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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

démographie comparée

28.07.21

Em 1940, Portugal contava com pouco mais de oito milhões de habitantes. Era uma sociedade muito rural, muito fechada, com muita pobreza. As pessoas conheciam, ou "reconheciam", quais eram as «boas famílias» e quais eram as famílias " a evitar". A nossa passou a ser reconhecida como fazendo parte dessa última categoria por razões políticas

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes (2017)

 

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in https://www.facebook.com/pg/acriadamalcriada/posts/

 

levantamento de complicações

28.07.21

Terá sido ainda em 1945 ou 1946, antes deste episódio, que o meu pai, inconformado com a decisão de Salazar e à procura de apoios, tomou a decisão de escrever a um dos barões Rothschild, Maurice, se não me engano, explicando-lhe que o «homem que o tinha ajudado a escapar aos nazis, a ele e aos seus familiares, em 1940 [o cônsul Aristides de Sousa Mendes], por ter agido contra as ordens do seu governo [de Salazar], se encontrava numa grave situação financeira, devido a um castigo disciplinar ilegal e necessitando de ajuda urgente». Reconhecido, o barão de Rothschild enviou rapidamente um cheque de trinta mil escudos em nome de Aristides de Sousa Mendes. Uma soma bem simpática, que foi muito bem acolhida. Mas os bancos portugueses levantaram tantas complicações que o dinheiro do cheque só chegou às mãos de Aristides em 1948 ou 1949 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

 

chega de diminuições

01.07.21

«Ninguém pode negar a humanidade do outro sem com isso diminuir a sua.»

James Baldwin, Nobody Knows My Name, 1961 

 

 

Jorge Vala  – Racismo, Hoje, Portugal em Contexto Europeu (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Jorge Vala (2021)

 

 

as neutralidades de bom aluno (I)

24.06.21

a sua carta sem resposta dirigida ao Presidente da República. Essa carta, datada de 1 de setembro de 1945, numa altura em que o meu avô já teria tido o primeiro AVC e precisava que alguém lhe escrevesse os textos, foi ditada por ele a Gigi. É uma carta que reflete a situação de desespero em que vivia a família [...] O presidente Carmona, homem de armas e chefe das Forças Armadas portuguesas também teve receio de responder ao cônsul de Bordéus, e , prudentemente, preferiu reenviá-la a Salazar, em cujo "Arquivo Pessoal" foi encontrada pelo biógrafo do meu avô. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

matriz de conduta (ou o que faltou ao fdp do funcionário da alfandega)

18.06.21

Vai simplesmente obedecer ao ditador de Lisboa, que na realidade nem sequer viu o "campo de batalha"? Um ditador que não respeita sequer a sua própria Constituição, e que atua abertamente contra o seu artigo 8.º? Para Aristides - trineto de um dos "pais" da primeira Constituição de Portugal - obedecer a Salazar era contranatura. 

Vinham-lhe constantemente à cabeça as palavras de sua mãe: «Nunca faças nada de que te possas envergonhar e que não me possas contar.» [...] Ou as palavras do juiz, seu pai: «Faz sempre o bem. Faz aos outros aquilo que gostarias que te fizessem.»

Teria de encontrar uma resposta para aquele "mundo" que ali se concentrava. Aristides vai ter de decidir nessa mesma noite [...] O seu coração implora-lhe que salve ao menos as pessoas que estão à sua porta [...]

Aristides está pronto. Nessa noite não dorme. Sai da cama às cinco horas da manhã, lava-se e barbeia-se. Angelina prepara um bom pequeno-almoço. Aristides manda chamar a polícia, para que a ordem seja mantida. Cerca das seis e meia, pede ajuda aos filhos e ao genro. Manda alguém ir chamar o rabino Kruger, que deixara bem claro que só iria para Portugal quando Aristides desse vistos a todos os seus irmãos. O cônsul e a mulher dirigem-se para a porta do segundo andar e abrem-na. As escadas estão cheias de pessoas - pais, mães e crianças sentados e deitados pelo chão. Em francês, o cônsul-geral de Portugal fala em voz bem alta para ser ouvido por todos os que estavam ali, e que irão repetir aos outros: «Bom dia a todos, a minha mulher e eu decidimos que vamos dar vistos de trânsito para Portugal a todos os que o desejarem, sem qualquer limite ou condição. Serão vistos gratuitos, que só pagarão à polícia portuguesa quand ochegarem à fronteira. Alguns de vós já aqui estão há vários dias e sabemos que têm passado por muito sofrimento. Dentro do possível, continuaremos a ajudar os mais necessitados.»

Estava a começar o que o historiador da Universidade de Jerusalém, Yehuda Bauer, qualificou no seu livro A History of the Holocaust, como a maior operação de salvamento da Segunda Guerra Mundial, levada a cabo por uma só pessoa, contra as autoridades do seu próprio país. Estávamos no dia 17 de junho de 1940

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

não há vento que pare / A potência natural

04.06.21

Calar, calar talvez.

Querer dizer é demais. 

 

António Ramos Rosa in MEDIADORA DO SILÊNCIO - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

[...]

Eu escrevi páginas e páginas
Vi sal e então lágrimas
Esses homens nos carros
Não conseguindo remar contra a correnteza
Escrito em uma lápide
"Não existe Deus na minha casa"
Mas se você encontrar o sentido do tempo
Você sairá do seu esquecimento
E não há vento que pare
A potência natural
Do ponto de vista correto
Dá pra sentir o álcool no vento
Com asas de cera nas costas
Procurarei aquela altura
Se você quer me parar, tente de novo
Tente cortar fora a minha cabeça
Porque
 
Estou fora de mim, mas sou diferente deles
E você está fora de sim, mas é diferente deles
Estamos fora de nós, mas somos diferentes deles
Estamos fora de nós, mas somos diferentes deles
 
Infelizmente as pessoas falam
Falam, mas não sabem do que falam
Leve-me aonde posso flutuar
Porque sinto falta de ar aqui
E infelizmente as pessoas falam
Falam, mas não sabem do que falam
Leve-me aonde posso flutuar
Porque sinto falta de ar aqui
Infelizmente as pessoas falam
Falam, mas não sabem de que raios falam
Leve-me aonde posso flutuar
Porque sinto falta de ar aqui
[...]
 

https://lyricstranslate.com

 

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educação superada

26.05.21

E lembra-se das vezes em que desciam juntos o Chiado, quando o acompanhou à Valentim de Carvalho, «e todos paravam para o olhar, mas não havia comentários desagradáveis. Havia espanto, um enorme espanto.»

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)