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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

30
Mar21

na frente

Era uma mistura entre circo e o jardim zoológico. Não se pagava bilhete, mas fazia-se fila - uma fila monumental - à porta. Uns comentavam o espetáculo, outros limitavam-se a olhar, de boca aberta. Há vários testemunhos de época que referem, inclusivamente, a existência de «excursões» vinda de vários pontos do país para ver... aquilo. O quê? Homens e mulheres, sentados, lado a lado, a tratar da beleza dos respetivos cabelos. Quando e onde? Em 1976, no salão de Isabel Queiroz do Vale, no Centro Comercial Imaviz, acabado de estrear. Mas não só. Havia, naquele salão, um ser espantoso, inconcebível, pela forma como se vestia, como se movia, como fazia de cada corte de cabelo uma performance singular. Um cabeleireiro que exigia ser tratado como barbeiro. António Joaquim Ribeiro. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

29
Dez20

mais

O objetivo era sempre o mesmo: aprender. Ir mais além. Dotar-se de ferramentas que lhe permitissem sobreviver confortavelmente, agradavelmente, até conseguir o lugar ao sol no mundo da música. Tornar-se cabeleireiro, ou melhor, barbeiro, foi sempre um meio, nunca um fim. «É que gosto muito do som da tesoura, mas não há nada que chegue ao som de uma viola, de uma guitarra ou de um violino. Só lamento não ter tido a formação musical necessária que agora me ia fazer muito jeito. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

19
Nov20

evidências

O António detestava pessoas presumidas. Então, brincávamos com as situações e analisávamos coisas que, para um psicólogo, seriam muito interessantes. Por exemplo, certas atitudes, logo de manhã, que evidenciavam por parte de algumas das nossas clientes uma óbvia falta de relações sexuais ou uma grande frustração nesse campo. De que outra forma se podia explicar o comportamento daquela mulher mal-disposta, pronta a explodir, como se tivesse vontade de bater no cabeleireiro? 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

 

18
Nov20

velho sistema instagram

Na cidade, as propostas para mobilar as casas estão recheadas de produtos fantásticos. Frigoríficos cheios de comida pronta a ser confeccionada. Aspiradores, que permitem que a dona de casa rodopie pelo seu lar, limpando-a como quem brinca. Máquinas de lavar roupa, que evitam a canseira dos tanques onde à força de braços e mãos que esfregam, torcem, batem, na faina das barrelas domésticas, se lavam as roupas da casa. Panelas de pressão, que conseguem amaciar o mais rijo naco de carne, enquanto o diabo esfrega um olho. Na cidade, as tarefas domésticas diárias, a acreditar nos maravilhosos anúncios, são meros passatempos que lindas mulheres praticam alegremente. E toda a gente parece resplandecer de asseio. Já no campo, um luxo chama-se telefonia. Um sonho chama-se telefone. Visitas extemporâneas e de última hora... não existem. Visitas só a do padre ou a do médico. Não costumam ser bom sinal. Vizinhos? Ajudam-se, mutuamente, quando é preciso, mas ninguém entra pela casa de ninguém a pedir comida e a reclamar jantares: era só o que mais faltava. E os gestos quotidianos - varrer, limpar, cozinhar, arar os campos, pensar o gado, mondar, ceifar, enxertar as árvores, colher os frutos, apanhar caruma, acender a lareira -, são obrigações. Implicam muitas horas de trabalho esforçado, e não se pensa nelas como passatempos. Ter comida para cozinhar, isso sim, é uma alegria. Matar a fome a todos, aí está o verdadeiro prazer. 

Na cidade, famílias ostensivamente felizes têm crianças, quase sempre louras e inevitavelmente lindas, que adoram pudim Royal e «gostam e necessitam de Milo», o fortificante mágico sem o qual as suas pobres cabecinhas encaracoladas tombam de exaustão sobre imaculados cadernos e livros da escola. Mas as cabecinhas das crianças louras ou morenas dos campos, não tombam sobre cadernos e livros imaculados. Se tombarem, uma palmada do professor ou da professora fornece toda a energia de que precisam para se levantarem imediatamente. Portanto, ali o Milo não faz falta nenhuma a ninguém. Até porque o dinheiro não chega para esses luxos... finalmente, no campo, não se fala em beleza o tempo todo, nem se evocam vocábulos como elegância por dá cá aquela palha. De resto, o mais elementar sentido de decência tornaria impensável que as mulheres corressem de braços no ar ao encontro dos seus homens, quando estes chegam a casa, suados, sujos de terra, exaustos de trabalhar, para lhes servirem algo de tão insípido como um estupendo caldo Maggi. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018) 

