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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

quem diz muito que vai, não vai


Cecília

18
Mar19

Quem é homem de bem não trai o amor que lhe quer seu bem.

Quem diz muito que vai, não vai, assim como não vai, não vem…

Quem de dentro de si não sai, vai morrer sem amar ninguém.

 

Vinicius de Moraes

 

 

 

dinheiro & filhos


Cecília

28
Abr17

Jackie Chan disse que irá deixar metade da sua fortuna para solidariedade. A outra metade, no entanto, não será inteiramente para os filhos, Jaycee Chan e Etta Ng Chok Lam. "Se eles forem capazes, vão saber ganhar o próprio dinheiro. Se não forem, estarão apenas a desperdiçar o meu", justificou.

(citação retirada de um mag qualquer perto de si)

 

 

 

(...)

Não me amarra dinheiro não
Mas elegância
Não me amarra dinheiro não
Mas a cultura
Dinheiro não

(...)

Não me amarra dinheiro não
Mas os mistérios

 

 

eterna Cruz


Cecília

01
Ago16

" Em 64, executando um gesto exigido pela necessidade de perpetuar essas desigualdades que têm se mostrado o único modo de a economia brasileira funcionar (mal, naturalmente) - e, no plano internacional, pela defesa da liberdade de mercado contra a ameaça do bloco comunista (guerra fria) -, os militares tomaram o poder. (...) Assim as passeatas " com Deus pela liberdade", organizadas por "senhoras católicas" em apoio ao golpe militar, nos surgiam como cínicos gestos hipócritas de gente má.  (...) Tenho a vaga lembrança de ter visto uma moça que eu conhecia da casa de Macalé, de quem ela era vizinha de prédio em Ipanema, e da surpresa desagradável por sabê-la da Polícia Federal. Possivelmente ela exercia um cargo meramente burocrático ali, mas a presença entre os meus algozes de uma moça que eu vinculava a outro tipo de ambiente dava um ar ainda mais sombrio aos acontecimentos. (...) Isso me volta à memória com assiduidade ainda hoje, compondo a confusa lembrança da central carioca da Polícia Federal, onde Gil e eu passamos o dia sentados lado a lado em cadeiras, primeiro numa sala grande cheia de agentes atarefados, depois nalguma sala menor cuja porta era guardade por dois policiais. (...) Os civis sumiram. Fomos entregues a soldados cujos gestos ríspidos, combinados com as caras fechadas, deixavam claro que não havia diálogo possível. A própria homogeneidade da roupa dá aos militares uma aparência (e não só aparência) de entidade extra-humana. (...) Passamos por algumas situações intermediárias, das quais nada lembro, antes de sermos colocados na sala de um general que deveria ocupar um alto posto no Exército (...). A sala era grande, atapetada, mobiliada com o que exigiria uma descrição nos termos algo paradoxais de austera pompa. Estávamos exatamente de frente para uma grande mesa de jacarandá à qual sentava-se o general. A visão era frontal mas afastada, pois a mesa ficava no outro extremo da sala. De modo que o espetáculo do general calado e sério atrás de sua mesa ganhava, do nosso ponto de vista, um ar teatral. Esperamos que aquilo fosse, afinal, ser o interrogatório, embora já tivéssemos começado a perder a cabeça com as esperas inexplicadas, e já pressentíssemos que estávamos sendo roubados às nossas vidas. O general, de fato, passou muito tempo olhando fixamente para nós, sem dizer uma só palavra ou esboçar o menor gesto. (...) Seu primeiro movimento, quase imperceptível, depois desse longo confronto mudo - que, tenho a certeza, não durou poucos minutos -, foi o de apertar um botão que fez soar uma campainha nalgum lugar de onde veio um soldado a quem ele falou sem que ouvíssemos. Passaram-se mais muito intermináveis minutos antes que chegassem dois soldados trazendo bandejas com o jantar do general.  Era galinha. Ele fez calmamente sua refeição na nossa frente, como se estivesse num palco. (...) Dir-se-ia que ele desempenhava meticulosamente o papel da solidão despreocupada, entremeando-o de acenos discretos aos assistentes, como se dissesse: « Eu sei que vocês estão aí e me é indeferente a sua presença quanto a sentir-me à vontade para comer, mas é significativo que vocês me vejam fazer isso e que nada possam dizer a respeito: isto aqui diz tudo sobre nossas relações e muito sobre a condição em que vocês se encontram de agora em diante». (...) O general acabou de jantar, tocou de novo a campainha, os soldados vieram e levaram as bandejas. Ele nos olhou mais alguns minutos, apertou outra vez o botão, outros soldados entraram - possivelmente os mesmos que nos haviam trazido - e nos levaram embora. (...) Estivemos naquela sala apenas para esperar? O general queria nos conhecer? Era uma encenação para nos desestruturar e assustar? Nada disso pôde ser comentado por mim e por Gil enquanto erámos levados, numa viatura do exército, do antigo Ministério da Guerra para o quartel da Polícia do Exército na rua Barão de Mesquita, na Tijuca." 

 

Caetano Veloso  – Verdade Tropical  

 

Quasi Edições para Círculo de Leitores (Outubro de 2003)