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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

15
Mar22

barbas de molho

Cecília

Constatei o facto até mesmo em plena angústia, quando, torcendo o lenço entre as mãos, a Susan gritou: "Amo, odeio". Pensei: " Há uma criatura inútil a rir no sótão", e este pequeno exemplo serve para mostrar o modo incompleto como mergulhamos nas nossas próprias experiências.

 

Virginia Woolf – As Ondas (1931)

Colecção Mil Folhas / Bibliotex SL / M.E.D.I.A.S.A.T. e Promoway Portugal Ltda (2002)

 

 

March 15 marks 11 years since the eruption of peaceful protests against the Assad regime in Syria.

The pro-democracy demonstrations demanding change were violently suppressed, leading to a civil war that has cost the lives of hundreds of thousands and torn the country to shreds.

More than a decade later, a brighter future is still far on the horizon for the Syrian people.

in https://www.youtube.com/c/trtworld/community

 

 

11
Mar22

[da série] cuidado, esta gente vota (V)

Cecília

«Pode ser um trabalho chato às vezes, até porque o cliente português é muito picky. Implica com muitas coisas, e não estou a falar das "personalidades". O pior cliente é aquele que vem com o dinheirinho contado, que conta os trocos todos... já para não falar dos viens, dos portugueses-franceses... Jean Pierre, vien ici, seu cabrão. Esses são os piores de todos.»

 

Pedro Vieira – Em que posso ser útil? (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Pedro Vieira (2021)

 

 

07
Fev22

ver Portugal de Camarate

Cecília

[...] tem de se aproveitar antes da morte, porque não sabemos se Deus nos dará outras noites assim para viver.

 

Marguerite Duras – Olhos Azuis, Cabelo Preto (1986)

Colecção Mil Folhas / Bibliotex SL / M.E.D.I.A.S.A.T. e Promoway Portugal Ltda (2002)

 

 

12
Jan22

people

Cecília

No ar desenham-se mil caprichos, mil delícias,

mil carícias e é o ócio que vence na harmonia.

 

António Ramos Rosa in A VOLUBILIDADE DO SER - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

20
Dez21

nada adquirido

Cecília

Os valores do pluralismo e da diversidade são hoje mais partilhados. Ao mesmo tempo, o espaço de liberdade democrática torna viáveis as oposições às novas normas que legitimam o pluralismo, a diversidade ou a igualdade entre humanos. Nada é por isso um dado adquirido, e as grandes mudanças emancipatórias que ocorreram e estão a ocorrer podem facilmente retroceder, em nome de um processo que se reclame ele próprio da liberdade democrática. 

 

Jorge Vala – Racismo, Hoje, Portugal em Contexto Europeu (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Jorge Vala (2021)

 

 

17
Dez21

salve

Cecília

Durante a ditadura, era na escola que, ao mesmo tempo que se aprendia a ler e a escrever, se aprendia a missão «ultramarina, cristã e redentora» de Portugal, a sua vocação para «civilizar» outros povos, legitimada pela crença na superioridade moral dos Portugueses. A escola, como primeiro lugar de socialização institucional, era também um espaço de aprendizagem indireta de valores pessoais e dos ideais de vida coletiva que sustentavam a ditadura [...]

Foi assim possível mostrar como esses manuais, de forma muito subtil, comunicavam uma hipervalorização da autoridade e da submissão, manifestada, por exemplo, nas interações verticais adulto-criança na escola e na família, em detrimento das interações horizontais entre crianças. Nos ideais de vida coletiva, destacavam-se os valores da ruralidade e das tradições, uma ordem natural onde cada um deveria ocupar o lugar que lhe estava destinado e um mundo que apenas funcionaria bem se fossem respeitadas as hierarquias sociais. Na visão sobre a sociedade portuguesa, outros trabalhos sobre os manuais escolares da mesma época destacaram a exaltação da pátria e da portugalidade, «uma grande família», e dos seus símbolos de universalidade e de vocação civilizadora. Ao mundo dos portugueses em África opunha-se um outro mundo: «arredores infestados por selvagens».

 

Jorge Vala – Racismo, Hoje, Portugal em Contexto Europeu (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Jorge Vala (2021)

 

 

02
Nov21

no choco

Cecília

Nas sociedades democráticas, o percurso que vai do racismo e do preconceito à discriminação não é um caminho direto. Ele passa pelo crivo da legitimação e esta necessita de validação social, invocando argumentos percebidos como justos e dissociando-se de motivações racistas. Então, justificações razoáveis podem tornar toleráveis crenças racistas e comportamentos discriminatórios. Estas justificações legitimadoras são frequentes e muito diversificadas, mas parecem alicerçar-se num fator aglutinador: a preservação da identidade positiva da maioria [...] a necessidade de legitimar a discriminação dissociando-a da sua base racista e associando-a a um comportamento justo, defensivo ou contraofensivo, face ao sentimento de ameaça à identidade da maioria dominante.

Esta necessidade de legitimação acontece, porém, apenas nas sociedades democráticas. A questão que se pode colocar é a de saber se, num clima de enfraquecimento dos valores da democracia, o antirracismo não será também questionado.

