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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

muita coisa vai e outra tanta que não fica


Cecília

10
Mai19

O criado, de libré, calção de baeta e meia branca, vem anunciar que está lá fora o Raimundo, aprendiz do Convento. Dona Beatriz poisa o bastidor. Que o mande entrar para o vestíbulo. Quem é? - pergunta dom António, atrás da Gazeta de Lisboa de há três dias. O Raimundo da Anunciação, um rapaz de muito talento, ajudante de mestre Cyrillo, que nos pintou aquele fresco no coro da capela, vai para dois anos. 

Raimundo da Anunciação compôs quanto pôde o fato coçado, limpou da lama os sapatos cambados e as solas rotas vê-las-ia o chão se tivesse olhos. Dobra a magreza numa vénia angulosa e, com perdões pelo incómodo, atira-se à descrição das misérias, as suas e as dos outros três ajudantes da escola de artes que, aliás, já se preparam para abalar. Suas majestades partiram, como Vossa Excelência sabe, e deixaram por pagar mestres e ajudantes. Bem, os mestres foram para Lisboa, onde há sempre quem lhes encomende um retábulo, um retrato, seja quem for que por lá mande. Mas nós, minha senhora, estamos à esmola de uma sopa e temos à nossa guarda coisas preciosas, enfim, obras acabadas ou começadas por mestre Cyrillo, do Taborda, do Calisto, do Piolti, do Sequeira, do Machado de Castro, até uma escultura de mestre Giusti das últimas que fez antes de cegar (...) Muita coisa vai na carga dos barcos para o Brasil - acrescenta. - Até aqueles seis quadros sobre a conquista da Índia, mas não puderam levar tudo. 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

sensacionalismos de ontem e curiosidades eternas


Cecília

17
Jul17

Foi no dia 29 de Março de 1852 que se verificou o naufrágio do vapor Porto, à entrada da barra do Douro e à vista de centenas de pessoas que nada puderam fazer para socorrer os náufragos (...) O barco, que levava aos comandos o experiente piloto António Pinto, saíra do rio Douro, na véspera, ou seja a 28 de Março de 1852, que era um domingo, com destino a Lisboa (...).

O Porto era um vapor já cansado, já com alguns anos de uso. Evidenciava a necessidade urgente de alguns reparos, mas era geralmente considerado um navio seguro, e por isso ninguém, naquele dia, se atemorizou com os perigos que pudessem advir da viagem, apesar do mau tempo que se fazia sentir ao longo de toda a costa. Mas ao sair da barra, o barco começou a gingar perigosamente. O já aqui citado cronista, ao descrever a saída da embarcação do rio para o mar, diz que «naquele espaço que medeia entre as águas do Douro e o mar, o Porto começou a oscilar, ora para bombordo, ora para estibordo, enquanto o vento rugia no velame desfraldado em brutais sopros prenunciantes de tempestade, a varrer as primeiras lufadas da Primavera». (...) A viagem durou até alturas da Figueira da Foz. Dando-se conta de que em vez de amainar a tempestade se tornava cada vez mais violenta e ameaçadora, o piloto António Pinto resolveu retroceder para regressar ao ponto de partida. Não conseguiu, porém, entrar na barra e deu-se a tragédia.  

Voltamos a citar o colega que em 1852 fez a reportagem do acontecimento para um dos jornais do Porto: « A escassas dezenas de metros de terra firme, a embarcação empinava-se constantemente, desobediente ao leme (...) a corrente brincava com ela, encavalgava-a nas cordilheiras formidáveis ou mergulhava-a nos aquáticos vales espadanantes em tormentosos balanços rugidores». 

O estilo é, no mínimo, medonho. Mas noutros parágrafos as descrições são aterradoras (...) « o Porto agitava-se cavernosamente e, sob o céu empardecido, as gaivotas fugiam céleres para as bandas da terra, adejando, empurradas pela ventania que detinha a distância as barcaças dos pilotos. As vozes pretendiam dominar os estalos sinistros dos entrechoques das ondas, lançavam-se cabos ao desarvorado vapor, ouviam-se os desesperados gritos dos passageiros, acorridos à tolda, erguendo os braços, pedindo socorro e chorando ao verem os botes dos práticos fazendo-se à terra numa confissão de impotência». (...)  «Mas lá nos seus mistérios de negrume, o Porto acabara quebrado pelo meio. Como uma palha atirada de empuxão em empuxão, batera em lagedos, roçara em línguas de areia, morrera na fúria da porcela».

Na manhã seguinte, ao descerrar do nevoeiro, lobrigavam-se a boiar à tona das águas os restos do vapor. Das cinquenta e duas pessoas que havia a bordo, salvaram-se nove. Os sinos de todas as igrejas do Porto dobraram a finados (...) Entretanto, o mar começava a devolver os cadáveres à terra. Junto ao Castelo do Queijo apareceu a primogénita de José Alen, «descomposta», dizia um jornal; em Carreiros apareceram os corpos de James Elmsley, sobrinhos dos Andersens; o de um clérigo, o padre Bernardo António Pereira Leite de Carvalho; e o do juiz Silveira Pinto. O cadáver de José Plácido Braga, « inchado, ferido de rasgões fundos na carne pelos embates nos penedos», apareceu encravado nas rochas do Cabedelo. A sua mala, com uma moeda de ouro incrustrada no fundo, foi dar às praias de Lavra (...).

Uma curiosidade: em 19 de Julho de 1958, na barra do Douro, foram lançadas à agua as cinzas de um bravo marinheiro. Chamava-se John Cowie e era capitão do barco Seanew que vinha com muita frequência ao rio Douro, onde descarregava automóveis e sal e carregava vinho do Porto e têxteis. Quando morreu fez questão de que as suas cinzas fossem lançadas na barra do Douro, em homenagem ao sítio mais perigoso que conhecera, em toda a sua vida (e foi longa) de marinheiro. 

 

 

Germano Silva e Lucília Monteiro – Porto, a Revolta dos Taberneiros e Outras Histórias (2004)

Editorial Notícias (maio 2004)