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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

vivendo e aprendendo

21.06.21

Tu te ofereceste aberta como eras 

no sentido da dança, do fogo e do mar 

 

António Ramos Rosa in ENCONTRO - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

natural

16.06.21

Quando a criadora inaugurou a sua Loja Branca, António apareceu, de unhas pintadas e um chapéu com um arranjo de penas e tules:

- Numa vitrina estavam umas taças com bombons e ele ia tirar um. O pai de uma amiga minha - ela é que me contou - que ia a fazer o mesmo gesto, retirou a mão e disse faça o favor, minha senhora. A seguir, olhou, viu um homem com barbas louras, e ficou estarrecido. E ele? Ficava impertubável com o efeito que causava. Ele encarava aquilo com a maior das naturalidades. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

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não há vento que pare / A potência natural

04.06.21

Calar, calar talvez.

Querer dizer é demais. 

 

António Ramos Rosa in MEDIADORA DO SILÊNCIO - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

[...]

Eu escrevi páginas e páginas
Vi sal e então lágrimas
Esses homens nos carros
Não conseguindo remar contra a correnteza
Escrito em uma lápide
"Não existe Deus na minha casa"
Mas se você encontrar o sentido do tempo
Você sairá do seu esquecimento
E não há vento que pare
A potência natural
Do ponto de vista correto
Dá pra sentir o álcool no vento
Com asas de cera nas costas
Procurarei aquela altura
Se você quer me parar, tente de novo
Tente cortar fora a minha cabeça
Porque
 
Estou fora de mim, mas sou diferente deles
E você está fora de sim, mas é diferente deles
Estamos fora de nós, mas somos diferentes deles
Estamos fora de nós, mas somos diferentes deles
 
Infelizmente as pessoas falam
Falam, mas não sabem do que falam
Leve-me aonde posso flutuar
Porque sinto falta de ar aqui
E infelizmente as pessoas falam
Falam, mas não sabem do que falam
Leve-me aonde posso flutuar
Porque sinto falta de ar aqui
Infelizmente as pessoas falam
Falam, mas não sabem de que raios falam
Leve-me aonde posso flutuar
Porque sinto falta de ar aqui
[...]
 

https://lyricstranslate.com

 

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mute

20.05.21

Silêncio do incontível, como

recusar a veemência

desta cegueira? [...]

Artérias vivas,

estrelas, relâmpagos,

jorrarão da obscuridade vermelha?

 

António Ramos Rosa in MEDIADORA DO MUTISMO - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

serviços de inteligência artística

18.05.21

... no ano da graça de 1983 António Variações integrou a lista dos mais malvestidos «de Portugal» [...] O artista reage com olímpico desdém: «sabem lá eles o que é vestir» [...] Uma semana mais tarde, o caso volta a ser relatado pelo Contador Mor que «encontrou um punhadão de gente da RTP foi na festa dada na Charlie's Place para consagração dos mais elegantes e dos mais deselegantes da dificílima arte de vestir». E acrescenta quase com desdém: «António Variações, também um dos menos elegantes, que duvidou expressamente da capacidade do júri para avaliar estilos de bem-vestir.» Ao que António responde, mais ou menos, embora por outras palavras, «O estilo sou eu!» [...]

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

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constelações

18.05.21

No princípio de junho de 1982, António Variações fez a primeira parte do espetáculo dos UHF, na Feira Popular, em playback, e sente-se «mais num ringue do que num palco» diante dos mais de cinco mil jovens que o vaiam e insultam. Apesar de tudo, consegue controlar a multidão, consideando que «valeu a pena, pois são sempre experiências necessárias». Na segunda parte, António Manuel Ribeiro, o carismático líder dos UHF, toma abertamente a sua defesa, e critica a multidão que está ali para o ver e ouvir a ele, dizendo-lhes: «António é uma das poucas pessoas deste País que tenta fazer uma coisa de novo na música portuguesa. Ele precisa de apoio, pois está a tentar formar uma banda e é coerente e corajoso.»

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

figuras cheias de cor

14.05.21

E ele era uma figura apaixonante no deserto desta cidade tão provinciana na época, com uma meia de cada cor, os roupões, o fato-macaco, os sapatos diferentes, o visual tão criativo e tão fantástico. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

reflexos certos

12.05.21

Luís Ribeiro e Maria Adosinda, o irmão e a cunhada, recordam o gozo que António punha em caricaturar algumas das suas clientes mais altivas, até por ter sentido na pele as barreiras sociais que o tinham marcado com o ferro em brasa do desprezo que os citadinos votavam aos rurais. Tinha 11 anos quando, vindo de Fiscal, Braga, desembarcara em Lisboa, mas os irmãos afirmam que, tanto tempo depois ele ainda «sofria com este tipo de coisas». Por outro lado, os relatos também referem, de forma unânime, o cuidado, o carinho, a gentileza que punha no trato com os idosos, e a forma como costumava dizer: «Toda a gente dá um beijinho e uma carícia a um bebé, mas esquecem-se dos idosos, que têm necessidades ainda mais importantes que uma criança, e ninguém lhes liga nenhuma». Era um homem calado, mas irónico, com um pendor satírico que poucos terão conhecido. Os irmãos e os amigos mais chegados recordam que ironizava muito com as coisas. E reagia, perante alguém que pensava que era superior a ele. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)