitem os requintados instrumentos de tortura e ignoram candidamente a taxa de homicídio de então, trinta vezes superior à actual. Os séculos pelos quais sentimos nostalgia eram tempos em que a mulher de um adúltero podia ver o nariz amputado, uma criança de sete anos podia ser enforcada por roubar um saiote, a família de um prisioneiro teria de pagar pelos seus grilhões, uma bruxa podia ser serrada ao meio e um marinheiro açoitado até ficar em carne viva. 

 

Afonso Cruz_ O macaco bêbedo foi à ópera - Da embriaguez à civilização (2019)
Fundação Francisco Manuel dos Santos e Afonso Cruz (2019)