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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

pedro(a)s


Cecília

22
Jul19

Conheci a maturidade infantil

das crianças, mas também não é isso 

(...)

fartei-me de tentativas.

 

Desejo antes a ferida sólida

que não sara, o enigma, essa coisa

que se transporta inteira pelo Universo

como o irreprimível grito

do sangue no vento avisando

o futuro de que não ficámos ilesos

à espessa rede do Amor 

(...)

Aperta-me esse mitigado anel tão alto

(...)

porque a angústia, doce angor, e a esperança

informam o meu sangue

do regresso da tua ausência.

 

Barbeio a infâmia do nosso desencontro,

o homem pode punir-se numa higiene

precária, pode pintar-se e eu

cumpro imenso os rituais

do disfarce.

 

Fumo a tirania do meu medo, para mim

é sede de ser tarde

a vinda do teu húmido oásis

sotto voce e eu,

eu reduzido a nada.

 

A morte avança, ama-me sob a luz

da tua voz

cobrindo a terra elementar onde prometidos

potros de crinas soltas e alma leve

se opõem ao vazio. 

 

Paulo da Costa Domingos in Cabeças

 

 

Paulo da Costa Domingos – Carmina (1971-1994)
Antígona (1995)

 

 

 

 

glórias alheias


Cecília

26
Jun19

Os soldados de Mafra estão já no limite daquilo que os generais esperam deles, porque são o povo. E todos os povos regressados à condição de rebanho se cansam de morrer em seu próprio nome, quanto mais por uma glória que os deixa no anonimato. Nas pequenas misérias do dia-a-dia, num pequeno burgo dos confins da Península, os libertadores vão descobrindo o seu cansaço e amolecendo numa missão que se esfuma na sua condição de estrangeiros, condição que os povos «libertados» se não esquecem de lhes lembrar. 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

se


Cecília

10
Mar19

a confusão decadente com que agora tentam cumprir as ordens cada vez mais insensatas do Imperador, enquanto cavalga para a retaguarda com um pequeno destacamento de cavaleiros, no caminho de Mação, à cata dos retardatários que se arrastam Debaixo de chuva, fazendo das espingardas bordões ou amontoados à matroca em carros de bois roubados nas quintas, de pés estrapados em farrapos sujos, entregues à exaustão e à fome. Se o rasto caótico daquela marcha tivesse acontecido em Espanha, poucos sobrariam para contar os padecimentos e teriam acabado na ponta das impiedosas facas toledanas. Aqui, o que quase os derrota é a aspereza das sendas, a pobreza dos povos, a chuva e a lama onde se atascam as batarias de artilharia e onde os infantes perdem as botas e o moral. Se, na caminhada para Lisboa, lhes aparecesse um exército minimamente preparado teriam conhecido um vexame ou um massacre, ou ambas as coisas. 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

invariavelmente


Cecília

07
Fev19

disse a assistente, com um sorriso triste e cansado de quem trabalhava para pagar as propinas da faculdade, visto que os pais já não tinham posses para isso, de quem fazia turnos extra para conseguir mais algum para pôr numa conta poupança-habitação com o namorado, para se meterem numa casa assim que tivessem acabado os respectivos cursos e tivessem arranjado empregos que lhe dessem aquela segurança de que um casal em início de vida necessitava para se chegar ao balcão e pedir cem mil euros, a trinta e cinco anos, com taxa variável e indexada a uma coisa que eles não sabiam muito bem o que era, mas que era suficiente para lhes tirar muitas noites de sono. 

 

Ricardo Adolfo, Mizé - Antes galdéria do que normal e remediada

Alfaguara (2011)

 

 

 

universo sem cartão


Cecília

20
Jun18

Para quem é amigo do universo, o universo é amigo. 

 

 

Italo Calvino - Palomar (1983)

Planeta DeAgostini (2001)

 

 

 

Le Rat des Villes et le Rat des Champs

Jacques Offenbach

(20 de junho, 1819 — 5 de outubro, 1880)

 

 

nenhuma a que valha a pena responder


Cecília

19
Jun18

Não podemos estar cansados de uma miríade de coisas? Cansados de nos levantarmos todas as manhãs e de nos deitarmos todas as noites; cansados de ter calor o Verão inteiro e frio no Inverno... Cansados de nos fazerem perguntas atrás de perguntas e nenhuma a que valha a pena responder... 

