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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

cercos (de alma) e secretaria

12.05.21

Na conversa que Aristides teve com Angelina e com os filhos José António, Pedro Nuno e Isabel (e Jules d'Août, seu genro) invocou vários argumentos espirituais e históricos, que já foram citados por vários autores. Tentarei recriar um deles, que me foi dito e repetido muitas vezes pelos meus familiares e por outras pessoas que o conheceram bem: «Estes refugiados são filhos de Deus, vítimas inocentes de uma guerra monstruosa que os foi tirar a suas casas, e se não fizermos nada por eles, poderão morrer debaixo de bombas, ou de fome, ou serem assassinados pelo invasor. A nossa obrigação e dever, como pessoas crentes em Deus, é ajudá-los, tal como faria o Bom Samaritano. A Circular 14 é injusta e não tem em conta os terríveis sofrimentos causados a todas estas pessoas. Foi redigida numa secretaria em Lisboa, longe desta realidade, sob influência de um polícia que apenas pensa na sua carreira e bem-estar. 

Vou desobedecer frontalmente a esta Circular a partir de hoje, e fazer tudo quanto puder para ajudar o maior número de refugiados. Conto com a vossa total colaboração para dar vistos gratuitos a todos quantos pudermos. A vossa mãe, com quem já falei, dá-me todo o seu apoio, e está disposta a também prestar ajuda e a cuidar das pessoas que tenham mais necessidade de atenção. Estou consciente de que perderei o meu trabalho, e a vossa vida vai alterar-se. Tudo vai ser mais difícil para nós, mas também tenho a confiança de que Deus não nos abandonará. Ao fazermos o bem a estes refugiados é ao próprio Cristo que o faremos e não seremos esquecidos - um dia poderemos ganhar o céu. 

Por outro lado, este gesto redentor é-lhes devido pelo sofrimentos causados nos séculos XV e XVI pela lei da expulsão dos judeus de 1496 e pelo estabelecimento da Inquisição em Portugal. Esta é uma oportunidade para o nosso país reparar um erro histórico e corrigir os erros do seu passado. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

in https://ocastendo.blogs.sapo.pt/31-de-marco-de-1821-fim-da-inquisicao-2063948

in https://ncultura.pt/inquisicao-medo-tortura-fogueiras/2/

in https://www.leme.pt/magazine/efemerides/1205/dom-manuel-i-assina-o-decreto-de-expulsao-dos-judeus-de-portugal.html

 

chefes de nação e cíclicas beatitudes

11.05.21

O presidente israelita Ben-Gurion pede ao Yad Vashem (Alta Autoridade para a Shoah) para averiguar o caso e fazer uma recomendação importante, pois já havia iniciativas, vindas de certos sectores, para nomear Salazar e Franco como Justos Entre as Nações. Os processos de averiguação do Yad Vashem, como comentou o embaixador Bessa Lopes no seu estudo, são extremamente rigorosos, e concluíram que, de facto, o "Justo", neste caso, era Aristides de Sousa Mendes. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

lutas (citadinas)

26.04.21

À época, o problema habitacional na Holanda assumira proporções de crise, com a incapacidade de resposta por parte da construção civil para resolver o alojamento dos retornados holandeses do Suriname - independente a partir de 1975 - e dos trabalhadores estrangeiros que, ao fim de alguns anos no país obtiveram autorização para mandar vir os seus familiares. Assim, a luta dos krakers teve, desde o início, a simpatia geral dos holandeses, muito embora nem sempre os seus métodos tivessem sido unanimemente apoiados...

Quando foram anunciados planos para demolir a maior parte das casas do bairro de Nieuwmarkt, a fim de se expandir a linha de metropolitano, explodiu uma contestação violenta por parte dos krakers secundados por residentes locais. Associados a outros movimentos, como os provos, os seus porta-vozes ameaçaram lançar LSD nas condutas de abastecimento público de água. E dado que estavam a desenrolar-se os preparativos para a boda da princesa herdeira Beatriz com o príncipe Claus von Amsberg, antigo diplomata alemão, ameaçaram também vir a boicotar os festejos do casamento, soltando ratinhos nas ruas à passagem do cortejo nupcial. Os jovens contestatários do mundo inteiro riram a bandeiras despregadas a imaginar cavalos à desfilada a atirar os ilustres ocupantes das carruagens, príncipes, princesas, presidentes da república, para os canais, perante uma população involuntariamente alucinada por via da água pública. Por fim, a cidade acabou por contemporizar com os movimentos radicais. Não houve ratinhos no casamento de Beatriz e Claus, nem alucinogénios na água canalizada. Os velhos edifícios salvaram-se, e o traçado do metropolitano foi alterado, muito embora a linha Stopera (da Câmara à Opera) tivesse sido construída 1

