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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

projetoamelia.org/apelo

13.05.21

No dia 1 de Fevereiro deste ano, o exercido to Myanmar executou um golpe de estado. Desde então mais de 750 pessoas, incluindo crianças, foram assassinadas. Este número aumenta todos os dias. 

Durante mais de três meses, o único hospital pediátrico que oferece tratamento a crianças com cancro esteve fechado. Foram três meses sem diagnosticar novos casos, sem operações e tratamentos urgentes.

Não basta estarem a lutar contra um cancro, estas famílias perderam a liberdade e o acesso ao tratamento que pode salvar as suas crianças. 

O hospital pediátrico de Yangon reabriu esta semana. Apesar dos riscos de segurança, a equipa do Projeto Amélia e da organização World Child Cancer estão a contactar as famílias que precisam de tratamento urgente. 

Mas precisamos da sua ajuda e de mais fundos. Com a sua ajuda, podemos oferecer a estas famílias os custos da viagem que demora em média 12 horas e que agora mais do que nunca, é urgente e precisa de ser feita em segurança. 

 

 

http://www.projetoamelia.org/apelo

 

 

reflexos certos

12.05.21

Luís Ribeiro e Maria Adosinda, o irmão e a cunhada, recordam o gozo que António punha em caricaturar algumas das suas clientes mais altivas, até por ter sentido na pele as barreiras sociais que o tinham marcado com o ferro em brasa do desprezo que os citadinos votavam aos rurais. Tinha 11 anos quando, vindo de Fiscal, Braga, desembarcara em Lisboa, mas os irmãos afirmam que, tanto tempo depois ele ainda «sofria com este tipo de coisas». Por outro lado, os relatos também referem, de forma unânime, o cuidado, o carinho, a gentileza que punha no trato com os idosos, e a forma como costumava dizer: «Toda a gente dá um beijinho e uma carícia a um bebé, mas esquecem-se dos idosos, que têm necessidades ainda mais importantes que uma criança, e ninguém lhes liga nenhuma». Era um homem calado, mas irónico, com um pendor satírico que poucos terão conhecido. Os irmãos e os amigos mais chegados recordam que ironizava muito com as coisas. E reagia, perante alguém que pensava que era superior a ele. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

memória coletiva

11.05.21

«No dia 10 de maio de 1940, fomos acordados em sobressalto por um barulho estranho; lá fora estava um belo dia cheio de luz e vimos aviões sobrevoando Bruxelas, largando bombas que pareciam grandes objetos cor de prata, brilhando ao sol. Ao ligarmos a rádio, ouvimos dizer que a Bélgica, a Holanda e o Luxemburgo tinham sido invadidos na vèspera pela Alemanha e a população era convidada a manter-se à escuta para ouvir outras informações» [...] Foi assim, de surpresa, como era próprio da Blitzkrieg. Não se avisava ninguém e era só avançar, aterrorizando e esmagando o povo invadido. Os belgas, os franceses e outros povos voltavam 20 anos para trás. As estradas tornaram a encher-se de famílias que levavam alguns bens que na desgraça lhes pudessem valer, e alguns alimentos. Os belgas dizem que dois milhões de compatriotas seus se puseram em fuga. Outros falam em dois milhões e meio.

Nesta sua crónica mais tarde transformada em livro, Lucie Matuzewitz continua a descrever a sua odisseia [...] «Apanhámos o último comboio que saía para Paris; os comboios seguintes foram bombardeados e nunca chegaram ao destino. As estradas estavam completamente bloqueadas com automóveis dirigindo-se para sul [...] havia aviões que metralhavam em voo picado os refugiados que caminhavam ao longo das estradas [...] passámos uma noite muito agitada, porque uma bomba caiu ao lado da Torre Eiffel, perto do nosso hotel [...]. Decidimos ir para Bordéus. Infelizmente, poucos dias depois todo o governo francês estava nesta cidade. Uma nuvem de refugiados vindos do norte de França, da Bélgica, da Holanda, deambulava agora pelas ruas, dormindo nos parques e nas estações, não encontrando alojamento [...].»

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

+more+me

05.05.21

There were people on the sidewalks, many were young people with kids or strollers, and they all seemed to be talking to one another. This fact impressed him. How easily they took this for granted, to be with one another, to be talking! 

 

Elizabeth Strout – Olive, Again (2019)
Penguin Random House UK (2019)

 

 

pés para cima

15.04.21

 

Também davam longos passeios à beira-mar, que António tanto apreciava, e costumavam ir para o 2001, em Cascais, onde ficavam a dançar toda a noite:

- O António não se drogava, não fumava e não bebia bebidas alcoólicas. Eu também não. Quer dizer, bebia, mas nada de exageros.  Mas toda a gente pensava que sim, porque passávamos a noite aos pulos.

Um outro amigo da época, o Paulo, mais tarde ligado ao cinema, lembra-se de o ver na Fonte da Telha, à Caparica, imóvel no areal deserto a fazer ioga. «Punha-se de cabeça para baixo, pés e pernas para cima, apoiado nos braços, em frente ao mar, a meditar.»

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

(agressão)

06.03.21

É a que nunca teve sorte e tinha um grande amor que merecia a felicidade. 

 

António Ramos Rosa in  MUSAS  - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

ginásio da despreocupação

08.01.21

Eu detestava aquele tipo de agitação, o género de sexo à Los Angeles, Hollywood, Bel Air, Malibu e Laguna Beach. Estranhos quando nos encontrávamos, estranhos quando partíamos - um ginásio de corpos anónimos a masturbarem-se mutuamente. As pessoas sem moral consideravam-se muitas vezes livres, mas sobretudo eram incapazes do mínimo sentimento ou de amor. Por isso eram despreocupadas. Os mortos a foderem os mortos. Não havia nem risos nem humor nos seus jogos - era um cadáver a foder outro cadáver. 

 

Charles Bukowski – Mulheres (1978)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2003)

 

 

galas

08.01.21

Mal consigo conter o entusiasmo para ver a sociedade educada passar horas a fingir que se importa com as crianças, quando ignora a fome nas ruas. 

 

Grace Burrowes – Coração Ardente (2017)

Quinta Essência (2019)

 

 

ciclos

10.12.20

...Voz do Operário onde, estudando à noite, parece que acabou por conseguir o seu diploma de Curso Comercial - cinco anos, fora os dois que lhe faltavam do ciclo preparatório. Curso exigente, cheio de disciplinas difíceis, cálculo comercial, contabilidade, economia política, técnica de vendas, geografia geral, história, datilografia, estenografia, português, francês, inglês. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

evidências

19.11.20

O António detestava pessoas presumidas. Então, brincávamos com as situações e analisávamos coisas que, para um psicólogo, seriam muito interessantes. Por exemplo, certas atitudes, logo de manhã, que evidenciavam por parte de algumas das nossas clientes uma óbvia falta de relações sexuais ou uma grande frustração nesse campo. De que outra forma se podia explicar o comportamento daquela mulher mal-disposta, pronta a explodir, como se tivesse vontade de bater no cabeleireiro? 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)