 

9983.jpg

A refeição do menino

Júlio Pomar 

 

11
Nov20

as bruxas e o além

Mas em 2017, 77 anos depois dos acontecimentos de Bordéus, num Portugal democrático, é bom que os cidadãos portugueses possam ver estas "amostras" do regime que oprimiu Portugal. É bom que possam ver como foi a perseguição atroz movida ao meu avô, por ter ousado desobedecer ao chefe supremo dos espíritos e das mentes em Portugal. O chefe que do Além ainda consegue dominar certas cabeças... 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

22
Set20

a era pós alumínio

Aqui e ali, havia quem se queixasse da dona Maria da Conceição. Isso acontecia quando as reguadas eram dadas com um pouco mais de força do que ela própria estava à espera. Saíam-lhe mal. Neste particular, a régua de alumínio, com furos, cumpria muito bem a sua função: as mãos ardiam mas não inchavam. Por sua vez, uma pancada mal dada com a régua grossa, de madeira, podia criar uma situação incómoda para alunos, pais, professora. Uns e outros. Toda a gente. 

O mesmo no que dizia respeito à pedra do anel de formatura virada para dentro, que uma ou outra vez fazia que alguém fosse embora com sangue a escorrer de uma orelha. A estratégia de bater com a cabeça de quem não sabia fazer divisões contra o quadro era em geral mais segura, ainda que acontecesse o visado aparecer no dia a seguir com um galo na testa. 

Como ninguém sabia que treze anos depois da revolução de 1974 não era suposto isso acontecer, ninguém se importava. Ninguém levava isso mesmo a sério.

- Dê-lhe! - Era o que se ouvia sempre que algum adulto estava junto à secretária a falar com ela. 

Para ouvirmos bem. 

Caso tivéssemos dúvidas.

«Dê-lhe se ele precisar!», era a frase. E a dona Maria da Conceição cumpria a tarefa da qual fora incumbida.

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

 

 

 

01
Jul20

se só, não

- Falávamos mais das clientes, do que dos cabelos. Do feitio, da maneira de ser delas. Nós somos cabeleireiros, somos médicos e somos padres. É uma terapia. Antes era, pelo menos. Mas... é muito esquisito. As mulheres sabem perfeitamente quem nós somos, às vezes até nos contam a vida toda, mas na rua são capazes de não nos falarem. Fingem que não nos veem. Chegámos a encontrar clientes nossas no Pap'Açorda que, ali, faziam de conta que não nos conheciam. Gente supostamente educada, com apelidos sonantes. E nós, é claro, gozávamos imenso com isso. É óbvio que quando ele se tornou um artista conhecido, já faziam gala em conhecê-lo. Se só fosse cabeleireiro, não. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

15
Abr20

baús

porque quem não tem um baú na cabeça cheio de tralha antiga, episódios na aparência sem nexo de repente a ganharem sentido 

 

António Lobo Antunes – A Última Porta Antes da Noite (2018)

Publicações Dom Quixote (2018)

 

RMS Titanic

Afundou no oceano Atlântico
em 15 de abril de 1912

 

la-tragedia-de-hillsborough.jpg

A "Tragédia de Hillsborough" foi um incidente que ocorreu em 15 de abril de 1989 no Estádio Hillsborough, em Sheffield (Inglaterra) durante o jogo entre Liverpool FC e Nottingham Forest

Atentado à Maratona de Boston de 2013 foi uma série de ataques e incidentes que começou no dia 15 de abril de 2013

O incêndio da Catedral de Notre-Dame de Paris foi um incêndio violento que se deflagrou na Catedral de Notre-Dame de Paris em 15 de abril de 2019

 

29
Ago19

roubar, desatar, abrir

ir

aos planos superiores roubar um pouco de

conhecimento

(...)

desatar os laços dos atacadores da identidade 

(...)

ver

abrir as torneiras do gás da desistência

(ou da sabedoria)

quem?