 

1 Os krakers vieram a conseguir apoio no próprio Parlamento, e por volta de 1980 foi implantada uma nova política de arrendamento. Amesterdão não tem casas desocupadas nem degradadas. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018) 

 

 

bemzinho fedorento

06.04.21

Para o capitão gostinho Lourenço, «o cônsul de Bordéus andava mesmo a pedi-las», e essas contas teriam de ser ajustadas, quanto mais cedo, melhor! A PVDE, entretanto, ia-se substituindo ao próprio MNE na decisão de atribuição de vistos, como o demonstra a comunicação da polícia política de 22 de abril de 1940, recebida a 23 do MNE: «Tem notado esta diretoria, de há uns tempos a esta parte, que os pedidos de judeus holandeses para virem para Portugal tomam um volume que não é de desprezar, atendendo à convulsão que agita a Europa. Por outro lado, os nossos serviços têm registado uma agitação por parte dos judeus, que nos tem feito tomar medidas rigorosas sobre a sua atividade. Nestes termos, rogo a V.Exa. que a bem do serviço público, os senhores cônsules na Holanda sejam avisados, para antes de pedirem autorização para visarem os passaportes, averiguarem bem se os indíviduos que desejam vir são ou não judeus, a fim de se evitar a entrada em Portugal de indivíduos dessa qualidade. A bem da Nação. Lisboa, Secretaria-Geral da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado. 22 de abril de 1940.»

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

dúvidas para debaixo do tapete (ou como ser de bem e covarde)

25.03.21

dois casos deram origem a um aviso formal a Aristides de Sousa Mendes: «Qualquer nova falta ou infração nesta matéria será havida por desobediência e dará lugar a procedimento disciplinar em que não poderá deixar de ter-se em conta que são repetidos os atos de V.Sa. que motivam advertências e repreensões.» Era um aviso bem claro que estabelecia as regras do jogo: Salazar e o regime queriam continuar a seguir a Circular 14, portanto, a perseguir os judeus; a bloquear-lhes o caminho para a salvação e impedindo-os de escapar a um assassínio em massa, sem «cônsules ou indivíduos fora do seu estado normal», a incomodarem publicamente esse desígnio. 

Pelo seu lado, Aristides decidiu continuar a seguir a sua consciência. O seu jogo seria deixar-se estar no seu posto como cônsul durante o mais longo espaço de tempo possível, e sempre que tivesse ocasião, passar o maior número de vistos, dando pelo menos a possibilidade de sobreviver aos que lhe aparecessem pela frente. A atitude de Aristides é clara: «Não participo em chacinas, por isso desobedeço a Salazar!» Aristides identifica sem rodeios Salazar com a força bruta de Hitler e do nazismo no que diz respeito aos judeus, e é disso que o acusa com esta frase. A sociedade portuguesa, prefere, para ficar bem com a sua consciência, olhar para o lado, e vai escolher vergar-se ao poder, evitando mais tempos de incerteza como os vividos antes de Portugal ter Salazar e o Estado Novo. Ninguém queria uma "democracia" ou uma república cheia de dúvidas. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

espíritos lacrados

15.03.21

Todo o processo foi em seguida guardado num envelope e lacrado, significando que era confidencial e não poderia ser aberto sem autorização superior. 

Foram precisos 36 anos, mais a morte do ditador, uma revolução em 1974 e a queda do regime, até que, já em democracia, um ministro dos Negócios Estrangeiros, Melo Antunes, se tenha dignado mandar romper esse lacre, para que finalmente o país pudesse ter acesso a tal processo e os descendentes do cônsul de Bordéus pudessem começar a pensar que iria ser feita justiça [...]

