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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

pedro(a)s


Cecília

22
Jul19

Conheci a maturidade infantil

das crianças, mas também não é isso 

(...)

fartei-me de tentativas.

 

Desejo antes a ferida sólida

que não sara, o enigma, essa coisa

que se transporta inteira pelo Universo

como o irreprimível grito

do sangue no vento avisando

o futuro de que não ficámos ilesos

à espessa rede do Amor 

(...)

Aperta-me esse mitigado anel tão alto

(...)

porque a angústia, doce angor, e a esperança

informam o meu sangue

do regresso da tua ausência.

 

Barbeio a infâmia do nosso desencontro,

o homem pode punir-se numa higiene

precária, pode pintar-se e eu

cumpro imenso os rituais

do disfarce.

 

Fumo a tirania do meu medo, para mim

é sede de ser tarde

a vinda do teu húmido oásis

sotto voce e eu,

eu reduzido a nada.

 

A morte avança, ama-me sob a luz

da tua voz

cobrindo a terra elementar onde prometidos

potros de crinas soltas e alma leve

se opõem ao vazio. 

 

Paulo da Costa Domingos in Cabeças

 

 

Paulo da Costa Domingos – Carmina (1971-1994)
Antígona (1995)

 

 

 

 

honra deliciosa


Cecília

11
Jul19

Vá Com Deus
Vanessa da Mata
(Sereia de Água Doce)

 

Vejo o povo dizer
Que perdeu um amor
Que quando estava lá
Só rimava com dor
Isso não é perda
Isso é livramento

Nesse mundo tonto
Que vive rodando
Vejo tanta gente desesperada
Criando histórias
Criando pessoas
Criando paixões
Medo da solidão

Qual é o problema
De estar na sua própria companhia?

Vi um casal com sangue
Ligação de ódio
Eu sei que os dois
Já não viviam
Andavam nas ruas
Meio mortos vivos
Até que entenderam seu desamor

Qual é o problema
De estar na honra
De sua própria companhia?

Fazer o que der na telha
Autossuficiência
Que delícia
Qual é o problema?


(...)


Vá com Deus...

 

 

cuspir como Deus


Cecília

24
Abr19

Kuhn é um insensato. Não vê, na cama ao lado, Beppo, o grego, que tem vinte anos, e que depois de amanhã irá para o gás; e que, sabendo-o, fica deitado olhando fixamente a lâmpada sem dizer nada e sem pensar em mais nada? Não sabe Kuhn que a próxima será a sua vez? Não percebe Kuhn que hoje aconteceu uma coisa abominável que nenhuma oração propiciatória, nenhum perdão, nenhuma expiação dos culpados, nada, em suma, que esteja em poder do homem fazer, poderá nunca mais cancelar?

Se eu fosse Deus, cuspiria para o chão a oração de Kuhn. 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

MAY(be another)DAY


Cecília

03
Jul18

Voo Iran Air 655

Acidente aéreo


Data: 3 de julho de 1988 
Causa: Derrubado por foguete militar
Local: Golfo Pérsico
Coordenadas 26° 40′ N 56° 2′ E

Passageiros: 274
Tripulantes: 16
Mortos: 290
Feridos: 0
Sobreviventes: 0
Aeronave
Modelo Airbus A300B2-203

Prefixo EP-IBU


O voo 655 da Iran Air (IR655) era uma rota comercial entre Teerã e Dubai, com escala em Bandar Abbas. Em 3 de julho de 1988, a aeronave que fazia o percurso, no trecho entre Bandar Abbas e Dubai, foi derrubada por um míssil anti-aéreo disparado a partir da embarcação USS Vincennes, da Marinha dos Estados Unidos, resultando na morte de 290 passageiros, entre os quais 66 crianças.

 

De acordo com a apuração feita pelas autoridades dos Estados Unidos, o Vincennes identificou erroneamente a aeronave iraniana como um caça militar F-14A Tomcat em procedimento de ataque.

 

À época o país estava em guerra com o Iraque e tinha conhecimento de que os Estados Unidos apoiavam indiretamente o governo de Saddam Hussein, com informações de satélite e incentivo para que terceiros países lhe oferecessem material bélico. Os Estados Unidos, com a finalidade manter a estabilidade da oferta de petróleo, também vinham protegendo os petroleiros do Kuwait que transportavam as exportações de petróleo iraquiano. Nessa perspetiva, o Irã imaginou que a derrubada do Airbus representava um maior envolvimento dos EUA em favor do Iraque e propôs, em pouco tempo, um cessar-fogo a Saddam, que foi aceito em seguida.

 

in https://pt.wikipedia.org/wiki/Voo_Iran_Air_655

 

 

 

 

 

 

calar é certamente uma culpa


Cecília

19
Jun18

Em tempo de silêncio geral, o conformar-se com o calar da maioria é certamente uma culpa. Em tempos em que todos dizem demasiado, o importante não é tanto o dizer a coisa certa, que de qualquer modo se perderia na enxurrada de palavras, quanto dizê-la partindo de premissas e implicando consequências que dêem à coisa dita o seu máximo valor. 

 

 

 

Italo Calvino - Palomar (1983)

Planeta DeAgostini (2001)

 

 

 

a culpa é do governo


Cecília

23
Mai18

"Está um tempo insuportável! Como é que o governo não trata disto?" (...) resmungou o lobo. "Estou a dizer-lhes que a culpa é do Governo, e se não acreditam em mim, devoro-os a todos já!"