 

 

Paulo da Costa Domingos in cabra-cega

 

 

Paulo da Costa Domingos – Carmina (1971-1994)
Antígona (1995)

 

 

Parle à ta tête

Je veux qu'on m'écoute, oui, je veux qu'on m'comprenne
Je veux aimer, savoir pourquoi j'suis là, dis-moi pourquoi j'suis là
Et je marche seule cachée sous mon ombrelle
S'te plaît, ne te moque pas de moi, j'vais au pôle emploi
Le moral à plat


Et je fais le mariole, parfois, j'fais des marmites
J'en ai marre d'aller très vite, j'peux démarrer de suite
Dites-moi c'que vous en dites
Oh, dites-moi c'que vous en dites

[Refrain]
Parle p-p-p-p-p, parle à, parle à ta tête
Parle à, parle à ta tête, parle à, parle à ta tête
Parle à tê-tê-tê-tête, parle à, parle à ta tête
Parle à, parle à ta tête, parle à, parle à ta tête


J'suis en mode burn out, est-c'qu'il faut qu'j'te l'répète ?
Ça brûle, ça pique et ça monte à la tête, j'deviens encore plus bête
J'garde le sourire, paraît qu'la vie est belle
S'te plaît, non, non, ne me ment pas, ou,i j'ai dit "ne ment pas"
C'est bien trop pour moi

[Refrain]
Parle p-p-p-p-p, parle à, parle à ta tête
Parle à, parle à ta tête, parle à, parle à ta tête (c'est bien trop pour moi)
Parle à tê-tê-tê-tête, parle à, parle à ta tête
Parle à, parle à ta tête, parle à, parle à ta tête


Toutes ces belles lumières et ce tumulte autour de moi
M’embrument et m’enivre d'absinthe, d'amour et j'y crois
Je donnerai tout sans rien garder sauf ta réalité
Je mourrai comme j'ai vécu une fois le rideau tombé
L'idéal auquel je rêve, il n'a rien d'anormal
Par delà, le bien, le mal le temps m'emportera
Comme une rose en cristal vacille et perd tous ses pétales
J'veux faire briller ma vie comme l'éclat d'une étoile
Pardonne-moi le jour où je n'pourrai plus te parler
Pardonne-moi chaque moment où je n't'ai pas regardé
Oh, pardonne-moi tout le temps que je ne t'ai pas donné
Et chaque lendemain qui s'ra un jour de moins
Moi, je veux vivre, que mon cœur brûle, j'veux m'sentir exister
Souffrir, pleurer, danser, aimer à en crever
Paris, Athènes, Venise, Harlem, Moscou à tes cotés
Le temps ne vaut qu'du jour où il nous est compté

[Refrain]
Parle p-p-p-p-p, parle à, parle à ta tête
Parle à, parle à ta tête, parle à, parle à ta tête
Parle à tê-tê-tê-tête, parle à, parle à ta tête
Parle à, parle à ta tête, parle à, parle à ta tête

https://lyricstranslate.com

 

 

22
Jul19

pedro(a)s

Conheci a maturidade infantil

das crianças, mas também não é isso 

(...)

fartei-me de tentativas.

 

Desejo antes a ferida sólida

que não sara, o enigma, essa coisa

que se transporta inteira pelo Universo

como o irreprimível grito

do sangue no vento avisando

o futuro de que não ficámos ilesos

à espessa rede do Amor 

(...)

Aperta-me esse mitigado anel tão alto

(...)

porque a angústia, doce angor, e a esperança

informam o meu sangue

do regresso da tua ausência.

 

Barbeio a infâmia do nosso desencontro,

o homem pode punir-se numa higiene

precária, pode pintar-se e eu

cumpro imenso os rituais

do disfarce.

 

Fumo a tirania do meu medo, para mim

é sede de ser tarde

a vinda do teu húmido oásis

sotto voce e eu,

eu reduzido a nada.

 

A morte avança, ama-me sob a luz

da tua voz

cobrindo a terra elementar onde prometidos

potros de crinas soltas e alma leve

se opõem ao vazio. 

 

Paulo da Costa Domingos in Cabeças

 

 

Paulo da Costa Domingos – Carmina (1971-1994)
Antígona (1995)

 

 

 

 

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