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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

reasons

03.11.21

"Olive, how is Christopher?"

Olive said, "His new baby died. Heartbeat stopped a few days before it was due. Ann had to push it out dead."

"Olive!" Marlene's pretty eyes filled with tears.

"No reason to cry about it," Olive said. (Olive had cried. She had cried like a newborn baby when she hung up the phone from Christopher after he told her.)

 

Elizabeth Strout – Olive, Again (2019)
Penguin Random House UK (2019)

 

 

vizinhança (ou as verdadeiras selvas)

09.06.21

No adro deram-lhe água; a vizinha cujo carro, segundo Angelina, «rodou toda a noite» também lhe levou pão e água, numa das vezes que ali regressou. De manhã, deixou-a em casa, fez-lhe o café com leite que a mulher não tomara na noite anterior, mas a velha mulher não se sente grata. Semanas depois deu pela falta de uma série de bens. Convenceu-se de que foi a vizinha que, naquela noite, lhe ficara com a chave de casa a responsável pelo roubo. Chegou a fazer queixa na GNR, mas diz que o processo não avançou. Hoje chora mais pelas coisas perdidas do que pelo receio do fogo. 

 

Patrícia Carvalho – Ainda aqui estou (2018)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Patrícia Carvalho (2018)

 

 

voltar a nascer

15.07.20

quando envelhecem as pessoas aproximam-se de voltar a nascer, choram por nada, falam do que não aconteceu, coleccionam ideias que não há 

 

António Lobo Antunes – A Última Porta Antes da Noite (2018)

Publicações Dom Quixote (2018)

 

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Composition ou Pim! Pam! Poum! (1934)

Maria Helena Vieira da Silva 

https://gulbenkian.pt/museu/works_cam/composition-ou-pim-pam-poum-147112/

 

 

voluntarismos

03.06.20

Mas o que mais me espantou foi o carrilhão de tias que ao longo das horas seguintes foram subindo as escadas a chorar. Durante o ano e meio em que o tio esteve em nossa casa, ninguém perguntava se era preciso alguma coisa, se ele estava melhor. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

 

la risa y el llanto

06.08.18

 

Um homem entra em uma palestra, e conta uma piada, todos morrem de rir, ele conta novamente a mesma piada, alguns dão risada, ele conta pela terceira vez, ninguém ri…

Ele sorri e diz:
Engraçado como vocês não conseguem rir da mesma piada, de novo e de novo ?
Mas porque continuam chorando pela mesma coisa, de novo e de novo ?

 

in www.mensagemdodia.com

 

 

Risa y llanto.jpg

 

 

 

a evitar

16.05.18

Evitar o choro, porque as lágrimas são delibitadoras, e ao abatimento seguem-se reacções violentas e decisões nefastas (...) a fúria é sempre alimento de mais fúria, como as lágrimas o são de mais lágrimas. 

 

 

George Sand – Diário Íntimo

Antígona (2004)

 

 

 

 

prato da semana: MEA CULPA requentada

29.07.16

" Os homens nunca se contentam... E eu, a falar franco, fartei-me deste Imprevisto Anárquico do Sonho em que vivi e agora apetece-me voltar a provar aquilo a que chamamos Realidade...Além disso... Ouve: vou dizer-te um segredo... mas promete-me que não o revelas a ninguém... Prometes? Na verdade, o fito principal do meu regresso talvez seja o de tentar revolucionar Chora-Que-Logo-Bebes... endireitar as espinhas dorsais das pessoas... secar as lamentações covardes dos Choraquelobebenses... pregar a reorganização viril da vida em novas bases... (...) E assim, com a mesma facilidade de quem fura nuvens, João Sem Medo coou-se como um espectro através da Muralha, a esfarrapá-la com as botas até alcançar a terra santa de Chora-    -Que-Logo-Bebes que pisou com comoção feliz onde se misturava o prazer do obstáculo vencido, a vaidade próxima de poder enfim contar proezas da viagem aos amigos ( e porventura também, já timidamente esboçado, o arrependimento do regresso). (...) Mas enriqueceste, ao menos? Trazes dinheiro  para me fazeres um enterro decente quando chegar a minha horinha? 

    - Não, minha mãe. Nem é necessário. Porque a vida da nossa aldeia vai modificar-se radicalmente.

E com ímpeto de sentir um comício na garganta, galgou até ao cimo de um penedo e desatou a discursar aos chorincas que o rodeavam:

    - Cidadãos! Precisamos de organizar uma conspiração urgente contra as lágrimas mal choradas. E rasgar o musgo das faces. E tirar o verdete das bocas. (...)

Mas, pouco a pouco, a um e um, os Crolaquelogobebenses, apavorados com estas palavras que perturbavam a vocação geral para mortos e a paz podre das longas digestões da Fome, começaram a esquivar-se à sorrelfa (...)

    - Deixa essas ideias, meu filho... Não estragues o nosso rico sossego, a nossa aprendizagem para cadáveres. E chora, chora, chora como nós. Derrete-te em lágrimas e desiste. 

     - Não, não desisto, Mãe - berrou teimoso e temerário (por fora).

 Mas ao mesmo tempo (...) foi murmurando à mãe com certa prudência prática de homem cansado:

   - Não desisto, Mãe. Não desisto, percebe?... Mas provisoriamente, para restaurar as forças, sabe o que me apetecia agora?... Um jantarinho cá dos nossos... (...) Mas não cuide que desisto da luta! Não! Jamais!... É só um apetite... 

(...) E a pobre lá foi cozer o bacalhau demolhado em lágrimas. 

Então, João Sem Medo, sempre à espera de não sabia bem de quê... talvez do milagre que um dia o ajudasse a secar aquelas lágrimas da Terra... talvez esperançado na chegada do outro João Sem Medo que, afinal, apenas o procurava de noite, durante o sono...

.... Então, João Sem Medo, provisoriamente, sempre provisoriamente, vendo tantos olhos a chorar... montou uma fábrica de lenços e enriqueceu. 

( Ah! Mas um dia, um dia!...) " 

 

José Gomes Ferreira  – Aventuras de João Sem Medo (1963)

 

Licença Editorial por cortesia de Publicações Dom Quixote para Círculo de Leitores (Dezembro,2003)

 

 

Dedicatória da Primeira Edição (1963)

 

 

Para os meus dois filhos:

Para ti, Raul José, homem há muito - e homem autêntico - , que aprendeste à tua custa que

a verdadeira coragem é a força do coração... 

 

Para ti, Alexandre, ainda criança, mas já com todas as tendências para não te tornares num desses falsos adultos que sujam o mundo e odeiam a Imaginação... 

 

Para os meus dois filhos - o homem e a criança - este Divertimento escrito por quem sempre sonhou conservar a Criança bem viva no Homem.