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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

10.05.19

muita coisa vai e outra tanta que não fica


Cecília

O criado, de libré, calção de baeta e meia branca, vem anunciar que está lá fora o Raimundo, aprendiz do Convento. Dona Beatriz poisa o bastidor. Que o mande entrar para o vestíbulo. Quem é? - pergunta dom António, atrás da Gazeta de Lisboa de há três dias. O Raimundo da Anunciação, um rapaz de muito talento, ajudante de mestre Cyrillo, que nos pintou aquele fresco no coro da capela, vai para dois anos. 

Raimundo da Anunciação compôs quanto pôde o fato coçado, limpou da lama os sapatos cambados e as solas rotas vê-las-ia o chão se tivesse olhos. Dobra a magreza numa vénia angulosa e, com perdões pelo incómodo, atira-se à descrição das misérias, as suas e as dos outros três ajudantes da escola de artes que, aliás, já se preparam para abalar. Suas majestades partiram, como Vossa Excelência sabe, e deixaram por pagar mestres e ajudantes. Bem, os mestres foram para Lisboa, onde há sempre quem lhes encomende um retábulo, um retrato, seja quem for que por lá mande. Mas nós, minha senhora, estamos à esmola de uma sopa e temos à nossa guarda coisas preciosas, enfim, obras acabadas ou começadas por mestre Cyrillo, do Taborda, do Calisto, do Piolti, do Sequeira, do Machado de Castro, até uma escultura de mestre Giusti das últimas que fez antes de cegar (...) Muita coisa vai na carga dos barcos para o Brasil - acrescenta. - Até aqueles seis quadros sobre a conquista da Índia, mas não puderam levar tudo. 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

05.10.16

5 de outubro de 1910


Cecília

" Mas, depois que vi e examinei essa proposta, reconheci com pasmo que ela de nada serviria a bem da Nação, nem contra os tais famosos costumes de administração.

As consequências desses costumes, que o Sr. Ministro não quis denunciar-nos como devia, são no entanto bem frisantes e dolorosas, e definem-se em duas palavras: uma dívida pública de perto de 800.000.000$000 réis; uma dívida flutuante que vai até 72.000.000$000 réis; impostos que têm sempre aumentado, até quase quintuplicarem, de 1852 para cá; e, por outro lado, o País sem instrução, nem exército, nem defesa das costas, e fronteiras, nem marinha, nem, auxílio aos operários, nem nada do que se pede e precisa, porque nem sequer temos estradas, já que as existentes, que nos custaram dezenas de milhares de contos de réis, destruiu-as a triste iniciativa e casmurrice do Sr. João Franco num dos seus Ministérios anteriores, não consentindo nas reparações necessárias, e inutilizando assim um importante capital nacional que, pelo contrário, era mister valorizar e aumentar.

Nós não temos absolutamente nada.

Os costumes de administração foi o que deram: o País à beira da ruína; o desgraçado consumidor a braços com o imposto de consumo, que o leva à tuberculose e à miséria; o contribuinte cada dia mais incapacitado de panar as contribuições sempre crescentes; o proprietário disposto a abandonar as suas terras; o viticultor impossibilitado cie colocar os seis vinhos.

Sr. Presidente: é a situação mais ruinosa e mais miseranda que se pode encontrar percorrendo a história, ainda mesmo dos povos que mais têm descido na sua economia e nas suas finanças.

(...)

Que espécie de contas são essas, que é preciso tanto tempo para as liquidar, e são precisos créditos especiais para as regularizar e encerrar?

A quem respeitam essas contas? Quando foram abertas? Que conhecimento se deu delas à Câmara? Onde está o relatório do Sr. Ministro da Fazenda explicando que contas são essas? Que enigma ouguet apens é este, armado à ingenuidade da Câmara, ou à desejada cumplicidade de uma parte dela, para lhe arrancar o voto de aprovação, que constituirá o encobrimento de crimes, por isso que se dará poderes para, pelos créditos autorizados, se desviar dinheiro da sua legal aplicação

(...)

E por isso insisto em perguntar:

Para quem foram esses dinheiros? Quem autorizou essas despesas ilegais? Por que razão são precisos créditos especiais para o encerramento das respectivas operações?"

 

Discurso de Afonso Costa, deputado republicano, na Câmara dos Deputados

em 20 de Novembro de 1906.

 

 

 

Afonso Costa, ainda hoje, é o único presidente do Governo e ministro das Finanças português que, em contexto democrático, obteve dois superavites 1912-13 e 1913-14

 

(cf. Nuno Valério - Os Orçamentos no Parlamento Português, 2001) 

 

in https://www.publico.pt/politica/noticia/afonso-costa-e-o-revisionismo-em-historia-1701826

 

 

 

 

 

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