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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

mute

20.05.21

Silêncio do incontível, como

recusar a veemência

desta cegueira? [...]

Artérias vivas,

estrelas, relâmpagos,

jorrarão da obscuridade vermelha?

 

António Ramos Rosa in MEDIADORA DO MUTISMO - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

espíritos lacrados

15.03.21

Todo o processo foi em seguida guardado num envelope e lacrado, significando que era confidencial e não poderia ser aberto sem autorização superior. 

Foram precisos 36 anos, mais a morte do ditador, uma revolução em 1974 e a queda do regime, até que, já em democracia, um ministro dos Negócios Estrangeiros, Melo Antunes, se tenha dignado mandar romper esse lacre, para que finalmente o país pudesse ter acesso a tal processo e os descendentes do cônsul de Bordéus pudessem começar a pensar que iria ser feita justiça [...]

Bessa Lopes resume o despacho ministerial contra Sousa Mendes como «hipócrita, ilegal e iníquo (por tudo isso, o processo conservava-se muito bem guardado em envelope lacrado) [...]

Aberto o envelope lacrado, verificou-se que dele não consta qualquer notificação ao "condenado" para o inteirar da decisão final, e que a pena aplicada, além da inatividade por um ano com apenas metade do vencimento da categoria, foi a aposentação compulsiva (e não a demissão), pena que não estava sequer prevista na lei (portanto, tudo isto era manifestamente ilegal).

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

in https://knoow.net/arteseletras/literatura/banda-desenhada/

 

formalidades

22.04.20

Sabia também que as pessoas mentiam. E que o faziam de todas as maneiras possíveis. Mentiam umas às outras, mentiam-lhe a ele e mentiam a si próprias. Apanhava versões contraditórias acerca do mesmo assunto. As pessoas inventavam tudo e mais alguma coisa para fugir à verdade. Por isso não eram crentes do fundo do coração. Cumpriam uma formalidade, na confissão. Nada mais. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

 

 

desabafar e dar graças

21.05.19

De manhã, vai até ao Convento, confessar-se a Frei Martinho. É que nunca passou por tantos perigos e nunca os pecados lhe correram tão bem, de modo que há que desabafar e dar graças a Deus. 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

(...)

02.01.17

Diz o meu nome 

pronuncia-o 

como se as sílabas te queimassem 

                                                        [ os lábios 

sopra-o com suavidade 

de uma confidência 

para que o escuro apeteça 

para que se desatem os teus cabelos 

para que aconteça 

 

Porque eu cresço para ti 

sou eu dentro de ti 

que bebe a última gota 

e te conduzo a um lugar 

sem tempo nem contorno 

 

Porque apenas para os teus olhos 

sou gesto e cor 

e dentro de ti 

me recolho ferido 

exausto dos combates 

em que a mim próprio me venci 

 

Porque a minha mão infatigável 

procura o interior e o avesso 

da aparência 

porque o tempo em que vivo 

morre de ser ontem 

e é urgente inventar 

outra maneira de navegar 

outro rumo outro pulsar

para dar esperança aos portos 

que aguardam pensativos 

 

No húmido centro da noite 

diz o meu nome 

como se eu te fosse estranho 

como se fosse intruso 

para que eu mesmo me desconheça 

e me sobressalte 

quando suavemente 

pronunciares o meu nome 

 

Mia Couto in Confidência (agosto 1979)

 

"Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

Editorial Caminho - novembro de 1999