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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

ou se imagina ou se lava as mãos

27.11.20

Chegaram a Bordéus mesmo no fim de setembro, na altura exata em que se desenrolavam os tristes célebres Acordos de Munique (29 e 30 de setembro de 1938), no âmbito dos quais os representantes de França e de Inglaterra acabariam por ceder periogosamente às pressões da Itália de Mussolini e, sobretudo, da Alemanha de Hitler, deixando que este último anexasse o território dos sudetas, na Checoslováquia. Não só não apaziguaram Hitler e o Reich, como, pelo contrário, lhe deram mais força e convicção para os seus avanços [...] E todos estavam muito longe de imaginar as consequências. O Anschluss, que anexou a Áustria à Alemanha, tinha sido consumado em março desse ano, e a Noite de Cristal iria acontecer daí a dois meses. Essa noite marcaria o início da ofensiva aberta contra os judeus, aos quais já tinham sido retirados os direitos cívicos, e que já estavam afastados da vida económica na Alemanha e nos territórios anexados [...]

Em Portugal, o governo e as autoridades que, claro, iam acompanhando os acontecimentos apesar da distância, iam definindo uma espécie de orientação no sentido de "afastar" possíveis problemas que certas "categorias de pessoas" pudessem vir a causar, em função dos interesses de Salazar e do regime. Assim, em outubro de 1938 (11 meses antes da declaração de guerra), Salazar introduz novas restrições aos vistos para judeus que quisessem entrar no nosso país, exigindo-lhes que adquirissem vistos de turismo por períodos de 30 dias, se precisassem de entrar no nosso território. Uma forma de limitar o acesso a Portugal e de travar assim eventuais planos de "certas pessoas". Surgiu, então, a célebre Circular 10, de outubro de 1938, que seria progressivamente endurecida por outras, até 11 de novembro de 1939, já em plena Segunda Guerra Mundial, com a Circular 14, e sob forte controlo da polícia política portuguesa, a então PVDE (a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado). 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

 

patamares de consciência

06.10.20

https://www.facebook.com/BlackOnBlackCtv/videos/3336583673029763/

 

Se você fica neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor.

Desmond Tutu

 

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modernidade

09.12.19

Voltando a citar Pinker: «A aversão à modernidade é uma das grandes constantes da crítica social contemporânea. Quer seja a nostalgia pela intimidade das cidades pequenas, pela sustentabilidade  ecológica, pela solidariedade comunitária, pelos valores familiares, pela fé religiosa, pelo comunismo primitivo ou pela harmonia com os ritmos naturais, todos querem que o relógio retroceda. O que a tecnologia nos deu, questionam eles, excepto a alienação, a espoliação, a patologia social, a perda de sentido e o consumismo que está a destruir o planeta para nos dar McMansions, utilitários desportivos e reality shows na televisão? 

Os defensores da modernidade, por outro lado, sublinham as dificuldades diárias anteriores às sociedades sedentárias, e como os nossos antepassados «viviam infestados de piolhos e parasitas em caves atulhadas com as suas próprias fezes (...) Mas não era apenas o mais elementar conforto que faltava aos nossos antepassados. Eram também as coisas mais elevadas e nobres da existência, como conhecimento, beleza e contacto humano. Até há pouco tempo, a maior parte das pessoas não viajava mais do que alguns quilómetros para lá do seu lugar de nascimento

 

Afonso Cruz_ O macaco bêbedo foi à ópera - Da embriaguez à civilização (2019)
Fundação Francisco Manuel dos Santos e Afonso Cruz (2019)

 

Uyo Meyo (English translation)
Artist: Teni (Nigeria) (Teniola Apata)

Let's Rejoice


Let's dance always, let's always rejoice
The joy I have expressed for others shall be my portion too
I rejoiced with you, I rejoiced with you
I rejoiced with you and now it is my time to rejoice
I rejoiced with you, I rejoiced with you
The joy I have expressed for others shall be my portion too

Everybody's born a winner, yeh yeeh
If only you just believe, yea eh yeh eh
Close your eyes and come and see, nah yea eh yeh eh
Don't you worry about a thing, nah

Cause if you work hard
You can get it if you work
If you strive hard
You can be just what you want
If you work hard
You can climb the mountain tall
Cause nothing is too small
And nothing is too big

I rejoiced with you, I rejoiced with you
The way I celebrate and rejoice with other people, it is my turn to be celebrated
I rejoiced with you, I rejoiced with you
The joy I have expressed for others shall be my portion too
Eh yeh

What my eyes have seen, eyeh
What my eyes have seen, ye yeh
Don't let them tell you "you can't"
And they won't help you, just so you know
Just keep on pushing oh oh uh oh

The heights my father was not able to attain
I will attain that height and surpass it
The heights my mother was not able to attain
I will attain that height and surpass it
May my Ori bring me wealth
May my Ori bring me wealth
Do not sleep, my Ori!

