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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

silêncio que se vai contar um fado (II)

Cecília, 23.07.20

- São rosas, senhor! - grunhia a dona Maria da Conceição.

Quem ouvia a história sem ter tomado o pequeno-almoço pensava no desperdício de transformar pão em flores, que enchem os olhos mas deixam a barriga a dar horas. Na fila dos muito bons, a coisa ainda se arranjava com leite ao pequeno-almoço. Na dos bons, havia pão sem nada. Mas à medida que se avançava para a dos mais ou menos, piorava bastante. E na outra ponta, no canto dos burros, a fome grassava a olhos vistos. Esse antro era povoado por quatro ou cinco criaturas que aproveitavam o tempo de aula para descansar.

- Deixem-no estar na paz do Senhor - dizia a professora quando alguém apontava para o João Pedro. 

Com a cabeça pousada nos braços, repousava no sono dos justos, pouco importado com reis, rainhas e outras peripécias que não dão de comer a ninguém. E os braços dele eram um mistério. Não trazia lanche, mas não emagrecia. Enquanto o meu pai gastava o salário na mercearia do senhor Júlio, o Zé Tractorista, pai dele, gastava-o lá também, mas em vinho. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

 

haja dó

Cecília, 16.07.20

A porta que se escancarava para os que se haviam portado de acordo com o que se sabia que estava correcto. Os antigos. De acordo com o que eles já diziam. 

Era o medo de não estar certo que se via nos olhos dele. 

Só que não era possível que se andasse há dois mil anos a ensinar uma doutrina errada. Esse era o argumento. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

 

 

as gretas nas resoluções

Cecília, 31.01.20

António chegou a Amesterdão em 1974, numa altura em que a cidade estava na vanguarda de um sem número de movimentos, desde a ecologia à luta anti-apartheid, passando pela liberalização das drogas ditas leves, que eram ali encarados com o mesmo pragmatismo com que, em muitos outros países, se aceitam e até estimulam outros vícios como o jogo. Havia para todos os gostos. Grupos anarquistas, ecologistas, pacifistas, os krakers, com as suas redes de okupas, que pressionavam o governo, por vezes de formas radicais, para a resolução do problema da habitação. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

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leitura

Cecília, 15.12.19

Pode ser que a leitura tenha os dias contados, não faço futurologia, mas por enquanto está muito melhor do que era. A avó dos meus filhos, que nasceu numa aldeia isolada do Alentejo e teve uma paixão proibida e incompreendida pelos livros, tinha de ler às escondidas porque a leitura era uma actividade inútil, não era produtiva, e uma mulher devia dedicar-se aos meritosos descasque de batatas e cosedura de meias. Hoje, podemos ler em público sem que a maioria dos considere uns vadios inúteis. Há duas décadas não poderia ter lido certos livros e certos autores: vivíamos em liberdade, mas as edições eram muito limitadas, tanto no volume de obras traduzidas como na edição, distribuição e importação (...) É verdade que Plotino, Saadi ou Diógenes Laércio continuam sem edições portuguesas, bem como alguns autores contemporâneos, como Cãrtãrescu ou Mrozek, mas hoje podemos entrar numa livraria e ter escolhas e liberdades que nunca tivemos. 

 

Afonso Cruz_ O macaco bêbedo foi à ópera - Da embriaguez à civilização (2019)
Fundação Francisco Manuel dos Santos e Afonso Cruz (2019)

 

 

vã soberba

Cecília, 30.07.19

Antecede o conhecimento a vagabundagem 

 

 

Paulo da Costa Domingos in Violeta Náutica

 

 

Paulo da Costa Domingos – Carmina (1971-1994)
Antígona (1995)

 

 

A Negação de Pedro, 1610

Caravaggio

 

Presa de indizível remorso, o apóstolo retirou-se, envergonhado de si mesmo. Dando alguns passos, alcançou os muros exteriores, onde se deteve a chorar amargamente. Ele, que fora sempre homem ríspido e resoluto (...) ali se encontrava, abatido como uma criança, em face de sua própria falta. Começava a entender a razão de certas experiências dolorosas de seus irmãos em humanidade (...) Foi aí que o antigo pescador refletiu mais austeramente, lembrando as advertências amigas de Jesus, quando lhe dizia: - “Pedro, o homem do mundo é mais frágil do que perverso!. . .“

in http://www.doutrinaespirita.com.br/?q=node/920

 

inerência(s) do social

Cecília, 11.07.19

Responsabilidade Social

FPF entregou material educativo e desportivo aos 23 alunos que gozam de bolsas de estudo federativas.

A Federação Portuguesa de Futebol formalizou, segunda-feira, a entrega de kits pedagógicos aos alunos do ensino secundário que beneficiam de bolsas de estudo, numa iniciativa conjunta com o Ministério da Educação.

Alexandre, Cláudio, Guilherme, Tânia, Guilherme, Catarina, Maria, Carlos, Guilherme, Manuel, Rodrigo, Flávia, Matilde, Tatiana, Luís, Marta, Gonçalo, Julita, Melissa, Leandro, Beatriz, Filipe e Vasco receberam, presencialmente ou nos seus locais de residência, computador pessoal, um tablet, acesso a vários eventos culturais na Fundação de Serralves, na Fundação Calouste Gulbenkian, além de material e livros de apoio escolar. Os bolseiros FPF receberam igualmente material desportivo e, cortesia da MEO-Altice, passes para assistirem ao festival de música MEO Marés Vivas.

Este kit pedagógico, entregue pessoalmente pela diretora da FPF Mónica Jorge aos alunos que se puderam deslocar à Cidade do Futebol, foi desenhado no sentido de apoiar o desenvolvimento académico e desportivo dos alunos do ensino secundário.

Esta ação de intervenção social, recorde-se, foi destinada a alunos que frequentam o 10.º ano no presente ano letivo. O júri que selecionou os bolseiros foi composto pelo jornalista Carlos Daniel, a apresentadora Catarina Furtado (Fundadora e Presidente da associação "Corações Com Coroa" e Embaixadora de Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População) e os internacionais Bernardo Silva (Futebol), Matilde Fidalgo (Futebol Feminino) e Pedro Cary (Futsal).

 

in https://www.fpf.pt/News/Todas-as-not%C3%ADcias/Not%C3%ADcia/news/23979?fbclid=IwAR19rs1EEDVrslU9Vf0L7UwobMiqnp1RE1oZ0vAGTb9RCLKVX8DVJB1rN8Q&smkid=1%3AU4UmNS9q2Vk&utm_source=smarkio_email&utm_campaign=NLFPF_20190711&utm_medium=email

 

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 René Magritte
The False Mirror
1929

 

amor, eu sei que vives

Cecília, 07.03.19

Dou-te um nome de água

para que cresças no silêncio.

 

Invento a alegria

da terra que habito

porque nela moro.

 

Invento do meu nada

esta pergunta.

(Nesta hora, aqui.)

 

(...)

 

Amor, eu sei que vives

num breve país.

 

Os olhos imagino

e o beijo na cintura,

ó tão delgada.

 

Se é milagre existires,

teus pés nas minhas palmas. 

Ó maravilha, existo 

no mundo dos teus olhos.

 

Ó vida perfumada

cantando devagar.

 

Enleio-me na clara

dança do teu andar.

 

Por uma água tão pura

vale a pena viver.

 

Um teu joelho diz-me

a indizível paz.

 

António Ramos Rosa in Teu Corpo Principia

 

António Ramos Rosa - Obra Poética I 

Assírio & Alvim (2018)