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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

15
Mar22

barbas de molho

Cecília

Constatei o facto até mesmo em plena angústia, quando, torcendo o lenço entre as mãos, a Susan gritou: "Amo, odeio". Pensei: " Há uma criatura inútil a rir no sótão", e este pequeno exemplo serve para mostrar o modo incompleto como mergulhamos nas nossas próprias experiências.

 

Virginia Woolf – As Ondas (1931)

Colecção Mil Folhas / Bibliotex SL / M.E.D.I.A.S.A.T. e Promoway Portugal Ltda (2002)

 

 

March 15 marks 11 years since the eruption of peaceful protests against the Assad regime in Syria.

The pro-democracy demonstrations demanding change were violently suppressed, leading to a civil war that has cost the lives of hundreds of thousands and torn the country to shreds.

More than a decade later, a brighter future is still far on the horizon for the Syrian people.

in https://www.youtube.com/c/trtworld/community

 

 

06
Jul21

e aos costumes nada se faz

Cecília

A guerra terminou a 8 de maio de 1945 e o dia 9 de maio foi declarado Dia da Paz. Os chefes dos governos dos países aliados e de outros, para comemorarem a ocasião, fizeram discursos para a nação. Portugal (ou Salazar) não podia ficar atrás, e "naturalmente", pôs-se do lado das nações vitoriosas que se bateram pela democracia, pela liberdade e pela defesa dos direitos humanos. Salazar, que se lembrou dos elogios que lhe foram dirigidos em 1940, erradamente e por engano, pela imprensa estrangeira devido à política de abertura e acolhimento de refugiados", proferiu, na Assembleia Nacional, a 18 de maio, o discurso Portugal , a Guerra e a Paz (in Discursos, Salazar). A parte que mais marcou os gémeos, os meus avôs, começava assim: «Do mais não há que falar. Quaisquer outros na nossa situação acolheriam refugiados, salvariam e agasalhariam náufragos, ajudariam a suavizar a sorte dos prisioneiros, enviariam donativos a necessitados, por dever de solidariedade humana e também para manter no mundo convulsionado por ódios mortais o que poderia ser chama, embora ténue, de caridade, antevisão, embora pálida, da justiça e da paz. Pena foi não termos podido fazer mais.»

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes (2017)

 

 

24
Jun21

a luz da manha (sim, sem til)

Cecília

Contudo, o arguido já tinha sido condenado. E mais castigos estavam previstos para esmagar o "cônsul rebelde", que em sua casa, em Cabanas de Viriato, ainda sonhava com a compreensão do ditador (que até era beirão).

É neste estado de espírito que Aristides se encontra quando chega a Lisboa na segunda-feira, dia 8 de julho, esperando poder ser recebido por Salazar. O embaixador do costume dirá muito mais tarde, já nos dias de hoje, que Aristides não tinha "categoria profissional" para ser recebido pelo ministro, apenas isso. O meu avô nunca foi recebido por Salazar, apesar de lhe ter enviado um telegrama nesse dia: «Cônscio ter cumprido meu dever para com a pátria e em nada ter desmerecido consideração V. Exa., rogo-lhe se digne receber-me, o que agradecerei penhoradamente. A. Mendes.» Mas Salazar, que era um estadista tão importante (e arrogante), como escreveu o tal embaixador, não se dignou receber o subalterno rebelde, sobretudo para tratar de questões tão "insignificantes" como a vida ou a morte de refugiados em tempo de guerra.

É interessante observar que Aristides escreve no telegrama acima referido «o meu dever para com a pátria». A pátria de Aristides era uma pátria cristã, em que o amor ao próximo estava acima de tudo, e é isso mesmo que reafirma mais uma vez à sua hierarquia 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

18
Jun21

matriz de conduta (ou o que faltou ao fdp do funcionário da alfandega)

Cecília

Vai simplesmente obedecer ao ditador de Lisboa, que na realidade nem sequer viu o "campo de batalha"? Um ditador que não respeita sequer a sua própria Constituição, e que atua abertamente contra o seu artigo 8.º? Para Aristides - trineto de um dos "pais" da primeira Constituição de Portugal - obedecer a Salazar era contranatura. 

Vinham-lhe constantemente à cabeça as palavras de sua mãe: «Nunca faças nada de que te possas envergonhar e que não me possas contar.» [...] Ou as palavras do juiz, seu pai: «Faz sempre o bem. Faz aos outros aquilo que gostarias que te fizessem.»

Teria de encontrar uma resposta para aquele "mundo" que ali se concentrava. Aristides vai ter de decidir nessa mesma noite [...] O seu coração implora-lhe que salve ao menos as pessoas que estão à sua porta [...]

Aristides está pronto. Nessa noite não dorme. Sai da cama às cinco horas da manhã, lava-se e barbeia-se. Angelina prepara um bom pequeno-almoço. Aristides manda chamar a polícia, para que a ordem seja mantida. Cerca das seis e meia, pede ajuda aos filhos e ao genro. Manda alguém ir chamar o rabino Kruger, que deixara bem claro que só iria para Portugal quando Aristides desse vistos a todos os seus irmãos. O cônsul e a mulher dirigem-se para a porta do segundo andar e abrem-na. As escadas estão cheias de pessoas - pais, mães e crianças sentados e deitados pelo chão. Em francês, o cônsul-geral de Portugal fala em voz bem alta para ser ouvido por todos os que estavam ali, e que irão repetir aos outros: «Bom dia a todos, a minha mulher e eu decidimos que vamos dar vistos de trânsito para Portugal a todos os que o desejarem, sem qualquer limite ou condição. Serão vistos gratuitos, que só pagarão à polícia portuguesa quand ochegarem à fronteira. Alguns de vós já aqui estão há vários dias e sabemos que têm passado por muito sofrimento. Dentro do possível, continuaremos a ajudar os mais necessitados.»

Estava a começar o que o historiador da Universidade de Jerusalém, Yehuda Bauer, qualificou no seu livro A History of the Holocaust, como a maior operação de salvamento da Segunda Guerra Mundial, levada a cabo por uma só pessoa, contra as autoridades do seu próprio país. Estávamos no dia 17 de junho de 1940

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

15
Jun20

transmitir

Cecília

O silêncio era, portanto, uma das maneiras que o avô tinha de nos fazer compreender o que pensava acerca de determinado assunto.

A outra eram os gritos.

Os suspiros também eram uma forma de nos transmitir o que sentia. E uma determinada forma de pigarrear, que se escutava uma vez por outra (...) 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

 

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