Estaremos a entrar num cenário dos anos 20 como o que Bergman retratou no seu filme marcante O Ovo da Serpente?

Nessa altura, era a ascensão do nazismo que se via crescer, como se pode ver o crescimento da serpente no interior do seu ovo. Tal como o filme retrata, contudo, toda a gente olhava, mas ninguém o via realmente. Hoje são muitos os sinais dos limites à democracia, do autoritarismo, da relativização das desigualdades sociais e da discriminação racial que aparentemente se tornaram invisíveis. Será necessário desenvolver investigação e debate que os torne salientes, pois reconhecê-los é um passo necessário para os eliminar.

 

Jorge Vala – Racismo, Hoje, Portugal em Contexto Europeu (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Jorge Vala (2021)

 

The voice of energy


This is the voice of energy
I am a giant electrical generator
I supply you with light and power
And I enable you to receive speech
Music and image through the ether
I am your servant and lord at the same time
Therefore guard me well
Me, the genius of energy

 

24
Set21

contra ventos e moinhos

Cecília

A reclamação, curiosamente (e premonitoriamente), é datada de 10 de dezembro de 1945 (exatamente um ano antes da Declaração Universal dos Direitos do Homem), e é dirigida ao presidente da Assembleia Nacional, nessa altura o Dr. Albino dos Reis.

Na reclamação, Aristides começa por relembrar a situação vivida em Bordéus em maio/junho de 1940, e a proibição recebida por parte do governo português de conceder vistos aos israelitas (de acordo com a Circular 14). Diz ele que não devia obedecer àquela proibição por a considerar inconstitucional em virtude do artigo 3.º da Constituição, que garante liberdade e inviolabilidade de crenças, não permitindo que ninguém seja perseguido por causa delas, nem obrigado a responder acerca da religião que professa. Acrescenta ainda que se não obedeceu, não fez mais do que resistir, nos termos do n.º 18 do artigo 8.º da Constituição, a uma ordem que infrigia manifestamente as garantias individuais, não legalmente suspensas nessa ocasião (artigo 8.º n.º 19).

Mais adiante, pede à Assembleia para declarar nula a pena que lhe foi imposta por Salazar, exigindo a respetiva responsabilidade àquele ou àqueles funcionários que, dando-lhe a referida ordem, «atentaram contra a Constituição e o regime estabelecido (artigo 115.º, n.º 2). Para terminar, Aristides escreve que «a Assembleia Nacional deve pôr termo ao absurdo de ele ter sido severamente punido por factos pelos quais a administração [Salazar] tem sido elogiada em Portugal e no estrangeiro, manifestamente por engano [...] Em resumo, a atitude do governo Português foi inconstitucional, antineutral e contrária aos sentimentos de humanidade e, portanto, insofismavelmente "contra a Nação".»

Mais uma vez, Aristides fica à espera... Mas quem é que na Assembleia Nacional, formada unicamente por elementos da União Nacional, tinha coragem de reagir? Ninguém, certamente, sobretudo, porque o senhor presidente da Assembleia Nacional não terá dado autorização para que esse reclamação fosse entregue aos senhores deputados. 

E o que faz Aristides? Decide escrever uma carta a cada um dos 120 deputados, para ter a certeza de que a vão receber, e vai entregá-la em mão à porta da Assembleia 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes (2017)

 

20
Set21

consciências desfasadas

Cecília

Em Portugal, a tomada de consciência de que o racismo é incompatível com a democracia e os valores de liberdade e igualdade é ainda mais recente do que no resto da Europa. Após a II Guerra Mundial, Portugal não podia fazer a condenação oficial do nazismo e do fascismo pois fora um ator supostamente neutro nesse processo e era governado por uma ditadura. Além disso, Portugal era um Estado colonial, sendo as relações com os povos das colónias africanas reguladas nomeadamente pelo «Estatuto dos Indígenas», entre 1926 e 1961. É nesta última data que aquele estatuto é revogado por nova legislação, introduzida quando a guerra colonial já se havia iniciado. Esta nova legislação, que corrige marcadamente a versão de 1926, é mais uma consequência do pavor da luta pela independência das colónias do que de uma genuína promoção de relações de trabalho justas. Esta observação é sustentada pelo facto de, dez anos após a legislação de 1961, a Organização Internacional do Trabalho ainda considerar que Portugal não respeitava nas colónias os princípios defendidos por essa mesma organização.

Com o 25 de Abril, o espírito da Declaração Universal dos Direitos Humanos foi integrado na Constituição de 1976 e entrou progressivamente nas instituições portuguesas. Porém, só em 1978, 30 anos após a aprovação pela ONU da Declaração Universal dos Direitos Humanos, Portugal apoia essa declaração, ao mesmo tempo que subscreve a Convenção Europeia dos Direitos do Homem, criada em 1953. 

 

Jorge Vala  – Racismo, Hoje, Portugal em Contexto Europeu (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Jorge Vala (2021)

 

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