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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

velho sistema instagram

18.11.20

Na cidade, as propostas para mobilar as casas estão recheadas de produtos fantásticos. Frigoríficos cheios de comida pronta a ser confeccionada. Aspiradores, que permitem que a dona de casa rodopie pelo seu lar, limpando-a como quem brinca. Máquinas de lavar roupa, que evitam a canseira dos tanques onde à força de braços e mãos que esfregam, torcem, batem, na faina das barrelas domésticas, se lavam as roupas da casa. Panelas de pressão, que conseguem amaciar o mais rijo naco de carne, enquanto o diabo esfrega um olho. Na cidade, as tarefas domésticas diárias, a acreditar nos maravilhosos anúncios, são meros passatempos que lindas mulheres praticam alegremente. E toda a gente parece resplandecer de asseio. Já no campo, um luxo chama-se telefonia. Um sonho chama-se telefone. Visitas extemporâneas e de última hora... não existem. Visitas só a do padre ou a do médico. Não costumam ser bom sinal. Vizinhos? Ajudam-se, mutuamente, quando é preciso, mas ninguém entra pela casa de ninguém a pedir comida e a reclamar jantares: era só o que mais faltava. E os gestos quotidianos - varrer, limpar, cozinhar, arar os campos, pensar o gado, mondar, ceifar, enxertar as árvores, colher os frutos, apanhar caruma, acender a lareira -, são obrigações. Implicam muitas horas de trabalho esforçado, e não se pensa nelas como passatempos. Ter comida para cozinhar, isso sim, é uma alegria. Matar a fome a todos, aí está o verdadeiro prazer. 

Na cidade, famílias ostensivamente felizes têm crianças, quase sempre louras e inevitavelmente lindas, que adoram pudim Royal e «gostam e necessitam de Milo», o fortificante mágico sem o qual as suas pobres cabecinhas encaracoladas tombam de exaustão sobre imaculados cadernos e livros da escola. Mas as cabecinhas das crianças louras ou morenas dos campos, não tombam sobre cadernos e livros imaculados. Se tombarem, uma palmada do professor ou da professora fornece toda a energia de que precisam para se levantarem imediatamente. Portanto, ali o Milo não faz falta nenhuma a ninguém. Até porque o dinheiro não chega para esses luxos... finalmente, no campo, não se fala em beleza o tempo todo, nem se evocam vocábulos como elegância por dá cá aquela palha. De resto, o mais elementar sentido de decência tornaria impensável que as mulheres corressem de braços no ar ao encontro dos seus homens, quando estes chegam a casa, suados, sujos de terra, exaustos de trabalhar, para lhes servirem algo de tão insípido como um estupendo caldo Maggi. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018) 

 

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A refeição do menino

Júlio Pomar 

 

de perto

28.05.19

Se vista de longe, Lisboa é uma bonita cidade, espalhada pelas colinas, iluminada pelo Sol que espreita em tímidas abertas pelos buracos das nuvens cinzentas, expondo os telhados avermelhados e os campanários das suas muitas igrejas, os picos dos Jerónimos apontados ao céu, os torreões da Sé, o zimbório da nova Basílica da Estrela, o vasto Terreiro do Paço aberto para o rio luminoso. Mas Philipe de Villepin considera que no encanto daquele casario empinado nas encostas que descem para o Tejo,  entre ruelas onde o sol não entra, mora uma gente heteróclita e encardida, roída por uma lepra medieval, em que abundam os pretos, os frades, os padres, os mendigos, os garotos descalços vagueando, as mulheres raras - diz-se que saem pouco com medo dos franceses encapotadas sob vestes escuras e embiocadas em lenços negros. Cães sarnentos farejam monturos, cabras à solta pastam nos lixos, catam-se piolhos na soleira das portas no caminho para o castelo, de onde a vista abrange finalmente uma grandeza de antiga metrópole dona de meio mundo que, vista de perto, mostra as chagas da decadência, da decrepitude, do atraso, da superstição. 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

demasiado tarde

29.05.18

demasiado tarde logrou libertar-se das impaciências juvenis e percebeu que a única salvação reside no aplicar-se às coisas que existem. 

 

 

Italo Calvino  - Palomar (1983)

Planeta DeAgostini (2001)

 

 

 

 

a evitar

16.05.18

Evitar o choro, porque as lágrimas são delibitadoras, e ao abatimento seguem-se reacções violentas e decisões nefastas (...) a fúria é sempre alimento de mais fúria, como as lágrimas o são de mais lágrimas. 

 

 

George Sand – Diário Íntimo

Antígona (2004)

 

 

 

 

aprende a esperar

15.05.18

Aprende a esperar, pois ninguém conhece o futuro, e é mais do que certo que não o conseguirás submeter à tua vontade. 

 

 

George Sand – Diário Íntimo

Antígona (2004)

 

 

 

 

puta a um canto

07.03.18

V

 

(À infalível prostituta, a um canto)

 

Se eu quisesse, tornava-te humana.

Fazia-te chorar

as lágrimas que trago em mim. 

 

E beijava-te a boca

a menina que ainda existe 

no fundo dos teus olhos. 

 

Mas não quero. 

 

Prefiro ver no teu corpo 

o desenho da minha indiferença.

E sentir-te na pele

tudo o que há de vil na minh'alma

- e já não cabe em mim. 

 

José Gomes Ferreira in Cabaré 

 

 

José Gomes Ferreira – Poeta Militante I

Círculo de Leitores (2003)

 

 

 

 

margens tantas

07.03.18

- Mi libro, ¿crees que vas a leerlo?

- Supongo que no. A menos que tú quieras. Nunca abro los livros que traen. Reconozcámoslo, la mayoría son malos. Ahora todo el mundo se piensa que sabe escribir (...) Por lo que cuentan, todos son unos genios incomprendidos. Eso es lo que me dicen. Estoy hasta la coronilla de marginados sociales. 

 

 

David Foenkinos - La biblioteca de los libros rechazados (2016)
Titulo original: Le Mystère Henri Pick
Traducción de María Teresa Gallego Urrutia y Amaya García Gallego
Penguin Random House Grupo Editorial S.A.U. (febrero, 2017)

 

 

 

eu sou só mais um gênio
perdido entre os livros da biblioteca pública
que você gosta de ter ao lado
pra se sentir madura
pra se sentir segura
na confusão

pena que nada disso importa
é pena que nada disso importa
porque eu quero ser o homem que você deseja
quando toma banho
ou quando se masturba
eu quero ser o corpo que você almeja
quando está com fome
ou quando está insone
foda-se o que eu sei
e o que eu te ensinei

eu sou só mais um homem culto e divertido
que você sempre vai levar pros bares pra impressionar amigos
pra se sentir madura
eu sou somente a armadura
na escuridão


é pena que nada disso importa
é pena que nada disso importa
porque eu quero ser o homem que você deseja
quando toma banho
ou quando se masturba
eu quero ser o corpo que você almeja
quando está com fome
ou quando está insone
foda-se o que eu sei
e o que eu te ensinei

eu sou só mais um
(gênio perdido entre os livros da biblioteca pública
que você gosta de ter ao lado)
eu sou só mais um
(gênio perdido entre os livros da biblioteca pública
que você gosta de ter ao lado)
eu sou só mais um
(por que você vem me chamar?)
por que você vem me chamar?
eu sou só mais um
e você vem me chamar