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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

18
Mar21

luta

A sensação de ter escapado por pouco voltaria a abater-se sobre Filipa cinco dias depois de estar internada. Tal como terá acontecido a Gonçalo, a jovem diz que não foi entubada na noite do acidente. «Dei entrada na Urgência, fui para a área de Queimados só para tratarem as queimaduras. Não foi feito um raio-X aos pulmões, nada. Uma noite comecei a sentir-me mal, tinha tosse, dificuldade em respirar. Já estava há cinco dias internada, e foi só nessa altura que me puseram em coma e entubaram. As oximetrias [valor do oxigénio no sangue] davam valores de 30, quando abaixo dos 60 já é muito grave, mas o médico duvidava, porque eu tinha falado todos os dias», conta a jovem. «Só me lembro de a enfermeira dizer: "Deus queira que a menina escape", porque fui entubada ainda meio sedada; senti porem-me o dreno, senti tudo porque nem deu tempo de deixar a anestesia fazer efeito. Eu ouvia o médico dizer "Tem de ser agora", a médica a hesitar, porque nunca o tinha feito, que estava com medo de o fazer, que, se não fizesse certo, eu morria ali, e eu só chorava e não conseguia dizer nada. Entretanto apaguei, e passados cinco dias comecei a ouvir as pessoas a falar na rua. Uma enfermeira com quem ainda hoje falo diz que foi um milagre, porque não havia nada a agarrar-me, se eu própria não tivesse algo que me segurasse. Eu não quis morrer. Fugi das chamas, porque não quis morrer ali, porque ainda tenho coisas para fazer, e naquela noite eu também não quis morrer, e a enfermeira disse: "Notou-se, notou-se que tu não quiseste morrer, porque, no estado em que estavas, a ouvir-nos, enquanto estavas a ser tratada..."».

Os dois entreolham-se para regressar a Gonçalo. Estão convictos de que algo do género lhe terá causado a morte. «O que aconteceu a ela foi o que aconteceu ao Gonçalo. Ela aguentou-se porque era saudável, não tinha problemas e é mais nova. O Gonçalo já não foi a tempo», diz o chefe Tomé. 

 

Patrícia Carvalho – Ainda aqui estou (2018)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Patrícia Carvalho (2018)

 

 

01
Fev21

estado madrinha

A Borralheira, que era tão boa quanto bela, fez as irmãs virem viver para o palácio e casou-as no próprio dia com dois grandes senhores da corte.

Moralidade:

A beleza é para o sexo fraco um raro tesouro, que nunca nos cansamos de admirar; mas aquilo a que se chama bom feitio é sem preço e é bem mais valioso. Foi isto que a madrinha ensinou à Borralheira ao educá-la e instruí-la, tanto e tão bem que dela fez uma rainha. Belas, este dom vale mais do que estar-se bem penteada; para se prender um coração e conquistá-lo, o bom feitio é o verdadeiro dom das fadas: sem ele nada se pode, com ele tudo se consegue.

Outra moralidade:

É sem dúvida uma grande vantagem ter espírito e coragem, uma boa nascença e bom senso, assim como outros talentos semelhantes, de que se recebe do Céu uma quota-parte; mas, tendo-se embora tais talentos, não conseguirá fazê-los valer para obter sucesso na vida quem não tiver padrinhos ou madrinhas. 

 

Francisco Vaz da Silva – Gata Borralheira e Contos Similares (2011)
Círculo de Leitores e Temas e Debates (2011)

 

 

27
Jan21

roda humana da fortuna

Lucie Matuzewitz continua a sua narrativa: «Um dia, o meu marido, Joseph, conheceu um rabino de barba e cabelo ruivo, que pelas longas tranças mostrava ser muito ortodoxo e tradicional do ponto de vista religioso, e que lhe disse algo de muito espantoso: "Imagine que há dias fui abordado pelo cônsul de Portugal em Bordéus, que me perguntou onde é que estava alojado. Respondi-lhe que infelizmente estava a dormir em cima de um banco, na sala de espera da estação de caminhos de ferro, com a minha mulher e cinco filhos. O cônsul respondeu que compreendia a situação que os judeus estavam a viver, devido às mentiras que os nazis andavam a espalhar acerca das pessoas da nossa religião, e como tal ofereceu-me hospitalidade na sua própria casa - venham morar em minha casa, convidou. Desde há vários dias que estamos a viver em casa do cônsul, que é de uma amabilidade extrema connosco, e que me disse para ir aos lugares públicos da cidade e dirigir-me aos refugiados que querem sair de França para os informar de que ele dará vistos para Portugal a todos os que o desejarem." O cônsul explicou que não tinha autorização para o fazer, pois só podia passar vistos a quem já tivesse bilhete ou passagem para outro país fora da Europa, o que obviamente não é o caso para a grande maioria das pessoas. Disse saber que iria perder o seu lugar, mas daria a Portugal a honra de receber refugiados da nossa religião, podendo assim apagar os crimes dos anos 1496, quando Portugal e a Inquisição expulsaram os judeus, tal como fez Espanha. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

s

 

25
Jan21

porfiar

Através das suas múltiplas variações os contos maravilhosos apresentam situações de crise e de renovação. Descrevem terríveis tribulações, prodígios de abnegação, sofrimentos insondáveis; mas simultaneamente dão a entender que o sofrimento gera a compreensão, o sacrifício propicia a renovação, a abnegação prepara proventos futuros. Isto é, os contos maravilhosos falam de dias maus numa perspectiva otimista. Incitam auditores e leitores a não baixar os braços, convidam a porfiar. 