Bessa Lopes resume o despacho ministerial contra Sousa Mendes como «hipócrita, ilegal e iníquo (por tudo isso, o processo conservava-se muito bem guardado em envelope lacrado) [...]

Aberto o envelope lacrado, verificou-se que dele não consta qualquer notificação ao "condenado" para o inteirar da decisão final, e que a pena aplicada, além da inatividade por um ano com apenas metade do vencimento da categoria, foi a aposentação compulsiva (e não a demissão), pena que não estava sequer prevista na lei (portanto, tudo isto era manifestamente ilegal).

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

in https://knoow.net/arteseletras/literatura/banda-desenhada/

 

atirar a salvar

11.02.21

Ao olharmos para a lista dos emolumentos do consulado de Portugal com os nomes de pessoas que pagaram para obter o visto, é possível constatar a existência de muitos nomes que poderiam ser "suspeitos" segundo os critérios da PVDE. As pessoas falavam umas com as outras e transmitiam os seus sentimentos, os medos e as ânsias de forma espontânea. O cônsul de Portugal começava a ser falado nos lugares públicos, por «ajudar judeus a deixar França», como relata o biógrafo Rui Afonso.

Quando Aristides vem a Portugal para o casamento da filha, já traz na bagagem o início do primeiro caso que vai custar-lhe a carreira: é o caso Wiznitzer - o primeiro visto, passado apenas dez dias depois da entrada em vigor da Circular 14. Arnold Wiznitzer, a mulher e o filho, por terem perdido a nacionalidade austríaca e por serem judeus, tinham-se tornado personae non gratae numa Europa em guerra. O seu único objetivo era sobreviverem e conseguirem sair do continente europeu. Aristides assina-lhes o visto para virem a Portugal apanhar um navio para o outro lado do Atlântico, a 21 de novembro de 1939. Não havia tempo a perder com burocracias, pois Wiznitzer iria ser "internado" num campo de concentração por se encontrar em França de forma irregular. O pedido de autorização para passar o visto foi enviado para Portugal a 27 de novembro por Aristides, repetido a 6 de dezembro, e sempre nada... As autoridades portuguesas nunca responderam de forma séria, pois começaram a dizer em tom de troça que o cônsul primeiro passava os vistos e depois é que pedia autorização, para estar conforme à Circular 14. De facto, enquanto os militares nazis primeiro atiravam a matar e depois é que faziam perguntas, Aristides primeiro salvava pessoas e depois é que se conformava à burocracia lenta e pesada. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

13+1

14.12.20

A morada encontrada foi 14, Quai Louis XVIII, Bordéus.

Catorze, o número de filhos; 14, o número da maldita circular que Salazar iria assinar dentro de um ano, proibindo aos cônsules de carreira a concessão de vistos de entrada em Portugal a certas categorias de refugiados (aos judeus, de forma alguma); 14, o número de anos que iria durar o resto da sua vida atormentada até morrer, em 1954. 

Catorze foram também os anos que o Portugal democrático levou entre o 25 Abril de 1974 e a aclamação da reintegração póstuma de Aristides na carreira diplomática, como ministro plenipotenciário de 2ª classe (embaixador), na Assembleia da República, em abril de 1988. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

 

pedreiras celestiais

19.11.20

o meu pai morrera há uns meses na explosão da pedreira, não sobrou muita coisa mas o que sobrou num caixão decente, com o fato do cunhado porque não se chega ao Paraíso de capacete e mangas arregaçadas 

 

António Lobo Antunes – A Última Porta Antes da Noite (2018)

Publicações Dom Quixote (2018)

 

 Derrocada nas pedreiras de Borba - 19 de novembro de 2018

 

caminhada

11.11.20

Como se seguisse o exemplo do samaritano, a contrariar ordens vindas de homens, Aristides abdicou da carreira, da família, dos amigos e do seu estatuto social, num país que vivia num sistema ditatorial e onde as aparências valiam muito. Preferiu o castigo que se abateu sobre ele e a raiva de certos grupos sociais, que perdura até aos nossos dias neste país. Porém, morreu com a certeza de que a aposta a respeito de Deus tinha sido totalmente ganha. 

Filósofos, pensadores e santos acolheram com grande satisfação a atitude rebelde de Aristides. A Humanidade precisava (e precisa) de gestos desta natureza e dimensão para continuar a sua caminhada. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)