 

 

George Sand – Diário Íntimo

Antígona (2004)

 

 

 

As Engomadeiras - 1884.86

Edgar Degas

 

...


Cecília

17
Ago16

" A família, a escola, os outros, todos elegem em nós uma centelha promissora, um território em que poderemos brilhar. Uns nasceram para cantar, outros para dançar, outros nasceram simplesmente para serem outros. Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez". 

 

 

 

" Quem viveu pregado a um só chão não sabe sonhar com outros lugares." 

 

 

 

" - Pai, a mãe morreu?

- Quatrocentas vezes. 

- Como?

- Já vos disse quatrocentas vezes: a você mãe morreu, morreu toda, faz de conta que nunca esteve viva.

- E está enterrada onde?

- Ora, está enterrada em toda a parte." 

 

 

" ... são as esperas que nos fazem envelhecer."

 

 

" Você deve ter medo é de não saber."

 

 

" Aqui é tão longe que Deus se perde no caminho." 

 

 

" Os meus filhos são a minha última vida. 

- Não é assim que você os ajuda. 

Não é segurando nas asas que se ajuda um pássaro a voar. O pássaro voa simplesmente porque o deixam ser pássaro. " 

 

" Derrotado, Ntunzi, ladainhava:

- Eu sei o que isto é... Isto é feitiço...

Era feitiço, sim. Mas não lançado por meu pai. Era o pior dos maus-olhados: aqueles que lançamos sobre nós próprios." 

 

 

 

" Não viver é o que mais cansa." 

 

 

 

" ... quem sai do seu lugar, nunca a si mesmo regressa." 

 

 

" E todo o bom pai enfrenta a mesma tentação: guardar para si os filhos, fora do mundo, longe do tempo." 

 

 

" De que vale ter crença em Deus se perdemos fé nos homens?"

 

 

 

" A política morreu, foram os políticos que a mataram."

 

 

" ... por que motivo Zacaria não se lembrava de nenhuma guerra? Porque ele lutara sempre do lado errado." 

 

 

" A felicidade é uma questão de pontaria." 

 

 

" - O seu avô paterno rezava junto aos rios quando queria pedir chuva. 

- E depois chegava a chover?

- Chove sempre depois. A reza é que pode ser feita com demasiada antecedência. " 

 

 

 

" - Você não sabe nada, meu irmão. Você tem idade para ser enganado, eu já tenho idade para ser aldrabado." 

 

 

" Você viu como o luxo escandaloso se encosta na miséria? " 

 

 

" Ntunzi responderia que Jesusalém se fundava num logro criado por um doente. Era mentira, sim. Porém, se temos de viver na mentira que seja na nossa própria mentira. Afinal, o velho Silvestre não mentia assim tanto na sua visão apocalíptica. Porque ele tinha razão: o mundo termina quando já não somos capazes de o amar. 

  E a loucura nem sempre é uma doença. Por vezes é um ato de coragem. O teu pai, caro Mwanito, teve essa coragem que nos falta a nós. Quando tudo estava perdido, ele começou tudo de novo. Mesmo que esse tudo aos outros parecesse nada. 

  Eis a lição que aprendi em Jesusalém: a vida não foi feita para ser pouca e breve. E o mundo não foi feito para ter medida." 

 

 

" Não sei se Marcelo foi o amor da minha vida. Mas foi uma vida inteira de amor. Quem ama, ama para sempre. Nunca faças nada para sempre. Exceto amar."

 

 

" Uma tarde levou a turma a visitar o local onde um jornalista que denunciara os corruptos tinha sido assassinado. No local, não havia monumento nem nenhum sinal de homenagem oficial. Apenas uma árvore, um cajueiro eternizava a coragem de quem arriscou a vida contra a mentira. 

- Deixemos flores neste passeio para limpar o sangue; flores para lavar a vergonha." 

 

 

 

Mia Couto  – Jesusalém (2009)

 

Coleção Essencial Livros RTP e LeYa (2016)