 

Francisco Vaz da Silva – Gata Borralheira e Contos Similares (2011)
Círculo de Leitores e Temas e Debates (2011)

 

 

14
Jan21

a pão e vacinas (mas sem água...)

Quando os voluntários de Esposende se puseram a caminho, no domingo, 2 de julho, já sabiam que teriam à espera deles cinco jipes, que seriam os guias pela terra queimada do Centro. Tinham sido feitos mapas, e as carrinhas e carros particulares foram divididos em cinco grupos, cada um deles com um pouco de tudo o que levavam, para que nenhum dos bens faltasse em cada localidade por onde passavam. O grupo de Coimbra deu-lhes algumas instruções. Que se esforçassem para não chorar convulsivamente à frente das pessoas que iam encontrar, para tentarem controlar as emoções, porque aquelas populações estavam muito fragilizadas. E que tivessem cuidado, porque havia algumas falsas vítimas a tentar aproveitar-se da situação [...] Mas não tinham noção, diz Sílvia. Por muito que julgassem saber, não tinham noção do que os esperava. 

Primeiro, foi a paisagem. Agora, já não havia filtros do ecrã do televisor, a cor e o cheiro do queimado estavam em todo o lado [..] Depois, as pessoas. «Houve uma grande revolta, porque percebemos que, se confiássemos nas instituições, que nos diziam que já não era preciso nada, tínhamos ido de mãos a abanar. Teríamos ido dar um abraço às pessoas, um bocadinho de colo, mas não levaríamos nada. E a realidade que encontrámos foi completamente diferente. As pessoas pediam-nos água, água, que não tinham de beber. Na primeira casa pediram-nos água e eu pensei: é só aqui. Mas o pedido repetiu-se, e massacrei-me aquele dia todo, porque não me ocorreu, em pleno século XXI, que, num país desenvolvido da Europa comunitária, houvesse velhinhos sem água. 

 

Patrícia Carvalho – Ainda aqui estou (2018)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Patrícia Carvalho (2018)

 

 

 

13
Jan21

programações (de vítimas), previsões (de especialistas), inações (de algozes com poder de decisão)

Filipa anda a aprender a convencer-se de que o ano de 2017 «não conta». Porque esse era o ano em que planeara concluir uma série de etapas na sua vida. Estava matriculada no mestrado em Solicitadoria de Empresas e inscrita para entrar na Ordem dos solicitadores. Devia ter feito estágio entre Junho e Dezembro, para poder ir a exame em Março, mas o internamento, os ferimentos, deitaram os planos por terra. O mestrado ficou parado. «Dois mil e dezassete era para encerrar tudo isto, sempre fiz tudo certinho», lamenta-se. Tal como lamenta a ausência tão prolongada da serração onde trabalhava no escritório. «Estou a faltar há dez meses», diz, com as lágrimas a saltarem-lhe novamente dos olhos. «É muito tempo. Tinha tudo programado, tinha estudos, tinha a Ordem...»

No hospital não dão previsões para o dia em que a fisioterapia não será mais necessária. Ou em que não terá de gastar um boião de um quilo de creme hidratante em apenas quatro dias. É um dia de cada vez. E ela aguenta, apesar das dores e das lágrimas. 

 

Patrícia Carvalho – Ainda aqui estou (2018)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Patrícia Carvalho (2018)

 

 

10
Dez20

seguros até às caves

O segundo combate também foi bom. A multidão gritava, rugia e bebia cerveja. Estas pessoas escapavam temporariamente às fábricas, aos matadouros, aos armazéns, às garagens de lavagens - no dia seguinte estariam cativos, mas agora estavam livres, estavam bêbedos de liberdade. Não pensavam na escravatura da pobreza. Nem na escravatura da assistência social e das senhas de racionamento. Nós podíamos estar seguros até os pobres aprenderem a fabricar bombas atómicas nas suas caves. 

 

Charles Bukowski – Mulheres (1978)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2003)

 

 

25
Set20

o poder de querer

No seu tempo, e num país onde a esmagadora maioria da população rural era ainda analfabeta, Deolinda de Jesus era uma das poucas pessoas, na aldeia, que sabia ler e escrever. Não frequentou nenhuma escola, mas a mestra do ateliê onde aprendeu costura ensinava a ler e a escrever às meninas que quisessem. Ela foi das poucas que quis. Ao longo de toda a vida a sua letra firme e bem desenhada encheu cartas e cartas com as quais mitigou a solidão de ter os filhos longe, permitindo-lhe, por seu turno, ler sem intermediários, as que eles lhe foram mandando [...] A certa altura, Deolinda partilhou esta ferramenta com o marido. Foi no final dos anos 50, quando surgiu a oportunidade de Jaime ser cobrador da Casa do Povo. Era um trabalho de fim de semana, mas garantia mais uma fonte de rendimento para a família. Porém, e como condição de admissão, exigia o domínio ainda que muito básico, das letras e da tabuada por causa das contas. Deolinda chamou a si a tarefa de ensinar ao marido os rudimentos da leitura e da escrita. As aulas decorriam ao serão, na mesa da sala de jantar. De lápis na mão, caderno de linhas ou quadriculado à frente, lampião de azeite na mesa, Jaime engolia o orgulho e rebentava de humilhação quando a mulher o emendava, uma vez e outra e outra. Mas o facto é que conseguiu o emprego, sinal de que lhe aproveitaram as lições. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

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