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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

22
Mar22

estantes

Cecília

Coleccionei loucos, como imagino que aconteça com toda a gente que atende ao público; apanhei vários ladrões de livros em flagrante, mas fui enganado por muitos mais; tentei despistar stalkers, que faziam por decorar os turnos de algumas colegas mulheres (como pudemos perceber pelas entrevistas, elas continuam a ser um alvo preferencial das atitudes mais condenáveis); disse muitas vezes «Esse livro está esgotado», disse muitas menos «Esse livro é incrível». Tirei satisfação genuína (e a espaços mesquinha) dos erros nos pedidos por parte de inúmeros clientes. «O Gato Marado e a Andorinha Sei Lá», de Jorge Amado. «A Sida e a Arte», de Hermann Hesse. «O Processo Civil», de Franz Kafka. «Portugal Hoje, o Medo de Existir», do professor José Cid.

 

Pedro Vieira – Em que posso ser útil? (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Pedro Vieira (2021)

 

 

21
Dez21

livramentos

Cecília

Ele vê todas as coisas com os contornos desmaiados [...]  Não posso expor a minha paixão absurda e violenta à sua simpatia compreensiva [...] Preciso de alguém cuja mente caia como um machado no seu cepo; para quem o cúmulo do absurdo seja sublime, e considere um simples atacador como algo digno de admiração. A quem poderei desvandar a urgência da minha paixão? O Louis é demasiado frio, demasiado universal. Não há ninguém aqui - entre estas arcadas cinzentas, estes tolos que se lamentam, estes jogos e animadas tradições, tudo organizado com grande mestria para que não nos sintamos sós.

 

Virginia Woolf – As Ondas (1931)

Colecção Mil Folhas / Bibliotex SL / M.E.D.I.A.S.A.T. e Promoway Portugal Ltda (2002)

 

créditos imagem https://www.eagence.com.br/blog/entenda-como-marcas-famosas-utilizam-a-psicologia-das-cores/

 

20
Out21

la fête, tu la passes aux toilettes

Cecília

No passado, todos sabemos, a superioridade do branco justificou a escravatura e o colonialismo e, ao mesmo tempo, a sua missão redentora de povos inferiores. Exemplares desses povos eram exibidos nos finais do século XIX e ainda no século XX em feiras e exposições, verdadeiros «Zoos Humanos», que tinham lugar nos países europeus. Essas exposições eram motivo de diversão e, ao mesmo tempo, motivo de demonstração da superioridade da civilização ocidental.

 

Jorge Vala – Racismo, Hoje, Portugal em Contexto Europeu (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Jorge Vala (2021)

 

 

20
Set21

consciências desfasadas

Cecília

Em Portugal, a tomada de consciência de que o racismo é incompatível com a democracia e os valores de liberdade e igualdade é ainda mais recente do que no resto da Europa. Após a II Guerra Mundial, Portugal não podia fazer a condenação oficial do nazismo e do fascismo pois fora um ator supostamente neutro nesse processo e era governado por uma ditadura. Além disso, Portugal era um Estado colonial, sendo as relações com os povos das colónias africanas reguladas nomeadamente pelo «Estatuto dos Indígenas», entre 1926 e 1961. É nesta última data que aquele estatuto é revogado por nova legislação, introduzida quando a guerra colonial já se havia iniciado. Esta nova legislação, que corrige marcadamente a versão de 1926, é mais uma consequência do pavor da luta pela independência das colónias do que de uma genuína promoção de relações de trabalho justas. Esta observação é sustentada pelo facto de, dez anos após a legislação de 1961, a Organização Internacional do Trabalho ainda considerar que Portugal não respeitava nas colónias os princípios defendidos por essa mesma organização.

Com o 25 de Abril, o espírito da Declaração Universal dos Direitos Humanos foi integrado na Constituição de 1976 e entrou progressivamente nas instituições portuguesas. Porém, só em 1978, 30 anos após a aprovação pela ONU da Declaração Universal dos Direitos Humanos, Portugal apoia essa declaração, ao mesmo tempo que subscreve a Convenção Europeia dos Direitos do Homem, criada em 1953. 

 

Jorge Vala  – Racismo, Hoje, Portugal em Contexto Europeu (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Jorge Vala (2021)

 

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29
Jun21

país(es)

Cecília

Um país se delimita nas mudanças do vento.

Labirinto ou fábrica de espumas sempre aberta. 

Sinuosas continuidades, dunas de pensamento, 

por vezes um abrigo, ninho de primavera,

por vezes um polvo ardendo nas areias. 

