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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Aristides III

Cecília, 09.06.20

O ano de 1991 é de eleições legislativas em Portugal, e como é habitual os partidos vão para a estrada, percorrer o país em campanha eleitoral. O PSD, liderado pelo então primeiro-ministro, Cavaco Silva, passa por Carregal do Sal, perto de Cabanas de Viriato. Uma senhora amiga da minha tia Joana ("a teimosa") convida-a a passar lá uns dias, de modo a que possa encontrar-se, de passagem, com Cavaco Silva, para o interpelar sobre o 3.º artigo da Lei de Reabilitação de 1988 (a indemnização à família), que continuava por cumprir. Cavaco Silva, amavelmente, respondeu a Joana:« O seu pai era certamente um homem bondoso, mas... desobedeceu, lamento, minha senhora.» O processo não avançou (...)

Em 2005 recebo um convite para ir assistir a uma conferência na Universidade Católica, no Edifício João Paulo II. Era de Otto von Habsburg, que tinha vindo a Lisboa proferir uma conferência sobre o seu falecido pai, o último imperador da Áustria, recentemente beatificado. O auditório estava cheio de gente, e entre eles, em lugar de destaque, o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, e a mulher. As primeiras palavras de Otto von Habsburg foram para dizer que iria dedicar 15 minutos à memória de Aristides de Sousa Mendes, o homem a quem ele devia a vida e a possibilidade de ali estar naquele dia, graças à sua ação de salvamento em Bordéus, durante a Segunda Guerra, desobedecendo a ordens superiores. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

Aristides II

Cecília, 09.06.20

Disse-me também que queria organizar uma homenagem ao meu avô no Parlamento Europeu, mas teria de ser com a participação dos colegas portugueses do seu grupo parlamentar. Só que em 1986, os colegas portugueses não estavam preparados para tal iniciativa, e não «desejaram» que tal homenagem se realizasse.

Otto von Habsburg não compreendeu esta atitude dos eurodeputados portugueses, e escreveu-me uma carta de consolação, à qual respondi dizendo que era uma questão de tempo. Aliás, a partir deste encontro, Otto von Habsburg, acompanhará e participará na evolução de toda a dinâmica de reabilitação do bom nome do meu avô (...) « Quero mais uma vez dizer-lhe, por escrito, o quanto estou eternamente grato ao seu avô. Foi um grande cavalheiro, um homem de uma coragem e de uma integridade admiráveis, que serviu os seus princípios em detrimento dos seus interesses pessoais. Num período em que muitos homens foram cobardes, ele foi um verdadeiro herói do ocidente. Pode orgulhar-se do seu avô!»

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

 

Aristides I

Cecília, 09.06.20

Em 1987, o Presidente da República, Mário Soares, é convidado a ir aos Estados Unidos receber um doutoramento honoris causa pela Universidade de Carlton, em Washington D.C. No seguimento desta troca de cartas, o Congressso Federal americano pede-lhe que conceda uma condecoração ao cônsul, e que a entregue à família na embaixada de Portugal nessa cidade. Pedem-lhe a mais alta condecoração portuguesa, e os jornais americanos dão notícia disso. Mário Soares, apesar de ser o chanceler de todas as ordens honoríficas, como Presidente da República, quis consultar o primeiro-ministro de Portugal, que se manifestou contrário à atribuição da mais alta honra ao meu avô. Mário Soares cedeu. O primeiro-ministro português, nessa altura, chamava-se Aníbal Cavaco Silva (...)

A grande homenagem civil teve o seu ponto alto no Tivoli, em Lisboa. O presidente Mário Soares, desta vez, decidiu não consultar o primeiro-ministro Cavaco Silva, como contou, e surpreeendeu todos quando chamou o filho mais novo de Aristides, John Paul Abranches, e tirou do bolso do casaco uma caixa vermelha contendo a Grã-Cruz da Ordem de Cristo, o grau mais alto, atribuindo-a postumamente ao cônsul de Bordéus. 

O escultor João Cutileiro concebeu uma medalha de bronze a evocar o desespero e o isolamento deste cônsul desobediente que se sentiu abandonado e expulso da sociedade por ter reagido contra a violência, e atuado em prol dos direitos humanos. Na medalha, além do nome, apenas se consegue ver um «homenzinho» no meio de um deserto de desumanidade. Esta medalha pode ser admirada na estação Parque do Metro de Lisboa, numa coluna junto à bilheteira. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)