 

 

 

Oscar Wilde – O Menino-Estrela (1891)
Ilustração: Luís Henriques

Oficina dos Sonhos - Clássicos - Porto Editora (2008)

 

 

 

 

 

 

 

 

sabrás


Cecília

09
Jan18

Matsu nunca prometeria parar de chorar. Acalmara, mas sabia bem que a felicidade se compunha da soma de muita tristeza também. 

 

 

Valter Hugo Mãe – Homens imprudentemente poéticos

Porto Editora (2016)

 

 

 

 Sabrás que he cumplido firmemente,
Tú sabrás, mi promesa de quererte hasta el final,
Que he esperado tanto tiempo,
Y aún puedo más.
Sabrás que yo he sido la primera,
Tú sabrás, en escribirte una canción que te recuerde aquella vez,
En que mi cuerpo temblaba,
Porque tus manos en cada abrazo,
Me hicieron sentirme segura,
Siempre a salvo, a salvo.
Y tus besos, a cada paso,
Me hicieron sentirme segura,
Siempre a salvo, a salvo.

Quizás no he encontrado la manera hoy,
Quizás de hacer de tripas corazón,
De conformarme con vivir anclada
A un sueño que amaba
Porque tus manos en cada abrazo,
Me hicieron sentirme segura,
Siempre a salvo, a salvo.
Y tus besos, a cada paso,
Me hicieron sentirme segura,
Siempre a salvo, a salvo.

Quiero que comprendas que sin ti no tengo nada,
Que aposté toda mi vida, y que a lo hecho pecho,
Siento que te marches aunque nunca digas nada,
Aunque no tenga derecho a recibir mañana.
Puede que el futuro no me lleve hasta tu casa,
Pero sigo decidida a no ceder por hoy.
Si tus manos a cada paso,
Me hicieron sentirme segura,
Siempre a salvo, a salvo.
Y tus besos, a cada paso,
Me hicieron sentirme segura,
Siempre a salvo, a salvo.

prato da semana: MEA CULPA requentada


Cecília

29
Jul16

" Os homens nunca se contentam... E eu, a falar franco, fartei-me deste Imprevisto Anárquico do Sonho em que vivi e agora apetece-me voltar a provar aquilo a que chamamos Realidade...Além disso... Ouve: vou dizer-te um segredo... mas promete-me que não o revelas a ninguém... Prometes? Na verdade, o fito principal do meu regresso talvez seja o de tentar revolucionar Chora-Que-Logo-Bebes... endireitar as espinhas dorsais das pessoas... secar as lamentações covardes dos Choraquelobebenses... pregar a reorganização viril da vida em novas bases... (...) E assim, com a mesma facilidade de quem fura nuvens, João Sem Medo coou-se como um espectro através da Muralha, a esfarrapá-la com as botas até alcançar a terra santa de Chora-    -Que-Logo-Bebes que pisou com comoção feliz onde se misturava o prazer do obstáculo vencido, a vaidade próxima de poder enfim contar proezas da viagem aos amigos ( e porventura também, já timidamente esboçado, o arrependimento do regresso). (...) Mas enriqueceste, ao menos? Trazes dinheiro  para me fazeres um enterro decente quando chegar a minha horinha? 

    - Não, minha mãe. Nem é necessário. Porque a vida da nossa aldeia vai modificar-se radicalmente.

E com ímpeto de sentir um comício na garganta, galgou até ao cimo de um penedo e desatou a discursar aos chorincas que o rodeavam:

    - Cidadãos! Precisamos de organizar uma conspiração urgente contra as lágrimas mal choradas. E rasgar o musgo das faces. E tirar o verdete das bocas. (...)

Mas, pouco a pouco, a um e um, os Crolaquelogobebenses, apavorados com estas palavras que perturbavam a vocação geral para mortos e a paz podre das longas digestões da Fome, começaram a esquivar-se à sorrelfa (...)

    - Deixa essas ideias, meu filho... Não estragues o nosso rico sossego, a nossa aprendizagem para cadáveres. E chora, chora, chora como nós. Derrete-te em lágrimas e desiste. 

     - Não, não desisto, Mãe - berrou teimoso e temerário (por fora).

 Mas ao mesmo tempo (...) foi murmurando à mãe com certa prudência prática de homem cansado:

   - Não desisto, Mãe. Não desisto, percebe?... Mas provisoriamente, para restaurar as forças, sabe o que me apetecia agora?... Um jantarinho cá dos nossos... (...) Mas não cuide que desisto da luta! Não! Jamais!... É só um apetite... 

(...) E a pobre lá foi cozer o bacalhau demolhado em lágrimas. 

Então, João Sem Medo, sempre à espera de não sabia bem de quê... talvez do milagre que um dia o ajudasse a secar aquelas lágrimas da Terra... talvez esperançado na chegada do outro João Sem Medo que, afinal, apenas o procurava de noite, durante o sono...

.... Então, João Sem Medo, provisoriamente, sempre provisoriamente, vendo tantos olhos a chorar... montou uma fábrica de lenços e enriqueceu. 

( Ah! Mas um dia, um dia!...) " 

 

José Gomes Ferreira  – Aventuras de João Sem Medo (1963)

 

Licença Editorial por cortesia de Publicações Dom Quixote para Círculo de Leitores (Dezembro,2003)

 

 

Dedicatória da Primeira Edição (1963)

 

 

Para os meus dois filhos:

Para ti, Raul José, homem há muito - e homem autêntico - , que aprendeste à tua custa que

a verdadeira coragem é a força do coração... 

 

Para ti, Alexandre, ainda criança, mas já com todas as tendências para não te tornares num desses falsos adultos que sujam o mundo e odeiam a Imaginação... 

 

Para os meus dois filhos - o homem e a criança - este Divertimento escrito por quem sempre sonhou conservar a Criança bem viva no Homem.