 

António Ramos Rosa in UM PAÍS, UM POEMA - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

02
Jun21

cornos e dores

Cecília

Quando os refugiados começaram espontaneamente a aplaudir na rua o cônsul Sousa Mendes, exclamando «Viva Portugal!», Faria Machado ficou atónito. Pouco tempo depois, contará a colegas, no MNE, em Lisboa, este e outros episódios do género a que assistiu, levando a que durante o período em que decorria o processo disciplinar, certos funcionários e diplomatas na capital afirmassem com ar de troça que Aristides de Sousa Mendes se teria feito aplaudir por exibicionismo... Claro que é preciso não esquecer que naquela época ainda havia pessoas em Portugal que achavam que não havia ninguém em perigo de vida na França ocupada. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

14
Mai21

figuras cheias de cor

Cecília

E ele era uma figura apaixonante no deserto desta cidade tão provinciana na época, com uma meia de cada cor, os roupões, o fato-macaco, os sapatos diferentes, o visual tão criativo e tão fantástico. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

24
Mar21

sair

Cecília

Quase ao mesmo tempo em que surge o "caso Wiznitzer" aparece outro que vai aumentar as queixas contra Aristides de Sousa Mendes por parte das autoridades nacionais - da PVDE e do MNE. O "caso Eduardo Neira Laporte" [...] um "indesejável" para a PVDE. No caso de Neira Laporte havia uma componente política que afetava o regime salazarista. Desde o início da Guerra Civil de Espanha, em 1936, que havia uma colaboração do salazarismo com o franquismo, em que a polícia portuguesa detinha e entregava à polícia espanhola muitos "refugiados vermelhos", que acabariam por ser fuzilados. Laporte tinha sido um resistente ao franquismo, e para a PVDE já tinha destino marcado - não iria muito longe. 

No entanto, «o cônsul rebelde», que via nele apenas um professor da Universidade de Barcelona com excelentes referências das autoridades francesas e já com passagem de barco de Lisboa para a Colômbia, envia a 3 de fevereiro de 1940, ao Ministério português dos Negócios Estrangeiros, um pedido de autorização para visar o seu passaporte. A 11 de março, o MNE, com a sua habitual lentidão (para ganhar tempo), envia a recusa para o cônsul, mas no dia a seguir, a 12 de março, Laporte chega a Lisboa com visto assinado por Aristides, que entende que em tempos de guerra, mesmo que seja uma drôle de guerre, não devem fazer-se esperar seres humanos. Sincronização certa. Ficava a questão para o regime: o que fazer com Eduardo Neira Laporte? 

[...]

as últimas notícias que se souberam na época, foi que conseguiu também sair daquela Europa enlouquecida, e terá ido mesmo para a Colômbia, exercer o ensino da medicina. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

25
Fev21

cada uno con su devenir

Cecília

Em França, os crimes contra a Humanidade não prescrevem, e em 1997 começou o célebre Processo Papon, justamente em Bordéus. No termo deste processo, Maurice Papon, secretário-geral da Gironda entre 1942 e 1944 sob o regime de Vichy, foi considerado responsável pela deportação de milhares de franceses por serem judeus. Na sua defesa diz que «cometeu os "tais crimes" apenas porque obedeceu a ordens superiores [...] portanto devia ser considerado inocente». É então que aparecem observadores, entre eles o Père Bernard, que vêm clamar que na mesma cidade de Bordéus, em 1940, houve um cônsul que desobedeceu às ordens dos seus superiores para não colaborar em «chacinas». Maurice Papon foi condenado em 1998 pela justiça francesa a dez anos de prisão por cumplicidade em crimes contra a Humanidade, pois devia ter tido em consideração o aspeto moral das ordens recebidas, e devia ter desobedecido.

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

30
Ago19

gente de pau

Cecília

O capitão de Intendência Octave Rigault tem uma verruga avantajada, na asa da narina direita. Esta contrariedade remedeia-a o artista facilmente, postando-se de forma a fixar o modelo a três quartos (...) 

O génio matemático que Raimundo tem diante de si e do cavalete está enroupado de gala, com muitas condecorações no lado esquerdo da casaca azul do uniforme. No rosto esquinado e magro, abundam os ângulos e, para além da verruga no nariz oculta pela posição de três quartos, não se lhe vislumbra nada de interessante (...) Aguenta quase três horas completamente imóvel e calado, inexpressivo, e nem uma ruga se divisa na roupa impecável. Raimundo experimenta a sensação estranha de estar a pintar um pau fardado. 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

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