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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

saber receber

Cecília, 02.07.20

Meus olhos não fabricam

a realidade [...]

Meus olhos não fabricam mas encontram. 

A terra que se enche já vem cheia 

[...]

Os homens dançam por vezes.

Este momento é teu. 

 

António Ramos Rosa in ANIMAL OLHAR  - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

em 1989, em 1992, em ...,

Cecília, 04.06.20

Em 1989, o quarteirão enfaixado entre a Avenida de Fernão de Magalhães, a Rua Abraços e a Rua da Póvoa abrigava umas quantas pessoas escondidas em prédios do século XIX. Sobreviviam nas cozinhas, nos quartos, nas salas, onde quer que os prédios dessem calor (...)

Nesse Inverno, os buldózeres executaram a ordem de despejo. Os que lá tinham ficado foram acordados pelos operadores que berravam «Fujam, a máquina é cega!». Deram com as paredes destruídas, as camas esmagadas, as molduras das fotografias partidas, conformaram-se e seguiram pelas ruas, uns de roupão, outros de casaco vestido à pressa. Em três dias ninguém se lembrava deles.

O empreiteiro queria construir em tempo recorde por medo de que a Câmara inventasse novas burocracias (...) Depois chegaram as retroescavadoras, que entregaram pazadas de entulho aos reboques dos camiões. E assim cavaram fundações com quinze metros de profundidade protegidas por taipais com placas que avisavam para o óbvio: perigo (...)

Era evidente que a Fernão de Magalhães não merecia o hipermercado pensado para aquele espaço. Veja-se os prédios em volta. Tudo feio, menos os azulejos antigos e o Vila Galé, a torre mais alta da cidade. Dito isto, cuspiam para o chão, concluíam «A vida é assim, o nosso Porto não aprende» (...)

As gruas ainda levantaram um torreão de cinco andares na fachada que dava para a avenida. E então soube-se. Em 1992, as obras pararam por imbróglio jurídico, excesso burocrático, corrupção ou falta de dinheiro, enfim, um dos cenários a que estamos habituados. 

 

Afonso Reis Cabral – Pão de Açúcar
Publicações Dom Quixote (2018)

 

tanto como antes

Cecília, 21.05.20

Certo dia perguntei ao senhor Xavier porque lhe chamou Piccolo e ele respondeu que gostava muito do Pinóquio, «Piccolo como tu», e eu fiquei a perceber tanto como antes. 

 

Afonso Reis Cabral – Pão de Açúcar
Publicações Dom Quixote (2018)

 

 

rugas (I)

Cecília, 19.05.17

 Arrugas

Rugas

 

 

  • ¿ Quieren tomar algo? – preguntó acto seguido Madeleine.
  • Con mucho gusto.
  • ¿ Qué quieren?
  • Lo que haya – contestó Delphine, que ya se había dado cuenta de que más valía no llevarle la contraria. La mujer se fue a la cocina y dejó a los invitados en el salón. La pareja se miró en un silencio apurado. No tardó en volver Madeleine con dos tazas de té al caramelo.

Frédéric se tomó el té por cortesía, aunque lo que más asco le daba en el mundo era el aroma a caramelo.

(…)

  • Muchas gracias por haber sacado tiempo para atendernos.
  • Nada de gracias. ¿ Les ha gustado el té al caramelo?
  • Sí, gracias – contestaron Delphine y Frédéric a dúo.
  • Me alegro, porque me lo regalaron y no me gusta nada. Así que intento darle salida cuando tengo invitados.

Al ver la casa de asombro de los parisinos, Madeleine añadió que lo decía en broma. Según iba envejeciendo, se percataba de que nadie pensaba ya que fuera capaz de tener sentido del humor. Claro, los viejos no pueden por menos de convertirse en unas personas lúgubres que no entienden nada ni son capaces del menor ingenio.  

 

 

David Foenkinos - La biblioteca de los libros rechazados (2016)
Titulo original: Le Mystère Henri Pick
Traducción de María Teresa Gallego Urrutia y Amaya García Gallego
Penguin Random House Grupo Editorial S.A.U. (febrero, 2017)