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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

de dentro

07.06.21

Era realmente um grande artista, porque ninguém o fabricou, nasceu de dentro. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018) 

 

 

serviços de inteligência artística

18.05.21

... no ano da graça de 1983 António Variações integrou a lista dos mais malvestidos «de Portugal» [...] O artista reage com olímpico desdém: «sabem lá eles o que é vestir» [...] Uma semana mais tarde, o caso volta a ser relatado pelo Contador Mor que «encontrou um punhadão de gente da RTP foi na festa dada na Charlie's Place para consagração dos mais elegantes e dos mais deselegantes da dificílima arte de vestir». E acrescenta quase com desdém: «António Variações, também um dos menos elegantes, que duvidou expressamente da capacidade do júri para avaliar estilos de bem-vestir.» Ao que António responde, mais ou menos, embora por outras palavras, «O estilo sou eu!» [...]

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

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corpo puro

23.04.21

Desce a dançarina exacta

 

até ao extremo da brancura 

[...]

Absoluta a suavidade sem espera 

[...]

o silêncio entre os corpos

 

 

António Ramos Rosa in   A PARTIR DO DESERTO - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

https://www.huffpost.com/entry/benjamin-millepied-racism-in-ballet_n_58666c5ce4b0d9a5945afb7a

In the documentary, Millepied talks at length about the racism he encountered at the historic Paris institution upon joining in 2014. “I heard someone say a black girl in a ballet is a distraction,” he recalls. “If there are 25 white girls, everyone will look at the black girl. Everyone must be alike in a company, meaning everyone must be white.”

“I have to shatter this racist idea,” he adds.

 

 

haja samba e axé

18.02.21

É pesada a pedra desta vida

que a morte enterra a cada passo

mas quem vive a luz da nova vida

senão a palavra que levanta a pedra 

 

António Ramos Rosa in  À MEMÓRIA DE VÍTOR MATOS E SÁ  - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

quanto mais dívidas, melhor

(uma daquelas situações)

10.12.20

O seu ex-marido, Arnold, estava ligado ao show-business e ao mundo da arte. Não soube o que fazia concretamente. Assinava constantemente contratos com estrelas do rock, pintores, etc. O negócio tinha 60.000 dólares de débito, mas florescia. É uma daquelas situações em que, quanto mais dívidas se tiver, em melhor posição se fica. 

 

Charles Bukowski – Mulheres (1978)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2003)

 

 

gente que se diz muito avançada

24.11.20

- A 7 de janeiro de 1983 fomos os dois à festa do Pós-Modernismo, organizada pelo Leonel Moura na Sociedade Nacional de Belas-Artes. O António ia vestido com uma rede de capoeira, por cima de uma camisola de malha cinzenta e uns collants. A rede, fui eu que lha moldei ao corpo, com fechaduras e dobradiças. Depois, pus-lhe um cinto de correntes, e cosi-lhe, nos braços e nas pernas, fechaduras e dobradiças de portas. Foi a toilette mais espampanante que ele alguma vez usou - conta Teresa Couto Pinto [...] Mas quando António Variações entra na festa que assinala o evento, há um frémito de espanto, um silêncio brevíssimo, uma alegria. Passaram tantos anos, mas Leonel Moura, um dos grandes promotores do evento, recorda-se de ter dito aos seus pares: «este tipo não está inserido no nosso movimento, mas é muito mais avançado e radical do que toda esta gente que se diz muito avançada e muito de vanguarda». E acrescenta:

- Porque ele apareceu vestido à maneira dele, mas particularmente exuberante, com uma rede de galinheiro, um puxador de porta pendurada na orelha, um cinto de correntes, um bocado na onda do punk, mas em Portugal não havia nada assim. Aliás, a moda que estava também em exposição era uma coisa muito banal, não deixou rasto. Eventualmente alguns cresceram, e tornaram-se estilistas mais conhecidos, mas ali a sua intervenção não marcou. O Variações sim. E, provavelmente sem o saber, era realmente o artista pós-moderno por excelência. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

intelectual ordinarice vanguardista

02.11.20

Uma reflexão à distância dos anos, mas que mantém a sua acuidade. O artista plástico Leonel Moura, que descreve o meio cultural português como «extremamente conservador, tal como a sociedade portuguesa no seu todo», escalpeliza a ilusão que persiste até hoje, nesse circuito, de que é tudo muito avançado e são todos muito vanguardistas: «isso é uma rematada «mentira», pois o formalismo impera, quer nas relações entre as pessoas, quer na forma como se vestem e comportam. E no extremo oposto, cai-se no «ordinário»

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

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