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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

universo sem cartão

Para quem é amigo do universo, o universo é amigo. 

 

 

Italo Calvino - Palomar (1983)

Planeta DeAgostini (2001)

 

 

 

Le Rat des Villes et le Rat des Champs

Jacques Offenbach

(20 de junho, 1819 — 5 de outubro, 1880)

 

 

a genialidade

- Gosto da maneira como escreves - disse o H.R. - Consegues dizer muito sem te tornares complicado.

- A genialidade pode ser a capacidade de dizer uma coisa coisa profunda de uma forma simples.

 

 

Charles Bukowski in Como Ser Publicado - Música para Água Ardente (1983)

Antígona (2015)

 

 

 

 Van Gogh versus Le Génie, 2015

Freddo Sacaro

 

 

 

pessoas em trâns(e)ito

 Depois, quando estava prestes a enfiar-se à frente do velho sedan, o puto que ia ao volante acelerou, aproximou-se, cortou-lhe a passagem e voltou a pôr-se ao lado do outro carro.

Frank voltou a enfiar-se atrás do carro dos putos. Continuavam a conversar e a rir. Viu o autocolante do pára-choques. JESUS AMA-TE. 

Depois reparou num decalque no vidro traseiro. THE WHO.

Bem, tinham Jesus e tinham os The Who. Por que raio é que não o deixavam passar? 

 

 

Charles Bukowski in Mercadoria Danificada - Música para Água Ardente (1983)

Antígona (2015)

 

 

 

 

palavra a existências demasiado ocupadas em existir

   

 

escritor negro 8.jpg

 

 

créditos imagem: http://www.ivettedurancalderon.com/articulos/Reportajes/Escritores-fantasmas-escritores-por-encargo-escritores-sin-firma-escritores-negros-o-negros-de-la-literatura-quienes-son-a-que-se-dedican.../213

 

 

 

Declara-se indignado por alguém poder fazer uso indevido do meu nome, e pronto a ajudar-me a acabar com a fraude, mas acrescenta que afinal de contas não há motivo para me escandalizar, porque na sua opinião a literatura só é válida pelo seu poder de mistificação, tem na mistificação a sua verdade; portanto uma falsificação, enquanto mistificação de uma mistificação, equivale a uma verdade elevada à segunda potência. 

    Continuou a expor-me as suas teorias, segundo as quais o autor de cada livro é uma personagem fictícia que o autor existente inventa para a tornar o autor das suas ficções. Muitas das suas afirmações até as compartilho, mas evitei dar-lho a entender. Diz que se interessa por mim sobretudo por duas razões: primeiro, porque sou um autor falsificável; segundo, porque pensa que tenho os dotes necessários para ser um grande falsificador, para criar apócrifos perfeitos. Poderei pois encarnar o que para ele é o autor ideal, ou seja, o autor que se dissolve na nuvem de ficções recobre o mundo com o seu espesso invólucro. E como o artifício para ele é a verdadeira substância de tudo, o autor que inventar um sistema de artifícios perfeito conseguirá identificar-se com o todo. (...)

    Pensando bem, este escritor total poderia ser uma pessoa muito modesta: o que na América se chama o ghost-writer, o escritor fantasma, uma profissão de reconhecida utilidade embora não de muito prestígio: o anónimo redactor que dá forma de livro ao que têm para contar outras pessoas que não sabem ou não têm tempo para escrever, a mão escrevedora que dá a palavra a existências demasiado ocupadas em existir. Se calhar a minha verdadeira vocação era essa e falhei-a. Podia ter multiplicado os meus eus, anexar eus alheios, fingir os eus mais opostos a mim e mais opostos entre si. 

 

Italo Calvino – Se Numa Noite de Inverno Um Viajante (1979)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)