I rejoiced with you, I rejoiced with you
The way I celebrate and rejoice with other people, it is my turn to be celebrated
I rejoiced with you, I rejoiced with you
The joy I have expressed for others shall be my portion too

Here are my hands, they are clean and pure
I’ll progress confidently or I’ll go higher with confidence
Teni, I'm a true born, I am Apata's daughter
I'm resolute, I stand unshakable on my feet
They thought I was finished
But God had other plans
They thought it was over,
But God said it’s not over yet!
Children's are one's clothing in this life
Olaosebikan, you must not sleep (in heaven)!
May you stand by me everyday
Don’t let my enemies collide with my Ori (destiny), please!
Wherever you are, I know you are proud of me
Because I'm an achiever, I'm a success in my life!
Because I'm a bold conqueror

I am fortunate in life, I'm an achiever
I've done well in life.

https://lyricstranslate.com/en/uyo-meyo-lets-rejoice.html

 

saber saber

12.11.19

 

Sem cultura, não somos capazes de apreciar certas coisas. 

 

 

Afonso Cruz_ O macaco bêbedo foi à ópera - Da embriaguez à civilização (2019)
Fundação Francisco Manuel dos Santos e Afonso Cruz (2019)

 

 

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in https://ribeiraopretoculturaljaf.blogspot.com/2019/02/geracao-mimimi.html

 

 

o que nos distingue

01.11.19

«Beber quando não temos sede e fazer amor em qualquer altura do ano, minha senhora; é isso que nos distingue dos animais» (Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais, Le Mariage de Figaro).

 

 

Afonso Cruz_ O macaco bêbedo foi à ópera - Da embriaguez à civilização (2019)
Fundação Francisco Manuel dos Santos e Afonso Cruz (2019)

 

 

 

 

gretas da vida moderna

30.10.19

«Passamos o tempo a criar coisas para não nos mexermos, carros para não termos de andar, controlos remotos para não nos levantarmos do sofá, e depois pagamos um ginásio. Pagamos porque criamos utensílios que nos permitem evitar actividades físicas (...) E é exactamente por isso, devido a essa extrema sedentarização, que nos vemos obrigados a mexer-nos. Para isso, basta pagar por uma coisa que evitamos a todo o custo e pela qual trabalhamos tantas horas diárias durante tantos anos: esforço físico. Passar essas oito horas diárias num escritório acinzentado, sentados, e ainda pagar para fazer exercício físico é uma excelente parábola da vida moderna». 

 

Afonso Cruz_ O macaco bêbedo foi à ópera - Da embriaguez à civilização (2019)
Fundação Francisco Manuel dos Santos e Afonso Cruz (2019)

 

 

 

delicadezas de estilo

28.10.19

 

O mais delicado champanhe não passa do desperdício de uma festa, daquilo que as leveduras decidiram cagar depois de se empanturrarem do açúcar das uvas. 

 

 

Afonso Cruz_ O macaco bêbedo foi à ópera - Da embriaguez à civilização (2019)
Fundação Francisco Manuel dos Santos e Afonso Cruz (2019)

 

 

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Champagne at the Hotel Room

Marc Ferrero

 

 

galáxia espiral barrada

10.10.19

« O álcool é uma molécula rara na natureza. Além da sua produção pelas leveduras, a síntese alcoólica está limitada à germinação de sementes e alguns tipos de bactérias. Essas bactérias tendem a gerar maus sabores - que podem estragar a cerveja e a sidra -, mas, para gáudio dos cervejeiros, dificilmente competem com as leveduras. O álcool também é produzido sem intervenção biológica, em nuvens interestelares. A maior destas nuvens moleculares próxima do centro da Via Láctea chama-se Sagitário B2, e contém álcool suficiente para encher 1028 garrafas de vodca, que, curiosamente, pesariam cinco vezes mais do que todos os planetas do Sistema Solar» (Nicholas P. Money, The Rise of Yeast - How the Sugar Fungus Shaped Civilization). 

Quando falamos em 100 000 000 000 000 000 000 000 000 000 garrafas de vodca, só em uma das nuvens moleculares da Via Láctea, já não nos parece tão pouco (tenho amigos que discordariam, mas não serão a maioria). São restos, mas, de certo ângulo, causam a sua impressão. Talvez o «lácteo» da nossa galáxia não seja o baptismo mais apropriado. 

 

Afonso Cruz_ O macaco bêbedo foi à ópera - Da embriaguez à civilização (2019)
Fundação Francisco Manuel dos Santos e Afonso Cruz (2019)

 

livre de influências

27.09.19

...as ficções sociais não são gente, em quem se possa dar tiros... Você compreende bem? Não era como o soldado de um exército que mata doze soldados de um exército contrário; era como um soldado que mata doze civis da nação do outro exército. É matar estupidamente, porque não se elimina combatente nenhum... Eu não podia portanto pensar em destruir, nem no todo nem em nenhuma parte, as ficções sociais. Tinha então que subjugá-las, que vencê-las subjugando-as, reduzindo-as à inactividade (...) Procurei ver qual era a primeira, a mais importante, das ficções sociais. Seria essa que me cumpria, mais que a nenhuma outra, tentar subjugar, tentar reduzir à inactividade. A mais importante, da nossa época pelo menos, é o dinheiro. Como subjugar o dinheiro, ou, em palavras mais precisas, a força, ou a tirania do dinheiro? Tornando-me livre da sua influência, reduzindo-o à inactividade pelo que me dizia respeito a mim (...)  Como podia eu tornar-me superior à força do dinheiro? O processo mais simples era afastar-me da esfera da sua influência, isto é, da civilização; ir para um campo comer raízes e beber água das nascentes; andar nu e viver como um animal. Mas isto, mesmo que não houvesse dificuldade em fazê-lo, não era combater uma ficção social; não era mesmo combater: era fugir. Realmente, quem se esquiva a travar um combate não é derrotado nele. Mas moralmente é derrotado, porque não se bateu. O processo tinha que ser outro - um processo de combate e não de fuga. Como subjugar o dinheiro, combatendo-o? Como furtar-me à sua influência e tirania, não evitando o seu encontro? O processo era só um - adquiri-lo, adquiri-lo em quantidade bastante para lhe não sentir a influência... 

 

 

Fernando Pessoa - O Banqueiro Anarquista (1922)
Antígona (2018)

 

 

 

tráfego de colheres

13.03.19

Além disso, os enfermeiros tiram lucros enormes do tráfego das colheres. O Lager não fornece colher aos recém-chegados, apesar de não se poder comer de outra forma a sopa semilíquida. As colheres são fabricadas na Buna, à revelia e nos intervalos, pelos Häftlinge que trabalham como operários especializados em Kommandos de ferreiros e latoeiros: trata-se de utensílios grosseiros e maciços, extraídos de chapas trabalhadas a martelo, frequentemente com o cabo afiado, de forma a servir ao mesmo tempo como faca para cortar o pão. Os próprios fabricantes vendem-nas directamente aos recém-chegados: uma colher simples vale meia ração, uma colher-faca três quartos de ração de pão. Ora, é permitido por lei entrar no Ka-Be com a colher, mas não sair com ela. Aos doentes curados, no acto da saída e antes da entrega da roupa, a colher é requisitada pelos enfermeiros, que a põem à venda na Bolsa. Juntando as colheres dos doentes de saída às dos mortos e dos seleccionados, os enfermeiros perfazem por dia a quantia correspondente à venda de cerca de cinquenta colheres. Pelo contrário, os que tiverem alta são obrigados a voltar ao trabalho com a desvantagem inicial de meia ração de pão a gastar para a aquisição de uma nova colher (...) 

Em conclusão: o roubo na Buna, punido pela direcção civil, é autorizado e encorajado pelos SS; o roubo no campo, reprimido severamente pelos SS, é considerado entre os civis como uma normal operação de troca; o roubo entre Häftlingue geralmente é punido, mas a punição atinge com igual gravidade o ladrão e a vítima. Queríamos agora convidar o leitor a reflectir sobre o que podiam significar no Lager as nossas palavras «bem» e «mal», «justo» e «injusto»; cada um julgue, na base do quadro que traçámos e dos exemplos acima referidos, quanto do nosso comum mundo moral podia subsistir aquém do arame farpado. 

 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

Black Square

Kazimir Malevich